Lasers

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Laser. Se pudesse escolher um poder, teria lasers saindo de seus dedos. Imaginava esquentar e explodir coisas, tudo com um raio meio azulado. Quando tivesse enraivecido soltaria raios vermelhos, mais perigosos que os azuis. Nessas horas alguém o acalmaria, afinal, todo herói sempre tem um amigo que conhece seu superpoder e identidade secretos. Acontece que ele não podia escolher um poder e não era um herói. Não tinha uma identidade secreta, muito menos um amigo totalmente confiável e preocupado. Tinha uma vida comum e em sua solidão lavava carros.

Todos os dias Alemão acordava às seis da manhã, tomava um café rápido, prendia seu cachorro na coleira, colocando um pouco de ração e trocando a água do animal. Varria o quintal, que era todo o terreno, com exceção do quarto-banheiro-cozinha, onde o rapaz dormia e tratava suas necessidades. E ao final, já perto das sete da manhã abria o portão. Esse horário, normalmente, já estava ali esperando seu único funcionário, Zé Bola.

Zé Bola era filho da vizinha de Alemão, e quando completou dezesseis anos passou a trabalhar no lavacar. Apesar do que pode parecer Zé não era gordo, mas nasceu gordinho, motivo pelo qual o pai, um bêbado sacana, o registrou como José Bola Silva. O menino acabou adotando o apelido, sentia-se melhor sendo reconhecido do que quando chamado de José Silva. Alemão entendia o sentimento do rapaz, afinal ele mesmo adotara um apelido.

José naquele dia estava sentado encostado no portão, viajando em seus pensamentos. Quando Alemão tirou o cadeado o menino deu um pulo.

– Assustado? – Alemão perguntou com um sorriso. Zé riu e respondeu:

– Estava distraído.

– Chegou há quanto tempo?

– Uns cinco minutos no máximo – Zé respondeu, entrando no quintal de pedras, e ao ver que Alemão esperava algo, complementou – minha mãe voltou a namorar, você sabe que não gosto de tomar café com os namorados dela. Falando nisso, posso pegar um xícara?

Alemão e a mãe de José se conheciam desde sempre, tinham a mesma idade e sempre moraram naquelas casas. Ele lembrava-se de como aos doze anos de idade perderam o contato mais próximo, ela deixou de ir à escola e com treze já tinha o pequeno Bola. O pai de Bola nunca morou ali, era um homem muito mais velho. Hoje Bola morava apenas com a mãe e com o avó. Sabia que o menino nunca gostou dos namorados das duas. Sempre que algum deles estava por ali ele dava um jeito de pular no quintal de Alemão. O vizinho, que vivia apenas com a mãe, nunca se incomodou com as visitas no garoto, na verdade até gostava. Quando a mãe de Alemão faleceu a presença do menino passou a ser sua única companhia.

Após tomar o café o menino limpou e organizou os baldes e mangueiras que usavam para lavar os carros. O primeiro cliente chegou e enquanto Alemão levava-o ao trabalho Zé Bola preparava a massa de polir e estopas. Dez minutos e com o carro retornando começaram a trabalhar nele. E assim foi, carro após carro.

Lavavam em média doze carros por dia, podendo variar um pouco com a dificuldade. Aquele dia fizeram dez lavagens padrão e uma completa, que demorava mais tempo. Às seis fecharam as portas e organizaram tudo para o dia seguinte.

– Se importa se eu ficar um pouco mais hoje? – perguntou José, enquanto passava a guampa de tereré. Beber era um ato comum ao final de dias muito quentes.

– Não, pode ficar.

Alemão se preocupava com o garoto, sabia que não era bom fugir de seus problemas. Sabia que alguns minutos a mais não fariam mal e ele podia aproveitar a companhia para o tereré. Ainda assim, tentava parecer mais responsável.

– Você devia conversar com sua mãe.

– Eu já tentei, mas ela não entendeu. E ainda que ela sofra depois, gosto do período em que ela está feliz. É gostoso sentir ela assim. – respondeu Zé Bola.

