Na caixa

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Sentou-se em frente à caixa de madeira. As pernas dobradas para trás em w, como quando criança. Hoje os joelhos doíam em ficar naquela posição, mas não conseguia imaginar-se em outra posição. Sua relação com o pequeno objeto remetia à sua infância, ao seus pais. Agora o pai havia falecido. Do enterro, que ocorrera há menos de uma hora, Lucas tinha vindo direto à sua antiga casa, onde o pai viveu até seus últimos dias.

Lembrava de como aos oito anos de idade entrou correndo no quarto de seu pai.

– Pai, a mãe está chamando para jantar! – gritou Lucas. No mesmo passo que chegava preparava-se para correr de volta à cozinha. Algo, todavia, chamara sua atenção. – o que é isso?

O pai, ainda de costas fechou a caixa. Virou-se para o menino e perguntou:

– Se eu te contar, você guarda segredo? – ao ver Lucas olhá-lo desconfiado continuou – Não pode contar pra mamãe, tá?

– Tá! – os olhos do menino brilhavam, pela primeira vez não devia contar algo pra mamãe. E a mamãe era alguém que sabia tudo, como isso seria? Estava com medo, mas queria fazer aquilo.

– Nessa caixa tem meu maior tesouro, que vou dar para mamãe no aniversário dela. Só que ela não pode saber até lá, certo?

– Certo! E o que é?

– Faltam só quatro meses, quando ela abrir você vai poder ver também.

O menino não aceitou muito bem a situação e reclamou enquanto o pai guardava a caixa em cima do armário do quarto. O pai ria de seu esforço, isso irritava o menino. O que divertia ainda mais o pai. Lucas saiu do quarto e foi seguindo o pai até a cozinha.

Ao chegar na entrada da cozinha o menino, estranhamente, foi barrado pelo pai. As mãos de seu pai vieram ao seu ombro. O pai não mais ria e em seus olhos havia lágrimas:

– Filho, vai chamar o vizinho! – ao ver Lucas começar a querer questionar, o pai disse firme – Agora!

Lucas deu alguns passos para trás, devagar, estava tremendamente assustado. O menino viu o pai levantar-se rápido e ir cozinha adentro, mas sem deixar antes de virar para Lucas, novamente, e gritar “Vai!”. Lucas foi.

Correu, saindo pela porta da sala, pulou o muro do vizinho. Chamou o sr. Jorge, único vizinho que tinha um carro na época. Normalmente era para ele que o pai pedia ajuda, desde transporte até ferramentas. Demorou um pouco até que o vizinho abrisse a porta, mas foi rápido para entender que algo estava errado e correr para a casa de Lucas. O menino chorava, mas, quando Jorge perguntou se o pai dele que havia chamado, Lucas conseguiu balançar a cabeça positivamente.

Lucas correu atrás do vizinho. Chegando à porta da cozinha viu o vizinho agachado ao lado do pai. O pai sentado no chão, tinha a mãe de Lucas em seu colo. Ela parecia dormir. O olhar de seu pai encontrou Lucas. Ao ver o ocorrido Jorge levantou-se e levou Lucas até seu quarto. Lá chegando pediu que esperasse um pouco ali. Lucas estava muito assustado para revoltar-se. Sentou-se na cama e chorou.

Logo a sirene tocou em frente à sua casa. Lucas viu pela janela os paramédicos descendo. Havia três. Um correu para dentro da casa, os outros dois tiravam a maca da parte de trás da ambulância. Mas eles ouviram algo, olharam para a casa, e guardaram novamente a maca. Lucas teve a impressão de ouvir um grito do pai e algo se quebrando.

Sua mãe havia morrido, um ataque fulminante. Uma tia, irmã de sua mãe, que havia dado a notícia. Foi ela a primeira a abrir porta de seu quarto. Foi ela também que o impediu de correr para a ver a mãe. Para a casa dela que ele foi. Lá tomou um banho enquanto sua casa era “arrumada”. Não viu o pai, até chegar ao velório.

Ao chegar em casa o menino viu um monte de pessoas estranhas. Todas vestiam preto. Algumas diziam palavras que ele não entendia, ele simplesmente acenava a cabeça. Foi entrando e viu, quase na altura de seus olhos, no centro da sala, um caixão. Ele quis chorar, mas sentia que não haviam mais lágrimas. Viu o rosto da mãe coberto por um mosqueteiro. O resto do corpo estava coberto por flores. Seu pai, de pé ao lado do caixão segurava a mão de sua mãe.

