Banho de mangueira

Corria com o irmão, levava tombos na área da casa. Enchiam bexigas e as estouravam um no outro. O melhor era o banho de mangueira. O jeito de segurar, colocando o dedo na ponta, fazendo com que se tornasse um irrigador. Irrigador de risadas. Ainda poder molhar a mãe que passava de vestido, e que a partir daí começava a chingar, logo entrando na brincadeira. Mesmo após adulto, o menino sentava-se em uma cadeira de área e usava a mangueira apontada para o alto. Parte lembrando dos momentos gostosos, parte esperando os filhos para poder criar novos momentos.

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Outro lado

A verdade seguia um ritmo diferente do habitual para aquele jovem detetive. A moça deitada, envolta por uma poça de sangue, com o horror estampado em seu rosto. As janelas todas sujas. O rapaz notava em sua própria respiração uma aceleração. Esperava apenas que a menina morresse. O que ocorreu em dois ou três minutos. O detetive estava em sua própria cena de crime, com a arma em mãos. E a única coisa que pensava era que estava no melhor lugar para entender o crime. Lambeu a faca ainda quente. Aquele foi o maior júbilo que alcançou em vida. Um tiro, com o cano na própria boca, garantiu a eternidade daquele júbilo.

Orgasmo

Havia conjurado uma poderosa magia. Uma mistura de água e óleo, que menosprezando suas densidades haviam se unido de forma perfeita. A explosão de prazer preencheu os corpos e todo o céu. O calor, a acolhedora paz. Quando as bocas se separaram sua alma voltou ao corpo. Admirou a beleza de sua amada. E no seu sorriso, viu que ela queria mais.

Imprevistos

Preparava a comemoração de um ano. Tinha comprado diversos doces (que ela adorava) e espalhado pela cama. Pétalas de rosas mostrando o caminho do ninho de amor. Acontece que ela nunca chegou a ver. Morreu em um acidente de carro a caminho da casa do amado. O rapaz não conseguiu vê-la naquele dia, que era tão importante para os dois. Nem conseguiu devolver os doces, pois os pacotes estavam todos abertos. Imprevistos acontecem.

Picolé

Pai e filho tomavam um sorvete quando o palito do menino vai ao chão. Caem também as lágrimas no rosto delicado. O pai tenta entregar o próprio sorvete ao menino. É surpreendido pela resposta:
– Mas eu não gosto de sorvete de limão.
O menino baixa a cabeça e vê o sorvete do pai cair ao lado do outro. Olha imediatamente para o pai, que o conforta.
-Eu também não gosto de limão. Vamos pegar outro sabor?
O menino sorrindo enxuga as lágrimas.

Outros tempos

O menino andava descalço no cascalho. Suas costas desnudas marcadas das chicotada do feitor. Uma mão sem dedos, perdidos na moenda. Porém, o pequeno sorria. Tinha comido manga verde e bebido leite direto da vaca. E, ainda podia sorrir.