Árvore de Se…

Árvores - Roseana Murray

“Você tem que pensar menos”. Essa foi a última frase que Amanda disse a Guilherme. Um namoro de três anos que acabara como ela previra: por W.O. Para ela, o garoto, sempre pensativo, deixava de se divertir pensando nas piores consequências de cada atitude. Para Guilherme, ele pensava na quantidade ideal. E era exatamente nisso que ele pensava quando ela o deixou. Na verdade, ele pensou tanto na última frase dela que, quando conseguiu uma resposta à altura, a menina não estava mais ali para ouvir.

Claro, ele pensou naquilo por alguns dias.

A resposta lógica era simples, tinha que pensar menos. Sabia que enquanto pensasse naquilo só nadaria contra a maré. Como pensar menos? Notou que não entendia pessoas que tinham vidas simples, como seus pais e avós. Como podiam sentar-se em frente à tv e simplesmente não pensar. Não conseguia passar mais de alguns minutos assistindo e logo já tinha um livro nas mãos. Sua leitura atrapalhava sua meta. Parou de ler livros e jornais, parou de ouvir música, parou de ir à teatros e musicais.

Aos poucos conseguia assistir tv por mais tempo. Assistia apenas novelas. Das sete, oito e dez em um canal; das nove e onze em outro. Mas todas elas eram chatas e previsíveis. As traições não passavam de alterações daquela de Iago a Otelo. Os romances era vis e baseados em pura aparência, não ligando para a essência dos envolvidos. O preconceito da moda normalmente era foco do drama. Negros, islâmicos, mulheres, homossexuais, deficientes…o que viesse. Não durou muito sua tentativa. Em pouco tempo, era começar a assistir e dormir. Nem com alarme para cada novela conseguiu acompanhar.

Com o passar do tempo, todavia, notou que pelo afastamento de periódicos e jornais, não tinha mais tanto assunto para falar no trabalho ou em rodas de amigos. O único conhecimento novo que tinha provinha do último episódio da novela (do começo do último episódio dela) ou de um eventual plantão que o pegasse de surpresa. Se esforçava para não entender tanto de cada assunto. No entanto, admirava o conhecimento de seus amigos. Cada um tinha uma opinião formada sobre tudo.

Um dia, sentiu-se realmente interessado em um dos assuntos que não tinha acesso nas novelas. Perguntou aos amigos que tudo sabiam. Duas ou três perguntas e eles não sabiam nada, contradiziam-se, pareciam confusos. Guilherme viu que eles não eram diferentes daqueles que ficavam na frente da tv sem fazer nada. Ou melhor, pensavam menos. Apenas reproduziam falas de outras pessoas. Após o choque perguntou qual era aquela potente arma de alienação fonte. A resposta veio quando o colega tirou o celular do bolso e acessou a internet para mostrar o site. A internet causara tudo.

Chegando em casa, pegou seu laptop, acessou a internet e procurou. Normalmente usava a rede de computadores para pesquisas e informação. Mas, em pouco tempo, encontrou um legião de imbecis. Diversas pessoas que falavam de tudo, política, religião, Estado e fantasias. Até sobre sexo haviam gurus em cada sessão de comentários. Era só escolher o assunto e mergulhar. Os argumentos que seus amigos defendiam (ou repetiam) estavam expostos por fakes. A contestação, feita por meninos de menos de doze anos. Ali, diferente da tv, você não dependia de alguém dizer sobre o que se alienar, você podia escolher seu tópico preferido. Foi a primeira vez que Guilherme acreditou que conseguiria parar de pensar.

Guilherme estava errado.

Entendeu que, por mais força que a internet tivesse, não deixaria de pensar. A mudança com a alienação é que passava a pensar no que os outros queriam. Mas estava pensando o tempo todo ainda. “A mente é uma máquina insuperável”, leu em um blog, e era verdade. Nunca conseguiria deixar de pensar, a simples ideia era um pensamento. “Como todos faziam para viver?” pensava.

Uns meses após seu começo, deixou de querer parar de pensar. Contudo, passou a aproveitar da internet para ler mais, se informar mais. Em uma de suas pesquisas chegou a uma nova conclusão. Não precisava parar de pensar, precisava pensar em um ritmo menor. Tinha que relaxar.

Nada melhor para relaxar que um hobbie, mas Guilherme não tinha nenhum. Não tinha nenhuma aptidão física ou técnica conhecida. Pensou em iniciar algo popular, assim teria bastantes informações para pesquisa. Em um servidor de busca, logo achou o hobbie mais popular em sua cidade. Envolvia jardinagem, mais especificamente com uma árvore chamada de “Pé de Se”.