Ao ver Lucas o pai veio ao seu encontro, apoiou um joelho no chão e ficou com o rosto marcado de lágrimas de frente ao menino. Era a primeira vez que se viam de frente desde o incidente na cozinha. Aos mãos do pai novamente em seus ombros. Sem palavras o pai o puxou para um abraço. Lucas naquele momento reencontrou suas lágrimas. Entre elas o menino sussurrou ao ouvido do pai:

– E o presente da mamãe?

Seu pai o afastou e olhou novamente em seus olhos. Mexeu os lábios, no mais perto de um sorriso que conseguiu, e voltou a abraçar o menino.

Lucas cresceu ali, morando com o pai. Uma ou duas vezes lembrou da caixa, seu pai passara a dizer que o tesouro estava guardado e seria de Lucas, mas ainda não estava pronto. Com o tempo o garoto deixou de perguntar. Sabia que a caixa estava em cima do velho armário, acumulando pó, todavia não queria abri-la. Uma vez até tentou, mas pensou que fosse quebrar. Isso chatearia seu pai.

A adolescência passou e o garoto foi estudar em outra cidade. Lá se formou e passou a exercer sua profissão. O contato com o pai sempre foi mantido. Quase todos os finais de semana passavam juntos. Seu pai havia se casado novamente, madrasta essa que Lucas gostava muito. Aos trinta anos, no entanto, ela lhe deu a segunda pior notícia da vida. O pai falecera. Tivera um ataque cardíaco aos cinquenta e seis anos de idade.

O velório de seu pai trouxe más lembranças. Apesar de ser realizado em uma capela mortuária da cidade, ali, também um monte de pessoas que não conhecia o cumprimentavam. Lucas não conseguia chorar. A pressão do local era esmagadora.

Determinada hora, durante a penosa vigília, foi tomar um café. Com o copo de plástico em suas mãos, cheio de uma liquido fraco, encostou-se na parede e passou a olhar as pessoas que passavam pela sala onde seu pai era velado, assim como para as outras três salas do local. Foi quando ouviu ao seu lado uma voz grave e conhecida:

– Vão te dizer que ele viveu pouco, mande-os à merda! Ele viveu bem!

Lucas buscou a pessoa que emitia as palavras desbocadas e logo reconheceu o velho vizinho. Com um sorriso fraco concordou.

– Criar um filho, praticamente sozinho, não é nada fácil. Ainda assim, apesar das dificuldades, ele achou muito tempo pra feliz – disse Jorge sorrindo. Batendo no ombro de Lucas completou – e olha que homem ele criou.

Os dois conversaram por um bom tempo. O vizinho contou várias histórias que Lucas não conhecia. Cada história fazia-o admirar ainda mais o pai. Lucas também contou suas histórias. O enterro se aproximava, quando os dois conversaram sobre o dia em que Lucas perdera a mãe. Lucas contou a história da caixa em cima do armário. Jorge o surpreendeu ao dizer que o pai sempre falava sobre a tal caixinha.

– Ele me mostrou uma vez – disse Jorge, para a surpresa de Lucas – Disse que não o entregou a você, no dia do enterro de sua mãe, pois achou que você não entenderia. Você era muito novo. Mas achei que ele já tivesse te entregado depois.

– Ele dizia que ali havia o maior tesouro dele – disse Lucas relembrando.

O velório acabou, o enterro aconteceu e ao final Lucas correra para a casa do seu pai. A caixinha estava no mesmo lugar de sempre. Um sopro e algumas tossidas consequentes fizeram todo o pó sair da caixa. Levou até a sala, onde sentou-se de frente a caixa. A posição desconfortável faziam suas pernas doerem. Olhou a caixa com cuidado, perdeu alguns minutos até descobrir com as travas se moviam. Destravando tirou a tampa.

Dentro da caixa um pequeno papel, atrás do papel um pequeno espelho colado no fundo da caixa. “Mamãe teria gostado”, falou ao léu. Havia reencontrado suas lágrimas mais uma vez. Elas escorriam e ao tentar enxuga-las com a mão, acabou por molhar o papel. O papel de dentro da caixa, aquele que dizia “você”.

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