Viagens

exorcistaFoto1

Eram quase dez da noite. Antônio viu chegar o ônibus em que realizaria sua próxima viagem. Uma viagem, razoavelmente, curta. Em pouco mais de sete horas chegaria à Curitiba. Era a viagem de negócios para a qual Antônio perdera um ano se preparando. Naquele momento, contudo, pouco importava o motivo de sua viagem. O ônibus parou no terminal e a aflição do jovem apenas começara.

O rapaz tocou os bolsos buscando três itens que eram fundamentais para qualquer viagem: halls preto, um mp3 player e um remédio para enjoos. Desde pequeno Antônio passava mal em viagens que fazia. Não importava a distância, o trajeto, o veículo ou tempo necessário. Uma vez passou mal antes mesmo de sair da rodoviária. Uma vez passou mal por três mil quilômetros, o tempo todo, em uma viagem de três dias. Em compensação, às vezes, conseguia viagens “perfeitas”, que tinha significado simples de não ter vomitado nada naquela viagem. Agora, após trinta anos de idade, tinha descoberto alguns “macetes do jogo”. Com a verificação teve certeza que os itens estavam todos ali. Pegou um comprimido do remédio de enjoos e engoliu com o ultimo gole da Coca-Cola que segurava.

Tirou a mochila das costas e verificou nos bolsos externos, era sempre bom ter alguns sacos plásticos sobrando. Com a mochila em suas costas seguiu a fila que se formava. Cumprimentou algumas pessoas na fila como quem diz “pois é, estamos juntos”. Antônio, talvez por conta de sua própria debilidade, notava em muitos viajantes aquele sorriso solidário. Caso pudesse, viajaria sempre sozinho. Não gostava da sensação que tinha quando o sorriso solidário das pessoas tornava-se em cara de nojo. Ele mesmo achava seu vomito nojento, portanto, não os culpava.

Apesar de não ser supersticioso, sentia-se um terreiro de vodu ambulante ao iniciar uma viagem. Sabia que sua condição era psicológica, mas não fazer algumas coisas o deixava pior. Primeiramente, sempre viajava entre as poltronas dezenove e vinte e quatro, não ficando em cima das rodas ou muito próximo do banheiro. Ficar em cima das rodas fazia com que cada balanço fosse sentido ainda mais que o “inferno razoável” que já tinha de enfrentar. Ficar próximo ao banheiro era um lembrete constante, do tipo: “amigo, vamos vomitar?”.

Uma vez sentado, imediatamente, colocava os fones de ouvido com alguma música conhecida. Era importante que soubesse ou conseguisse entender o que era cantado. Isso fazia com que sua mente focasse na música e dela viajasse para qualquer outro lugar que não a viagem. Colocava um halls preto na boca, de forma que mesmo que qualquer gás subisse de seu estomago, o gosto não duraria ali. Fechava os olhos, abraçava a própria barriga, e passava a esperar que a viagem terminasse rápido.

Era comum, quando Antônio tentava explicar como se sentia, pessoas tirarem sarro, acharem que era frescura ou ainda relembrarem-no que era um problema psicológico. Se ter certeza que algo é psicológico fosse o bastante para conclusão do tratamento, Antônio estaria curado há décadas. Todos os paliativos que usava eram desvios de atenção. No entanto, para Antônio, e outros com essa condição, havia uma condição física. Sua mente fazia com que, antes mesmo de entrar no veículo, sentisse uma azia. Era um sentimento constante que seu estômago estava sendo comprimido. Esse sentimento seguia até o final da viagem, as vezes, durando algumas horas além. E não só isso, era como se o corpo todo ficasse hipersensível, sentindo mais a temperatura (frio ou calor), sentindo todos (sem nenhuma exceção) movimentos do veículo. Algumas vezes era possível sentir o motor do veículo como se estivesse pilotando um kart. A distração não era em relação à azia, essa era fácil de aguentar. A distração consistia em não lembrar que se passava mal em viagens ou não se lembrar que estava viajando.

O rapaz chegou ao seu assento, número vinte, corredor. Ao seu lado, já sentada, um bonita moça na faixa dos vinte anos. Ela era linda. Antônio, praguejou sua sorte vir em tão péssimo momento. Algo que tinha descoberto há tempos é que passar mal era um péssimo cartão de boas-vindas. No período de colégio passara por diversas vezes do rapaz simpático da sala para o coitado que passava mal em viagens, vendo suas paixões terem suas paixões com aqueles que não sujavam seus vestidos.

Olhando ainda para sua vizinha de viagem ajeitou a bolsa nos pés e desejou uma boa noite. A menina, olhou para Antônio e, sem qualquer cerimônia, virou-se para a janela deixando o cumprimento no vazio.

Antônio, assustou-se com, o que ele pensou ser, uma falta de educação imensa. Todavia, tinha um ritual para preparar e conversar nunca o tinha ajudado em viagens. Colocou o fone de ouvido. A primeira música “Pra ser sincero”, dos Engenheiros do Hawaii, na coincidência da primeira frase fez com que o jovem abrisse um sorriso. Olhou para o lado e a menina ainda virada para a janela. Antônio deu de ombros. Colocou o halls na boca. E esperou o ônibus partir.