Olhou para o quintal e havia espaço suficiente para plantar uma árvore. Foi até o único viveiro que vendia a planta e pediu a muda. A árvore, com pouco mais de oitenta centímetros custava dois mil reais. “Um investimento”, não parava de repetir o vendedor. Começara vender há pouco tempo, mas naquele dia saiam, em média, trinta mudas por dia. As folhas verdes e cheias de vida fizeram Guilherme sentir-se próximo da árvore. Apesar do preço, acabou comprando a muda.

Chegando em casa, leu e releu as orientações do vendedor: “plantio com húmus, em cova de trinta centímetros. Aguar a cada dois dias, adubar com NPK 4/14/08 duas vezes por ano. Precisa de sol”. Com cuidado achou o melhor local e plantou a muda. Agora bastava esperar crescer e dar frutos.

O relaxamento de Guilherme, dia a dia, consistia em cuidar da planta. Havia colocado uma cadeira de área próxima à planta. Quando não estava arrancando as pragas do quintal, sentava-se na cadeira e lia um livro. Sempre cuidando do dispersor de água, para ter certeza que ligaria no horário programado. Tudo que pensava é se cresceria logo, se teria flores maiores e se os frutos seriam saborosos.

Foi com seis meses do plantio que surgiu a primeira flor. Guilherme pensou se aquela seria a única cor ou se haveriam outras. Em vermelho seria linda. Mas era amarela e logo murchou. Será que apareceriam outras?  Não apareceu. Mas logo um fruto começou a formar-se. Um verde escuro, muito intenso. No meio do fruto, que era circular, a cor era levemente amarelada. Apesar do fruto crescer e manter o verde escuro, após duas semanas, onde a cor era amarela ficou vermelha. Guilherme acreditava que se o fruto ficasse todo vermelho, estaria bom para o consumo. Um dia após a mudança de cor, quando chegou com seu livro, para passar a tarde ao lado da árvore, o fruto estava preto e no chão. “Se nascer outro, eu como verde mesmo”.

Não nasceu outro.

Aos poucos as folhas da árvore ficaram amarelas. Com pouco mais de um metro, a planta deixara de crescer. Continuava bonita, viva, mas não crescia. Nos fóruns de jardinagem da cidade muitas pessoas diziam a mesma coisa. Muitos falavam que tinham sido enganados, que o mercado forçara a venda de uma enganação. Alguns teorizavam sobre adubos ou formas de cultivo diferente. Sem notar, o rapaz não mais pensava em outras coisas. Queria tanto provar do fruto de sua árvore que tentou todos os métodos conhecidos e desconhecidos. Via um composto diferente, que poderia dar certo, logo já tinha encomendado e aplicado.

Em determinado momento pensou se não estaria desperdiçando seu tempo. Com certeza não! E se as folhas estavam amarelas por falta de nutrientes? Encheu-a de nutrientes próprios. E se for a falta de sol? Criou uma estufa com iluminação equiparada a solar. E se fosse maldição? Logo levou um padre, um pastor e um pai de santo para benzerem o lugar.

Nada adiantava.

Não importava o livro de botânica que lesse, qual método utilizasse. A árvore continuava, no verão e inverno, forte, mas com folhas amarelas e sem frutos.

Mais de cinco anos e meio depois da compra, Guilherme voltou ao viveiro. Chegando lá viu, a casa que antes era de madeira agora era de material, e logo na entrada um frondosa árvore. Com certeza, pelas folhas e caule, tratava-se da mesma árvore que tinha comprado. Sua ideia, de que era uma enganação, já estava superada. Todavia, aquela árvore chegava a mais de cinco metros, copa reluzente e bem verde, carregada de frutos como aquele que vira, verdes com miolos vermelhos.

– Como ela ficou assim? Que adubo usou? – perguntou ao dono do viveiro. A resposta, no entanto, foi a forma exata de criação que tinha passado. Não havia nada de mais no solo ou água.

– Eu não entendo o que fiz de errado – disse Guilherme – eu plantei a árvore de Se como estava pedindo, cuidei dela com as orientações e ela simplesmente ficou amarelada e sem frutos.

– Árvore de Se – disse, entre risos, o dono do viveiro – não entendo porque vocês a chamam assim. O nome dela é Árvore de Possibilidades. Basta provar um fruto que qualquer um sabe disso.

Vendo a dúvida no rosto de Guilherme o velho esticou o braço e pegou um fruto.

– Quer experimentar?

Os olhos de Guilherme estavam confusos realmente com as palavras do senhor à sua frente. Apesar disso, antes que sua mente pudesse ter qualquer dúvida, antes que pudesse imaginar qualquer mal que aquilo faria, antes de saber se era seu direito ou não, antes de entender o que significava a mudança de nome, pegou a fruta e mordeu.

O sabor era horrível.

De repente, entendeu o porquê do nome, entendeu porque sua árvore não crescera, entendeu porque Amanda o largara. Riu muito. Havia perdido muito tempo. Não precisava parar de pensar, mas tinha de viver.

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