Espantalho

“Por que uma pessoa mata outra?”. Essa sempre foi uma pergunta difícil para André. Então ele não hesitava em fazer para todos seus alvos. Foi o que ele me explicou enquanto segurava a arma apontada para mim.

– O que você acha? – ele disse

Eu estava apavorado. Não sabia o que tinha acontecido. O dia anterior havia sido tranqüilo, trabalhei durante todo o dia. As seis, fui a um pub com amigos onde tomamos quatro chopes cada, era dia de chope em dobro. Contamos muitas piadas e rimos alto, mas não recebemos nenhuma reclamação. As pessoas do pub eram todas, como nós, clientes regulares. Enchi meu growler e fui para casa. Tomei mais um copo de chope, sentado, jogando videogame online. Ajeitei minhas coisas e fui para a cama. Não lembrava ter chegado à cama, mas estava cansado, às vezes esse esquecimento acontece.

Quando acordei já estava ali, amarrado a cadeira no lugar onde ficava a mesa de centro. Os braços estavam presos por um cabo de vassoura, que passava por minhas costas. Uma música tocava ao fundo. André, tão logo viu o retorno de minha consciência, se apresentou com um grande sorriso. Quis gritar, mas a arma estava ali fazendo essa opção parecer estúpida. Os fatos de morar sozinho e daquela sala ter sido preparada com isolamento acústico para assistir filmes e jogar, também tornavam a possibilidade inviável.

André foi gentil e me serviu água. Falou que estava ali para me matar e não havia possibilidade de não o fazer. Deu-me a escolha de ter uma morte rápida e com muita dor ou conversar com ele. Ele não disse que eu não teria dor ao conversar com ele, mas era a melhor aposta e aceitei a segunda opção.

– Sempre acreditei em dois motivos – disse, olhando para meu algoz – dinheiro ou amor.

Nesse dia faltavam vinte dias para que eu completasse trinta e cinco anos de idade. Era solteiro. Nunca havia encontrado alguém que fizesse um relacionamento melhor do que eu tinha. Nunca fui rico, mas tinha uma renda que sustentava meus poucos luxos. A casa onde estava agora era financiada, contudo estava em meu nome. Tinha uma moto CG450 que custava em torno de sete mil reais. Pagava minhas contas em dia, trabalhava com algo satisfatório e tinha tempo para tomar uma cerveja e jogar.

Com certeza não era uma vida amorosa ou financeira invejável a ponto de alguém me matar por isso. Não havia também qualquer interesse na minha casa como propriedade, havia um prédio de cada lado da casa que dificilmente alguém derrubaria para construir algo maior. Também nunca havia terminado com nenhuma namorada em maus termos, era amigo da maioria. Era ainda heterossexual, homem, alto, moreno queimado de sol, sem características que me ligassem a um país, região ou religião qualquer, então dificilmente seria um crime de ódio. Em resumo, não conseguia visualizar o motivo pelo qual eu seria morto. E isso se confirmou com a resposta de André:

– Isso não explica isto – disse ele apontando para a arma com a mão esquerda e depois para a cadeira onde eu estava amarrado.

– Outra possibilidade seria você ser doente! – eu disse sem pensar. Ele me olhou sem mudar a expressão satisfatória que tinha desde o inicio.

– Você parece inteligente, gosto de conversar com pessoas assim. Mas não me considero doente. A menos que curiosidade seja uma doença. Aposto que ao me ver e conversar comigo você está se perguntando o motivo d’eu estar aqui. Estou errado?

– Não, não está.

– E por ter essa curiosidade, posso dizer que você é doente?

– São coisas diferentes. A minha curiosidade não acaba com um corpo caído.

– Não essa verdade. Você é realmente inteligente – ele havia colocado a arma sobre a coxa e argumentava com as mãos. Em momento algum pareceu se justificar, parecia se alimentar daquilo.

– Mas quantas pessoas já morreram por curiosidade de alguém. Testes de explosivos e medicamentos já mataram milhares. A curiosidade pode não matar tanto quanto amor e dinheiro, mas pode matar você hoje. Talvez o motivo seja outro, talvez até seja que sua primeira resposta esteja certo, você não esqueceu nada?

Nesse momento eu fiquei sem palavras, de que eu tinha esquecido. Teria mesmo me esquecido de algo ou ele estava apenas brincando comigo. Ele riu.

– Você é inteligente, mas pensa muito. Eu também sou  assim – ele disse se levantando – Por que eu mataria você?

Ele tirou um punhal de seu bolso lateral. A lâmina era de aço inox e brilhava. Por um momento o rosto dele quase tocou o meu. Pensei em mordê-lo, mas seria inútil. Havia uma grande chance de isso fazer com que ficasse descontrolado e me matasse ali. Foi então que notei que minha cabeça também estivera o tempo toda presa, não conseguia vira-la ou mexer o pescoço.  Acredito que ele notou minha descoberta, mas ele não me ridicularizou, na verdade pareceu me admirar. Talvez ele esperasse que eu descobrisse aquilo ao tentar pular nele.

– Se você não se mexer vai ser mais rápido – ele disse com calma ao levar as mãos até meu olho esquerdo. Enquanto uma mão puxou a pálpebra a outra delicadamente enfiava o punhal acima do olho. Em um movimento rápido ele arrancou minha pálpebra superior e a dor penetrou em meus ossos.

Foi impossível conter o grito quando o aço cortou. Ardia como se ácido tivesse caído nos meus olhos durante uma tempestade de areia. Não importava o quanto tentasse os gritos saiam junto a lagrimas vermelhas que escorriam. Ele esperou paciente um minuto antes de puxar a pálpebra de meu olho direito. Entre os lampejos de dor implorei:

– Calma…

– Vai ser menos dolorido se eu for rápido – e eu pude ver preocupação em seus olhos. Foi o único momento em que vi algum sentimento em seus olhos.

– Pano – eu disse.

Ele pegou um lenço, o enrolou e colocou em minha boca. Em segundos o pano era triturado pelos meus dentes enquanto eu perdia a segunda pálpebra.

Após uns dois minutos (que pareceram horas) ele tirou o lenço de minha boca. Eu o via através de manchas de sangue que escorria por meus olhos.

– O que você agora?

– Sangue – eu disse. Com o olho direito ainda via ele indo se sentar no sofá e pegando a arma novamente, passando a apontá-la para mim – não sei o que quer que eu diga.

– Por que uma pessoa mata outra? – Perguntou pela ultima vez.

– Porque pode ou porque é um babaca, como você! – eu já estava morto. Qualquer resquício de esperança se esvaiu conforme o sangue secava em meus olhos e a visão se perdia.

– Não seja rude – ele me repreendeu com a sua voz pacifica que agora me parecia apenas apática – Poder matar nada mais é do que poder, poder é dinheiro, que poder eu demonstraria matando você? Não é isso.

– Então por que você vai me matar? Por que uma pessoa mata a outra?

Ele fez silêncio. Nesse momento notei a música que a música que tocava era a mesma do momento em que eu acordara. Provavelmente, em looping. Reconheci a música ao entrar no refrão, era “Scarecrow” da banda Avantasia. O vocalista cantava “o demônio veio para levar os mutilados embora” e lembrei-me de meus braços amarrados abertos pelo cabo de vassoura. Vi seu corpo uma ultima vez pelo véu de sangue e ele disse:

– Porque você vive.

 

 

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