A lagarta azul e a andorinha

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O sol havia chegado quente àquele verão. Era o primeiro verão de Nina, a lagarta azul. E a primeira impressão que teve foi que nada estava diferente do resto de seus dias.

“O sol no céu e meus doze pés no chão” era o lema da pequena lagarta. Algumas formigas diziam que ela não levantava os pés nem para andar, o que não era a verdade, mas chegava perto. Nina tinha medo de altura, desde que nasceu. Andava pouco e só comia as folhas que caiam no chão, diferente das outras lagartas azuis.

Aquele dia, saiu debaixo de sua casca de árvore e foi até onde coletava suas folhas. Animou-se ao ver que uma grande folha de amora estava no chão. Ao chegar, com a boca salivando, começou a ouvir um barulho estranho. Logo, todos os insetos próximos à ela começaram a correr desesperados.

– O que está havendo? O que é esse barulho? – perguntava para quem passava por ela.

– São as andorinhas! Esconda-se! – disse o velho besouro.

Começou a correr, quando notou, não sabia o que eram andorinhas. Parou, no entanto, quando viu o amontoado de pássaros que davam forma àquele som. Os pássaros, pequenos e ágeis, se moviam como um só.

– Minha folha! – disse Nina e voltou correndo para a amoreira.

Foi como um flash. Suas dozes pernas um momento estavam no chão, noutro estavam no ar. O abdômen de Nina esfriou-se. Algo que nunca tinha sentido. E, apesar de não sentir dor, um gancho parecia a puxar para cima. Fechou os olhos e encolheu-se.

– Ponha-me no chão, por favor. – ela pediu com a voz entre dentes. Até falar estava dando medo à pequena lagarta.

– Por que eu colocaria? – perguntou num tom jovial, seu captor – Eu vou te comer!

– Tudo bem! Mas me coma no chão!

Cadu, uma andorinha de apenas dois verões, intrigou-se. Nunca tinha falado com a comida. Mas ainda que fala-se, não conseguia entender o que a lagarta estava dizendo. Olhou para sua presa e viu que estava toda encolhida e de olhos fechados.

– Você tem medo de altura? – perguntou de maneira simpática.

– Não tenho doze pés para ficar voando por aí!

– Faz sentido. Mas, já tinha voado?

– Não!

– Então como sabe que não gosta? – Cadu esperou, sem resposta continuou – Por que não tenta abrir os olhos?

– Por favor, me ponha no chão – disse Nina aos prantos.

– Vamos fazer assim. Eu não acredito que o seu medo seja maior que seu amor pela vida. Eu deixo de te comer se você abrir os olhos por um minuto. E assim que passar esse minuto, te coloco no chão, perto da folha em que estava.

Nina pensou, e realmente, era uma boa oferta. A sensação nos seus pés, sem apoio, era estranha. Ao pensar nisso notou que havia uma sensação boa também. O vento quente do verão batia em sua pele fria e era agradável.

– Tudo bem! Eu abro os olhos, mas só por um minuto e você me coloca no chão!

A andorinha soltou um pio de concordância e Nina aos poucos foi abrindo os olhos. Conforme a visão ficava mais clara viu uma enorme clareira verde. Alguns pés, do que pareciam ser amoras. Mais à frente um pomar, com árvores tão grandes que estavam mais altas do que voavam, e estavam muito alto.

– Segure-se – disse Cadu virando-se a esquerda.

– Não tenho onde segurar – disse Nina, agora mais calma – O que é aquilo? É lindo.

– Aquilo é um rio. É um monte de água, como da chuva. Dizem que há rios tão grandes que é impossível ser só de chuva. – Cadu notava que o corpo de Nina não estava tão curvado quanto antes – Eu já mergulhei em alguns, mas eram menores.

– Legal.

Nina olhava para tudo. Conhecia bem o verde da folhas da amora, o marrom daquelas que envelheciam e do solo. Até algumas cores que alguns besouros e aranhas tinham. Mas ali, parecia poder ver todas as cores.

– Ainda quer ir para o chão? – perguntou Cadu.

Notando que não existia mais medo, e ainda curiosa para ver mais, pediu por outra volta. Foram várias. Durante elas conversavam, e ela ficava entusiasmada com a jornada de Cadu na busca de lugares mais quentes. Também, contava ele sua história. Das melhores folhas que tinha conseguido. Ambos tinham boas vidas.