Os dois conversavam pouco, sempre fora assim. Em parte por causa dos doze anos de diferença, Alemão achava que não seria interessante que ele influenciasse muito a vida do menino. Pensava que não tinha conseguido muito em sua vida, mal conseguia pagar um salário para o menino, e acreditava que apesar de muito das dificuldades o menino era muito mais inteligente que ele. Por outro lado, achava que o menino gostava de ficar em silêncio, só tendo alguém por perto. Então, conversas como aquela eram incomuns. Pensando nisso Alemão falou:

– Sabe, você fala como se soubesse que as coisas dariam errado. Mas assim como ela, você também só acabou de conhecer o novo namorado. Ele pode ser ruim? Pode. Mas também pode ser um cara bom e faze-la feliz. Eu gostaria de ter alguém comigo, você um dia também terá essa vontade e então entenderá.

Zé Bola olhava atentamente Alemão, naquele que era o maior discurso já feito pelo patrão. O olhar do menino buscava algo, Alemão sentia, o que o fez desviar o olhar após uns segundos. Pode, em seguida, ouvir um suspiro de satisfação vindo do menino.

– Você é melhor com as palavras do que seria com lasers azuis e vermelhos. Devia usar esse seu superpoder mais vezes.

Alemão olhava atentamente o menino, não havia como o menino saber daquela sua fantasia. Nunca havia contado a ninguém. Sempre pensava, às vezes enquanto tomava o tereré, outras imaginando explodir a cabeça de alguns clientes. Nunca, no entanto, havia falado com Zé Bola sobre isso. Mas como ele poderia saber. A menos que…

– Sim, posso ler seus pensamentos – Zé falou como um pouco de vergonha, logo tentando acalmar o amigo – mas evito ao máximo.

Não havia dúvida, o menino havia lido seu pensamento. Ainda assim, Alemão fez testes e mais testes. O menino respondia todos com um sorriso. Aquilo o divertia.

– Tem o lado ruim, sabe? – retoricamente perguntava o menino – Sei que o interesse dos namorados da minha mãe e minha vó normalmente são só sexuais, sempre soube. E a forma que eles as imaginam é realmente desconfortável. Minha mãe nunca acreditou, e seria mais difícil contar pra ela como sei dessas coisas.

– Mas por que você trabalha aqui? Com seu poder, digo, sua capacidade, você poderia ter muitos empregos maiores – Alemão fez a pergunta e Zé Bola soube que ela era tudo que passava pela cabeça do seu mentor.

– Eu tinha oito anos quando uma vez pulei aqui, após o seu expediente, e começamos a tomar tereré. Sua falecida mãe perguntou como podíamos ficar sentados aqui por horas tomando tereré, em silêncio. Você respondeu à ela que eu era seu amigo – Zé Bola ficou rubro ao relembrar, como ficara no dia – Você me explicou que você sabia que duas pessoas eram amigas quando conseguiam ficar no mesmo lugar sem uma tentar adivinhar o que a outra estava pensando. Você realmente não pensava em mim quando eu estava aqui, não te incomodava nem um pouco, nem te privava de nada.

– Com o tempo – completou Bola – meu poder aumentava, mas aqui eu conseguia não usá-lo. Era o único lugar que eu conseguia ficar em silêncio, não ouvir nada. De lá pra cá tenho me esforçado para controla-lo, mas é sempre bom estar aqui, onde não preciso me esforçar.

Alemão olhava para o rapaz, lágrimas corriam em seus olhos. Algo nas palavras do menino o tocaram. Enxugando-as, colocou a mão no ombro de José e disse:

– Não leia mais meus pensamentos! – Zé ficou assustado, preparando alguma explicação, mas foi cortado pelo patrão – Você não trabalhará mais aqui. Vai estudar! Procurar um emprego melhor. Sempre que o mundo te cansar poderá vir aqui e ficar em silêncio. Tomaremos um tereré – ele sorriu – Posso não ter poderes, mas vou ser o amigo confidente que você merece e que eu sempre desejei ter. Agora vaza daqui!

Zé Bola riu, lembrando dos pensamentos do amigo e ficou ali sentado. Um silêncio tenso subiu. Não precisou ler os pensamentos de Alemão novamente, apenas o rosto, e soube que o vizinho falava sério. Não só sobre ser seu amigo, mas como sobre estudar e como sobre dar o pé dali. Ele levantou, uma mistura de reconhecimento e medo. E correu para pular o muro. Sem virar para trás ouviu Alemão balbuciar:

– Vaza!

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