A viagem começou e Antônio reparou que havia um saco na sua frente, deixado pela viação para que depositassem ali os lixos do trajeto. Pegou, então, o saco. Abriu-o. Assoprou enchendo-o. Aparentemente, não haviam furos e era firme. Lembrou-se de uma viagem, de Paranavaí a Loanda, cidades do interior do Paraná. A viação, naquela vez, havia deixado um saco como o da atual viagem. No meio da viagem, sem qualquer outro saco próximo, pegou-o e encheu de vomito. Seguro que não havia mais nada para sair, mas na escassez de outros sacos, preferiu segurar o saco pela boca, sem dar o devido nó. O saco, com o balanço do ônibus, aguentou pouco mais de um minuto. Antônio notou que havia um pequeno furo no fundo do saco. Ao levantar-se, na tentativa de chegar ao banheiro, o fundo abriu-se. A calça do rapaz ficou amarelada, sendo possível ver, em detalhes, seu café da manhã em sua decomposição. Foi quando aprendeu a sempre carregar sacos sobressalentes.

Para quem sente cada curva da viagem, passar por uma serra é uma tortura. A Serra do Cadeado, na ocasião foi a parte difícil da viagem. Tudo que podia ter feito estava feito, contudo, a azia estava ficando mais forte. Os braços cruzados sobre o estômago acalmavam, mas não controlavam a sensação de enjoo, que chegava agora a ocasionar pequenos arrotos. Antônio, precavido, abriu a boca e pegou um dos sacos, deixando-o ao alcance rápido. Tentou cantar a música mentalmente, já tinha passado desse ponto. Pensou no banheiro, mas sabia que sempre dava errado ir ao banheiro de ônibus. Um arroto veio carregado, forçou-se a engolir.

Algumas pessoas quase nunca passam mal em viagens, como o irmão mais velho de Antônio, Pedro. Pedro podia viajar pulando, correndo, bebendo e dançando, nada o fazia passar mal. Apesar da ótima condição física, uma vez passou mal viajando ao lado de Antônio. O irmão mais novo, que o ajudou pelo resto da viagem, viu que Pedro ficou acabado após vomitar. Era como se uma parte de sua alma tivesse ido junto para a sacola. Com Antônio, não era assim. Sempre passava mal, ocasionalmente, várias vezes numa única viagem. Mas vomitar era como ganhar um folego novo. Não que vomitasse sem precisar, ou ficaria baqueado como Pedro. Quando inevitável, porém, não costumava segurar.

Ali, na Serra do Cadeado, não foi diferente. Quando o segundo arroto carregado veio, o saco já estava aberto e foi como uma ponte direta entre seu estômago e o pacote. Fechou rapidamente, dando um nó. Testou o nó e o saco. Amarrou o saco por fora da mochila, quando chegasse em alguma parada jogaria no lixo. Ao ter certeza que não havia risco de desastre, olhou para os lados e viu que sua vizinha fingia dormir. Antônio, notou os olhos forçados para parecerem fechados. Não fosse pelos olhos fechados, o rosto da menina pareceria puro nojo. Era comum a sensação de nojo por perto quando vomitava. Ao menos, em alguns casos, as pessoas perguntavam se estava tudo bem com Antônio. Afinal, era o que esperava o rapaz, já que não acreditava que as pessoas o olhassem e pensassem: “Tá aí, esse cara tem cara de quem vomita até as tripas em viagem”. Tal pensamento ocorreu, o que fez com que Antônio ficasse revoltado com sua vizinha.

Mal notou, mas naquele momento, perdeu qualquer chance de pensar em coisas diferentes. A música, o halls e o remédio já não tinham qualquer efeito. A ânsia, mais forte do que nunca, vinha com tudo a cada cinco minutos. No restante das duas horas de viagem, Antônio, sem qualquer controle, encheu os seis sacos que tinha levado em sua mochila e o saco que havia disponível no ônibus. Algumas vezes notava a vizinha se remexendo em sua poltrona, mas não parecia acordar. Mas isso não mais o preocupava, não de verdade. Ele sabia que quando se vomita a bílis, aquele suco verde e espumante do estômago, tanto faz quem está do seu lado. Tudo que importava era a viagem acabar logo. E, estava acabando.

Chegando à Curitiba, ele não mais passava mal. Começou a pensar na péssima viagem que tivera. Pensou na vizinha, que ela tinha passado maus bocados. Não é fácil viajar do lado de alguém que não tira a boca de um saco de vômito. Apesar da simpatia que teve por ela, não conseguiu segurar uma sorriso ao pensar que parecia uma vingança desajeitada em relação à falta de educação do começo da viagem.

Antônio pegou a mochila e organizou os sacos que levaria ao lixo. Foi quando notou que haviam apenas seis sacos ali. Tentou olhar sob os bancos, mas não há mobilidade suficiente para isso em um ônibus executivo. Pegou os seis sacos e torceu para que ninguém pisasse no último, confiando no nó dado. Foi um dos primeiros a sair do ônibus. Sua vizinha só agora fingia acordar. Pouco após pegar sua bagagem ouviu um grito feminino vindo do ônibus, preocupou-se com o último saco deixado. Foi por pouco tempo, pois, após um minuto, já no ponto de taxi, passou a rir como se nada de ruim tivesse acontecido nas últimas horas. Passou ao seu lado sua vizinha, acordada, brava e com um allstar, verde vomito, na mão.

Anúncios
Esta entrada foi postada em Contos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s