Florescer

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Sentada na cama, Luana respondia a uma mensagem de texto de sua mãe. A mãe perguntava como ia seu dia e se a filha chegaria logo em casa. Era a segunda mensagem da mãe perguntando se algo estranho havia acontecido naquele dia. A menina negou, novamente, mas suspeitou que a mãe pudesse saber de algo sobre o que estava prestes a fazer. Era o aniversário de Luana, que agora estava com dezoito anos de idade. Para comemorar, combinou com seu namorado de passar aquela tarde juntos, na qual lhe entregaria sua virgindade.

Respondeu à mãe e olhou para o celular por alguns minutos. Carlos, seu namorado, tinha ido ao banheiro. Como seria contar para mãe que havia perdido a virgindade? Sempre tiveram uma boa relação, conversando sobre tudo. A mãe, pensou Luana, já devia estar ciente. Havia notado a mãe nervosa nos últimos dias, mas sabia que se começassem a conversar, logo, contaria tudo. Luana queria fazer primeiro, contar depois. Colocou o celular de lado, a mãe já havia marcado a conversa, só restava aproveitar o momento. Deitou-se na cama.

O quarto-suíte de Carlos, numa república, era pequeno. Carlos morava com mais três, no entanto, tinha garantido que cada colega não apareceria no apartamento aquele dia (ou morreria). Luana riu lembrando-se da cara de um deles ao sair correndo quando o casal chegou ao apartamento.

A menina olhava o ventilador de teto, como ele dançava lentamente. Ela adorava aquele quarto, apesar de sua simplicidade. Eram poucos móveis, mas cada um tinha uma história. O relógio, na parede, tinha uma grande foto do Pateta da Disney. Foi o primeiro presente que a menina dera a Carlos. Os livros da faculdade, no chão, estavam ali desde a semana passada, quando Luana ajudara Carlos a estudar. O velho armário cheio de adesivos, uns sobre os outros, era um retrato da infância do seu amado. Cada detalhe, cada forma e cada cheiro. Ela adorava tudo aquilo, não conseguia imaginar um lugar melhor para comemorar aquele dia.

Fechou os olhos e lembrou-se de uma professora de artes que tivera. Sua professora dizia que o problema da sociedade é que havíamos deixado de notar as coisas. Deixamos de tocar, de cheirar, de sentir, de ouvir e de ver, ou seja, deixamos de ser. Como um experimento, sugeria aos alunos que se masturbassem. Apesar das gracinhas, ela explicou que são tantos medos, entre eles o de ser ouvido ou descoberto por alguém, que perdia-se boa parte do prazer. O desafio era fazer isso sem tais preocupações. Os alunos silenciaram-se, todos estavam curiosos por saber como seria.

Luana sem abrir os olhos, tentou lembrar cada detalhe do quarto. Às costas, sentiu o colchão macio. Ouvia Carlos no banheiro, entre outros ruídos no quarto. Notou como estava silencioso ali. Conseguia ouvir suas pernas ajustando-se pelo colchão. O nariz captou um cheiro intenso, forte, dos dias que passara ali e a sensação que vinha daquilo. Tudo estava perfeito. Sentiu-se maior, como se cada parte do quarto fizesse parte daquele momento. Foi quando abriu os olhos. Para seu espanto, flutuava.

Ao ver o ventilador de teto tão próximo do seu rosto, caiu. Um baque na cama, isso fez com que Carlos desligasse o chuveiro e perguntasse se estava tudo bem. Ela respondeu que apenas tropeçara. Agora, de pé, olhava para as mãos, como se pudesse delas tirar suas respostas. Era mais que isso. Ela tentava entender como, sem nada tocar com aquelas mãos, conseguia sentir todo o quarto.

O relógio, ventilador, livros e armário. Sentia todos em sua integralidade, cantos, curvas, materiais, forças e fragilidades. Sentia até mesmo seu namorado, sua ansiedade enquanto esfregava novamente os ouvidos na tentativa de garantir total higiene. Sentia a água que caia nele. O conforto da água quente. Era como se estivesse unida a tudo.

Ainda sem entender, olhando o livro no canto, mexeu seus dedos. O livro abriu-se e, a cada movimento dos dedos de Luana, passou a folhear-se. A menina sorriu com aquilo. Devagar, ergueu a mão, o livro passou a flutuar em sua direção. Notou que não era apenas telecinese, mas uma atração inexplicável. Sentia-se atraída por tudo ali e sabia que atraía tudo ao seu redor. Em pouco tempo, o quarto todo movia-se como uma dança ao toque de sua respiração.

Sentindo que Carlos estava para sair, fez com que tudo ficasse no lugar original. Pensava em mostrar para ele tudo aquilo, como sentia tudo. Tinha vontade de perguntar se ele também a sentia daquela forma. Ia contar tudo, era esse seu plano. Foi quando Carlos abriu a porta que todo plano foi água abaixo.

Ela sentiu a atração dele por ela. Sentiu o sangue bombeando de forma irregular. O calor que subiu no peito do garoto, a diluição da ansiedade, a paixão incontrolável e, o que fez um sorriso surgir no rosto de Luana, um pouco de medo.

– Você também é virgem… – não era uma pergunta, tampouco decepção. Era uma constatação que, por acaso, ela disse em voz alta. O menino aparentou uma dúvida e consentiu. Não eram necessárias palavras. Beijaram-se.

A moça sabia, naquele momento, que o namorado não sentia tudo como ela. Ela sentia e via tudo. Ela desejava o rapaz e sentia o gigante desejo de Carlos. Parecia que havia entrado em um looping de prazer e desejo. O mundo sentia a pureza daqueles sentimentos e retribuía. Cada movimento atropelado daquela paixão voraz fazia-se de modo suave e perfeito.

As roupas foram-se e logo Carlos estava sobre Luana. Com cuidado, posicionou-se para a penetrar aquela à sua frente. Olharam-se e o rapaz perguntou se ela tinha certeza. Era como se o mundo todo esperasse aquele momento, com a respiração presa. Luana assentiu dizendo que amava o menino. Aos poucos Carlos foi em frente e, com uma pequena dor misturada ao prazer, Luana não sentiu mais nada.

Todo o quarto rangeu. Carlos assustou-se e olhou-a. Viu que Luana chorava. Ele não entendia, ela havia perdido mais que a virgindade. A menina forçou um sorriso, puxando-o contra seu peito. Pediu que continuasse. Seu telefone tocou, mas ela deixou que a mãe esperasse mais um pouco.

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Esta entrada foi postada em Contos.

Um comentário em “Florescer

  1. Zulmira disse:

    Sensação de ter parado de respirar na segunda metade do conto, esperando o desfecho. Parabéns!

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