Vespas

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Num mundo onde a desgraça vende e a morte é banal aquele casal viveu. Luana forte e Pedro fraco. Ela tinha um sorriso aconchegante que fazia o mais bruto ser domado. Ele era o bruto. O propósito da vida do rapaz era proteger seu amor. Uma virose, foi o que o médico disse, e ele perdeu seu rumo. Não havia mais o que proteger. No enterro, enquanto baixava o caixão, o coveiro foi abordado por um visitante de túmulos que perguntou quem ia dentro da caixa. “Ninguém importante”. A vontade do rapaz foi enterrar vivos os dois. Se ela tivesse morrido num acidente, com uma doença rara ou alguma outra desgraça provavelmente estaria nas capas de jornais e revistas. O que ela fez por ele, o que ela fazia por todos, nada valeu. Ele chorou em silencio. Lágrimas amargas e salgadas de alguém que desde criança aprendeu que chorar era uma fraqueza. “Sinta”, a sua pequena sempre dizia. Nenhum amigo perguntou o que ele sentiu, todos eram amigos dela (só dela). Nem foram ao velório. Fosse o contrário, se Pedro tivesse morrido, todos estariam ali. Luana merecia, ele não. Por isso, ele sentiu. Queria todos ali dizendo como ela fora linda, como era especial, como tinha os olhos negros mais fantásticos já vistos. Não era isso que faziam em velórios e enterros? “Ei, você!?” disse aos dois à sua frente. “Vocês não sabem quem estão enterrando?”. O visitante olhou para o coveiro que deu de ombros, ambos olharam ansiosos pelo esclarecimento. Ele era bruto e fraco, mas além disso era um ótimo contador de histórias. Contou como a menina do caixão tinha crescido para ser rainha, e com a revolução em seu país forçou-se a fugir, mudando-se para o Brasil. Contou como aqui ela teve os pais assassinados e viveu em fuga até que chegou naquela cidadezinha do interior. Ali fora adotada por um casal de descendência africana, da mesma região onde uma vez fora seu país. Ao crescer, sua beleza havia chamado tanta atenção que transformou-se em modelo, fez uma carreira internacional, mas ao torcer um pé, num desfile em Milão, optou por voltar a casa. Aqui, acabou casando-se com um rapaz que abusava dela. Não deu muito tempo e toda fortuna havia acabado em bebidas e cassinos argentinos, por aquele que uma vez ela amou. Ela voltou então para a cidadezinha onde crescera, para acompanhar os últimos dias de seus pais adotivos. O enterro já levava duas horas e agora muitas outras pessoas que passavam pelo cemitério haviam parado para ouvir aquela história. Pedro ficou contente e perguntou ao grupo crescente: “lembram daquela dupla de assassinos gregos que foi presa na cidade há um mês?”. Todos se entreolharam até que duas pessoas disseram ter visto a notícia. Era mentira, mas o que Pedro precisava. Contou que aqueles assassinos tinham descoberto Luana ali, vivendo com ele. Ambos tinham decidido mudar-se. A notícia da prisão, todavia, acalmou-os. Ali aconteceu o erro. Uma das garrafas de vinho da casa havia sido envenenada. Era o vinho preferido de Luana. “Três dias atrás…” ele disse e deixou que todos entendem-se por si o que acontecera enquanto cobria os olhos com suas mãos calejadas. Aproximadamente cinquenta pessoas olhavam-no, atentos. Pareciam vespas atraídas pelo caos em suas palavras. “Então, ela morreu envenenada?” alguém lá do meio perguntou. Sentiu-se satisfeito por acreditar ter cumprido seu papel, e com o caixão há três horas esperando o coveiro (que estava sentado) termina-lo de enterrar, respondeu: “Não, foi apenas uma virose”.

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