Louças

Começava a escurecer e os três jovens caminhavam. Artur, o quarto do grupo, ficara cuidando do carro quebrado. A região era cheia de pequenos rios e cachoeiras. Em uma dessas cachoeiras eles foram passar a tarde e se banhar. Na volta, já perto das seis, o carro quebrou no meio de um carreador. O tempo do dia, nublado, agora começava a tomar ares de tempestade. Por isso, acreditavam que não havia carros ou carroças nos sítios que os cercavam.

Quando se está numa aventura, como estavam, todos os desafios parecem dar energia. Mas depois de uma hora de caminhada à procura de ajuda Rita estava cansada. Ricardo, seu irmão, dizia que era drama, falava que João devia carregá-la no colo, já que eram namorados. Claramente, apesar de animado, João era o mais cansado do grupo, o que fez com Rita xingasse seu irmão com nomes impronunciáveis.

– Mesmo se o João tivesse inteiro não te aguentaria – provocou Ricardo, enchendo as bochechas de ar e erguendo os braços ao lado do corpo, como o boneco da Michelin. Rita acertou-lhe um tapa nas costas, acertando as contas.

– É – desviou o assunto João, com o tom de voz sério – acho que precisamos encontrar um lugar, a chuva não deve demorar mais que meia hora. Não vamos conseguir voltar ao carro também.

– Devíamos ter ficado no carro com Artur – protestou Rita.

Os amigos tinham todos vinte um anos, com exceção de Ricardo que era dois anos mais novo. Assim que o carro quebrou tiveram que decidir se ficavam no carro ou procuravam ajuda. A ideia melhor aceita foi que cobririam maior espaço se dividindo. A princípio, ficariam Artur, que tinha um problema na perna que o fazia mancar, e Rita. No entanto, a moça não quis separar-se do irmão e namorado. Após um debate, Artur disse que não teria problema de ficar sozinho e assim seguiram.

– Ali, uma casinha – disse Ricardo – parece ter uma luz acessa.

A casa estava há aproximadamente quinhentos metros. Era pequena, branca e verde. Ficava numa pequena elevação, comparado com onde estavam. Subiram a estrada e da cerca bateram palmas. A casa não ficava ao lado da cerca. João então abriu a porteira e entraram. Chegando a frente da porta João e Rita voltaram a bater palmas. Ricardo seguiu a casa pela lateral.

– Nossa! – Ricardo falou chamando a atenção do casal. Ao chegarem onde Ricardo estava o rapaz continuou – uma Elba! Fazia uma era que não via uma dessas.

A Elba era uma perua produzida pela FIAT entre 1986 e 1996. O que queria dizer que aquele carro com certeza tinha mais de vinte anos de idade. Apesar disso, aquela parecia ter pelo menos cinquenta. A pintura verde estava toda descascada e enferrujada. Os pneus estavam na lona. Ao passar o dedo no vidro Ricardo descobriu que o pó cobria as janelas dos dois lados. Tentou abrir as portas, sem sucesso, a ferrugem havia corroído os trincos.

– Para de mexer Ricardo, vai que aparece alguém – disse Rita.

– Você não está curiosa para ver por dentro?

O pai dos dois tivera um carro daqueles e várias fotos dele jovem eram dentro do carro, logo uma parte da menina realmente queria ver como era. Assim acompanhou Ricardo até o porta-malas, onde fariam a última tentativa de abrir o carro. Sem a chave, Ricardo apertou o botão torcendo que estivesse destravado e tentou erguer a porta, ela abriu.

– Uau! – Rita exclamou.

Dentro do carro havia uma grande coleção de pratos antigos. Cada um diferente do outro em tamanho e cores. As únicas coisas em comum eram o pó que os cobria e o fato que cada um tinha um rosto estampado. Cada rosto era de uma pessoa diferente e extremamente detalhado. Alguns estavam sérios, a maioria aterrorizada. Ao notar o terror retratado naqueles rostos os três, involuntariamente, deram um passo pra trás. Um segundo depois os três pularam ao ouvir a voz rouca.

– O que pensam que estão fazendo?