– Você pode ter doze pés – ele disse – Mas, nasceu para voar.

Ela sorriu com aquele comentário, enquanto finalmente descia ao chão depois da longa jornada. Como o bando de Cadu ficaria pela região alguns dias combinaram de se encontrar para mais alguns voos. E assim o fizeram, pelos dois dias seguintes. No terceiro dia, porém, Nina amanheceu indisposta. As patas e as costas doíam. Quando a andorinha chegou, recebeu a má notícia.

– Cadu, não vou poder ir contigo hoje. Não nasci para voar.

– Mas você é tão natural.

Sem saber o que dizer, e vendo que a aquela amizade acabaria tão logo quanto o verão, decidiu não mais se arriscar. Não arriscar magoar Cadu.

– Lagartas nascem com doze pés para nunca esquecer do chão. Aqui é nosso lugar. Não voando por aí como um pássaro. Que segurança eu tenho no céu?

– Nenhuma – disse Cadu, já magoado – mas é o céu. Você não se lembra das qualidades, da beleza dele? Como podemos ir de um lugar a outro num instante, vendo mais e mais belezas?

– Cresci no chão, Cadu. Aqui nunca vou cair. Não me importa se não verei tanta beleza, não me importa se terei que dar seis passos de cada vez. Sempre terei a segurança de sentir o chão sob meus pés.

– Nina – foi a última palavra da andorinha, que engoliu todas as outras e levantou voo.

A pequena lagarta azul nunca sentira-se tão triste. A palavras dela não eram inverdades, realmente gostava de ter os pés no chão. A segurança era importante para ela. Quando voava com Cadu, o mundo era deles. No entanto, não sabia se aquilo duraria. E no dilema terra ou céu, não sabia qual era o ideal.

Aquele dia não saiu para pegar folhas. Saiu de sua casca de árvore. Olhou para o alto, uma leve esperança de ver Cadu ali. Ele nunca voava baixo. Resolveu então subir na árvore. Não esperava ficar tão cansada. Chegando a pouco mais de um metro de altura, parou. Pôs-se a dormir.

Foi um sono de dois dias. Quando acordou estava trancada numa caixa escura. Forçou a saída. Sentia-se mudada. Quando o primeiro sinal de luz rompeu na caixa ela empolgou-se e em pouco estava fora. Olhou para suas patas. Eram seis apenas, maiores, mas sentia-se estranhamente adequada à elas. Sentiu uma pontada nas costas e, ainda com as pernas na caixa, tentou se ajeitar. Uma grande lufada de vento a jogou para a fora da caixa.

Viu-se caindo contra ao chão numa velocidade alta. Fechou os olhos e novamente, as costas se mexeram. O vento passou pelo seu rosto, e com ele sentiu mil odores. Abriu os olhos e viu: tinha antenas como de alguns outros insetos. Algo estava mudado. Olhou para o chão, tentando entender porque não estava machucada. Notou que voava. AS costas que mexiam sem parar faziam com que duas grandes asas azuis se mexessem, a deixando no ar. Sorriu.

– Sempre disse que você tinha talento.

Nina, ao ouvir a voz, olhou para o chão. Lá estava Cadu. Um sorriso no bico, um olhar de orgulho.

– Você está aí esperando há quanto tempo?

– Desde que você começou a subir. Aí começou a dormir, fez o casulo. – o olhar dele era penetrante.

– Por que?

– Eu saí sem dizer o que sentia. Não achei certo.

– E o que você sente?

– O chão não é ruim. Mas eu prefiro o prazer do céu. Se tenho que tirar os pés de um pra conseguir o outro, acho que vale a pena.

– Entendo – Nina disse.

– Meu bando vai para o sul em breve. Eu vou com eles. Queria saber se quer ir junto. Vamos?

– Eu não posso, tenho minhas coisas aqui. Família, amigos…

– Segurança – interrompeu, Cadu.

– Sim, segurança. Mas quero voar. Quero voar contigo!

O silêncio surgiu. E ficaram calados lado a lado por um tempo. Voaram um pouco. Ele a ensinou algumas coisas sobre correntes de ar. E ao final do dia se despediram com um “até mais”. Ao alçar voo, todavia, ele virou para trás e disse:

– Até o próximo verão.

Moral: O mundo cobra escolhas, mesmo naqueles casos em que preferiríamos não ter que escolher.

 

 

 

 

 

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