Bom veneno

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Ao sentar-se num canto escuro, no bar da esquina do mundo, pediu o pior veneno do lugar. A cada gole, o liquido azul da pequena garrafa, tornava-se mais doce. Uma mistura liquefeita de desejo e prazer. Ao entornar pela quinta vez o conteúdo no copo, a garrafa ficou vazia, o copo meio cheio. Olhando para o copo, fez com que o liquido girasse. Sentiu-se bem consigo. Ergueu a mão para o garçom com o dedo indicador levantado. Não sentiu que o corpo caia para frente derrubando copo e garrafa. “Ele queria ajuda” narrava o garçom aos investigadores, mas o que queria mesmo era outra garrafa.

Segredo

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Conseguiu cometer o crime perfeito. Nunca descobririam. Ainda que descobrissem, não o ligariam àquilo. Para que continuasse assim, não poderia compartilha-lo ou mesmo usufruir de sua conquista. Era como se nunca tivesse ocorrido. Um segredo que viveria consigo. Provara seus méritos, suas capacidades e sua inteligência. Ninguém, no entanto, atestaria. Continuaria como um qualquer que caminha pela rua, só, esperando o primeiro táxi passar. Olhou para o item dentro da sacola. Como ficaria em sua estante? Ao seu lado? No seu colo? Não descobriria. Como queria dizer ao mundo o que havia feito. Esse sentimento o mataria, ele sabia. Jogou a bolsa nas costas. Não, não havia dúvidas na sua cabeça. Ele tinha aproveitado cada segundo de tudo aquilo. Todavia, sabia que tinha acabado. Não mais sentiria o prazer inigualável. E o pensamento, simplesmente, deixaria de ser como era. Não haveriam mais planos, escapatórias ou manipulações. Não teria que estar no lugar certo na hora certa. Sua vida continuaria, normalmente. Eventualmente, até mesmo ele esqueceria de tudo aquilo. E anos depois, ao encontrar aquela bolsa e seu conteúdo, no fundo de um almoxarifado qualquer, pensará novamente no crime perfeito que cometeu. Que ninguém soube. Que ele esqueceu. Assoviou alto erguendo o braço. Seu táxi chegara.

Maternidade

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Apesar de insano, apenas o calor da fênix não era suficiente para chocar seus ovos. Para que seus filhos desfrutassem da liberdade, ela tinha que expurgar até sua última chama, tornar-se cinzas. Era um processo lento, desesperador e dolorido. Mas ao final, ao ver os filhotes voando sozinhos, ela renascia das cinzas e brilhava com uma chama impossível até então.