Após virar-se para a voz, ainda se recuperando do susto, João reconheceu sua fonte. Ela vinha de um senhor de pouco mais de um metro e meio de altura. O homem parecia ter por volta de setenta anos. Apesar da idade, suas roupas sujas e velhas pareciam ter saído de um dia de muito trabalho. Seus olhos estavam sérios e empunhava uma foice em sua mão esquerda.

– Desculpe senhor! Entramos aqui apenas procurando ajuda – disse João.

– E assim que pedem ajuda? Mexendo nas coisas dos outros? – o velho pareceu mais ameaçador enquanto falava – O que querem com minha louça?

– Foi meu irmão idiota que estava mexendo – respondeu Rita fuzilando o irmão com olhar e dando ênfase no “idiota” – Peço desculpas por ele.

– Será que o senhor não teria um telefone que pudesse nos emprestar? – disse João, enquanto viu que o homem pareceu acreditar em Rita – Nosso carro quebrou na estrada e com a chuva e escuridão provavelmente não acharemos outro lugar para nos ajudar.

O velho andou em direção ao carro. Os três jovens se afastaram. Com força ele bateu o porta malas fechando-o. No mesmo momento um trovão fez com que os três tremessem.

– Não tenho telefone.

– Tem um lugar em que possamos dormir por aqui? – perguntou Ricardo. Ao ver os olhares de seus companheiros completou – O que? Não vamos achar outro lugar.

Apesar de ser verdade, Rita queria sair o quanto antes dali. Talvez fosse a noite, talvez a foice de mão que agora o senhor colocava na cintura.

– Vocês não conseguiriam sair daqui mesmo que quisessem – disse o velho enquanto tirava as chaves do bolso. Parou a frase para escolher a chave certa e colocando na fechadura da casa completou – Não com essa chuva.

Rita quase saiu correndo com a pausa entre as frases. Agora, que o senhor havia entrado na casa, aproveitava para cochichar tentando convencer seu namorado e seu irmão a saírem dali.

– Não podemos dormir na mesma casa dele, vai que ele ataca a gente?

– Fique tranquila, não vou deixar vocês dormirem aqui – disse o homem que vinha com uma chave na mão. – Vocês quatro podem dormir na sede.

– Quatro? – Ricardo perguntou. Não tinham falado nada sobre Artur.

– Vocês não eram quatro? Erro meu. Mas aqui está, podem ficar na sede. Ela tem uns dois quartos que ainda tem telhados, não vão ter problemas com a chuva – entregando a chave a João, completou – só não mexam na minha louça, entenderam?

Os três concordaram e perguntaram onde ficava a sede. Numa rápida explicação, utilizando-se da claridade provocada por raios o senhor mostrou o caminho. O velho ainda informou que fora da casa havia um banheiro de madeira que poderiam utilizar.

Os três foram para casa rápido, tentando fugir da chuva que chegava. Contudo, a chuva foi mais rápida e conseguiu os pegar antes de entrar na casa. João abriu às pressas a porta e os três entraram. João tomou o cuidado de fechar a porta. A água continuava caindo em seu corpo. Com as mãos na porta olhou para cima, faltava um grande pedaço do teto. Ao virar-se viu que algumas paredes também estavam derrubadas. Gritou pelos dois que tinham saído na frente, procurando um abrigo. Correu quando ouviu a voz de Rita. Chegou a um dos quartos e viu que os dois irmãos estavam parados. Rita abraçava a cintura de Ricardo.

– Ela está com medo das paredes – disse o irmão – você reparou?

– Só reparei as que faltavam da sala – confessou João ligando a lanterna de seu celular e apontando-a contra as paredes do quarto – nossa!

As paredes estavam cheias de pratos como aqueles da Elba. Todos com rostos desesperados. Mirou a lanterna para o corredor e viu que todas as paredes estavam assim. A chuva continuava forte. O barulho dos trovões e a luz dos relâmpagos entravam por toda a casa devido à falta de telhado, os pratos pareciam se mexer nas paredes quando isso ocorria.

João colocou pegou os três celulares e posicionou-os formando um triangulo ligado às paredes por suas pontas. Ligou a lanterna de cada um apontada para cima. A iluminação acalmou os três. Todavia, ela tornava os rostos dos pratos ainda mais assustadores.

