Vodca

Tenho a impressão que tudo começou com aquele copo de vodca.

Era tarde da noite. Eu estava no bar que frequento há tempos, quando entrou uma moça linda. Cabelos pretos e lisos, pele clara e cintura bem delineada. Vestia uma blusa branca, solta, meio caída no ombro esquerdo. Era possível ver o elástico do seu sutiã, como a única vestimenta daquele ombro. Da cintura para baixo, uma saia clara. A saia quase chegava aos joelhos, mas, conforme andava era possível sentir a leveza do tecido. Todos os homens do bar olhavam para ela.

Sentou-se com duas amigas. Em pouco tempo, ela estava tomando um copo de vodca. O assunto parecia fluir alegremente naquele grupo. O sorriso dela não estava aquém de sua beleza. Provavelmente, pensei, seriam amigas de trabalho em um happy hour.

Eu, que estava acompanhando um amigo, conversava com ele sobre o grupo. Chamei um garçom. Pedi que levasse um novo copo de vodca para a garota, junto a um bilhete que eu escrevi. As palavras constantes eram apenas “gostei de como os teus lábios derretem o gelo”.

Ao receber o copo com a nova dose, por reflexo, ela olhou para quem havia mandado. Ergui meu copo de whisky, cumprimentando-a com respeito. Acreditei que não havia visto meu gesto, pois rapidamente, após me ver, ela fixou o olhar no copo. Parecia pensar. As amigas curiosas estavam sendo deixadas de lado.

De repente, ela sorriu. Pegou o copo, levou-o até o nível de seus olhos. Virou-o observando como o gelo se mexia no copo. Deu um leve sorriso e mordeu o lábio inferior. Baixou o copo até a boca. Os lábios rosados tocaram a vodca. E ela sorveu vagarosamente o líquido. Então, ela me olhou. Assim como eu havia feito, cumprimentou-me erguendo o copo.

Artur, meu amigo, deu um peteleco no meu braço. Disse que eu estava babando demais, encarando demais. Realmente estava. Desde que sentei ali, ou melhor, desde que ela chegou, eu não consiga desviar meu olhar. Pensando nisso, virei para Artur, e rindo, começamos a conversar.

Aproximadamente meia hora depois, o mesmo garçom trouxe, sem meu pedido, uma nova dose da minha bebida. Experimentei como me veio, sem gelo. O gosto estava melhor que o copo anterior. Perguntei ao garçom que confirmou tratar-se de um vinte e um anos. Novamente a cumprimentei. Instantaneamente ela sorriu. Seu sorriso espalhou uma luz por todo o bar. Ela forçou-se a ficar séria e mais uma vez me cumprimentou. Peguei o papel que veio com o copo, lá sua mensagem “posso esquentar um pouco os seus”.

Devo ter ficado rubro, pois ela riu satisfeita quando coloquei o bilhete no bolso. Mandei um bilhete pelo garçom, combinando uma saída após o bar. Ela concordou, não queria as amigas tirando conclusões. Artur também não viu as ultimas trocas de mensagens, segundo ele um machucado antigo em sua mão começara a doer, motivo que o fez ficar vários minutos no banheiro. Provavelmente só estava vomitando e não quis dizer.

Quando ele chegou, tomei só mais uma dose e me despedi de Artur. Fui para meu carro e logo alguém bateu na porta. Era ela. Deixei-a entrar e fomos a um lugar mais calmo com o carro. Naquele carro descobri que se chamava Luana. Ali descobri que ela gostava de passar tardes no parque e que estudava psicologia. Ali descobri alguns de seus segredos, que ela afirmava que não entendia porque continuava os contando. Ali me apaixonei e ali a matei.

Foi a primeira vez que matei alguém. Provavelmente a vez mais desajeitada e sentimental. Seus lábios se mexiam graciosamente contando sua bela vida, suas conquistas e tragédias. Seus olhos vivos me deixavam presos. Ela não viu a ponta da fivela entrando em sua garganta e a rasgando. Foi rápido. Ela olhou para mim com incredulidade. Procurou o trinco da porta, mas já não tinha forças. O sangue escorria do pescoço e boca. Ela tossia e parecia engasgar no sangue. Eu a abracei até que morresse. Quando aconteceu, eu beijei de leve sua boca.

O corpo de Luana nunca foi descoberto e tampouco suspeitaram de mim. Ninguém viu sairmos juntos, ela nunca contou para as amigas e eu nunca contei para Artur. Um dia, contudo, Artur viu a foto dela em uma caixa de leite, que mostrava pessoas desaparecidas. Ele comentou que parecia a garota daquele dia, dois anos atrás, no bar. Eu concordei que parecia. Vi ele apertar sua mão, do velho machucado. Perguntei se ainda doía, ele desconversou. Foi o ultimo dia que vi Artur.

Tive muito trabalho para limpar o carro e roupas daquela vez. Com o tempo as mortes passaram a ocorrer de forma mais metódica e limpa. Apenas daquela vez entrei no carro sem planos de matar, a coisa simplesmente aconteceu. Cada morte tem uma nova realidade, mas em todas elas, ao beijar meu par, procuro o sabor de Luana, o sabor daquele primeiro copo de vodca.

 

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