– Minha bateria não deve durar muito – disse Ricardo após umas duas horas que estavam ali.

Rita e João sabiam que não era apenas o dele. Em poucos minutos ficariam sem luz.

– Alguém precisa ir ao banheiro? – Perguntou João.

– Está doido? – em uníssono questionaram os irmãos.

– Eu preciso – confessou João sorrindo.

– Faz aí mesmo! Está louco de sair com essa chuva? – perguntou Ricardo

– A chuva não está tão forte. E eu não tenho coragem de usar esse local como um banheiro sabendo que tem um de verdade lá fora – antes que Ricardo e Rita argumentassem, completou – Eu vou rápido, o Ricardo vai comigo até a porta e deixa-a trancada. Assim que eu terminar eu volto direto e bato três vezes na porta, entro e ficamos aqui até de manhã.

Rita tentou protestar, sem sucesso. Passou a pensar que quanto mais discutisse mais aqueles pratos a olhariam. Achou que era melhor terminar com aquilo logo.

Após um beijo em Rita (e um pedido de calma) João seguiu com Ricardo até a porta. João saiu e seguiu ao banheiro com a lanterna de um dos celulares. A chuva já tinha parado. Ricardo esperou que João chegasse mais perto do banheiro. Nesse momento ouviu um prato cair no chão e quebrar. Junto, um grito de sua irmã. Olhou em direção ao quarto instantaneamente, não dava para ver dali. Olhou pela porta para chamar João, não via mais nenhuma luz. “Deve ter entrado no banheiro”, pensou. Fechou a porta o mais rápido possível que pode e correu em direção ao quarto.

O celular de Rita não estava mais ali. Iluminou todo o quarto com sua lanterna, Rita não estava lá. Gritou pelo seu nome, sem respostas. Um desespero apoderou-se de sua alma.

– Rita, não brinca comigo! Onde você está?

Ela não brincaria daquele jeito. Ele conhecia sua irmã o suficiente para saber disso, ela estava com muito medo. O grito. Alguém a havia pegado. Correu por toda a casa, quartos com e sem teto, todos vazios. A única coisa que havia naquela casa era a horrível coleção de louça. Chegou à conclusão que tinha que chamar João. Ao caminhar para a porta, sua bateria acabou, sendo iluminado agora apenas pelas estrelas que começavam a aparecer no céu.

Ao chegar à porta, uma batida. Esperou e vieram as outras duas batidas, era João. Abriu a porta com lágrimas nos olhos. Todavia, a sua frente não estava João e sim o velho. Com cuidado o velho depositou quatro pratos no chão, ao lado dos pés do jovem. Um prato tinha o rosto de sua irmã desenhado, branco de pavor. Noutro, o rosto de João, assustado. Nos outros dois pratos não havia rosto. Tirando a foice da cintura o velho olhou Ricardo, que não conseguia se mover, e deu um grande sorriso de dentes amarelos.

– Você tem certeza que não eram quatro?

Artur acordou na manhã seguinte, dentro do carro. O sol brilhava bonito, muito diferente de quando adormecera no dia anterior. Os amigos não tinham entrado em contato. Tentou ligar em seus celulares, agora que havia sinal no seu, sem retorno. Pegou a chave do carro e tentou ligar o motor. Funcionou de primeira. Achou estranho, na noite anterior tinha tentado por várias vezes sem sucesso. Não querendo desperdiçar a sorte, seguiu para casa. Não encontrou os amigos no caminho. Não havia casas perto da estrada, provavelmente tinham ido direto à cidade. Só quando chegou à cidade descobriu que nunca voltaram. Ajudou nas buscas, depois se tornou o principal suspeito, o júri não acreditou que ele seria capaz daquilo.

No dia dos acontecimentos recebeu uma encomenda em sua casa, dentro da caixa havia apenas uma louça antiga, um prato branco. Sem remetentes, nunca descobriu o que significava, mas tinha a certeza que estava relacionada aos sumiço de seus amigos, isso o assustava. A louça o assustava.

Anúncios

Um comentário em “Louças

  1. Zulmira disse:

    Impressionante… Sei que esta noite vou sonhar com esses pratos… 😮

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s