A divisão

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Havia chegado o dia da divisão. Téo abriu os olhos sem se levantar da cama. A noite passara voando e, apesar dos olhos que estavam até há pouco fechados, o garoto não dormiu um minuto sequer.

Teobaldo, ou Téo (como gostava de ser chamado), era um jovem normal. Brincou muito quando criança na pequena cidade em que morava. Conhecia e era conhecido por todos da cidade. Ele não perdeu muito tempo pensando no que faria quando esse dia chegasse, afinal, era inevitável.

Na adolescência havia namorado muitas meninas, mas uma foi especial. O seu nome era Ana. Dois anos mais velha que o rapaz, havia ensinado a ele a arte da sedução. Viveram juntos por três anos, até o aniversário de vinte e um anos da menina, no qual ela desapareceu, para sempre. Hoje era o aniversário de Téo, vinte e um anos.

Olhou para o teto branco e para o ventilador que girava pendurado por um arame. Se o ventilador tivesse caído teria sido mais prático. Mas não, o ventilador continuaria, naquele ritmo bambo, por mais alguns anos após aquele dia.

O garoto sentou-se na cama. Olhou para os poucos móveis que ali mantinha. Um guarda-roupa velho, uma cômoda com gavetas sem fundo, um tapete poeirento e uma televisão preta e branca. Ninguém se preocupava em comprar móveis antes de completar a idade certa. Ele não era diferente.

Uma parte dele odiava o local em que morava, outra já havia se apegado àqueles objetos. Levantou-se, despiu-se e foi para a sala. Lá chegando viu nada mais que um cômodo vazio, com algumas armas brancas e de fogo espalhadas em seus cantos. Sorriu de forma triste e foi para a cozinha.

Sentou-se após pegar pão, leite e queijo. Enquanto comia passava a faca que usara para cortar o pão pela mesa. A faca riscava a mesa fazendo um barulho agradável. Foi quando seu celular tocou. Voltou para a sala e atendeu a ligação. Era sua mãe.

– Ainda não – ele respondeu – assim que acontecer aviso à senhora.

– Não, mãe. Pode ficar tranquila, não vou sumir. Beijo.

Desligou o telefone com a dúvida sobre a verdade daquela promessa. Olhou o relógio da parede, eram nove horas. Certificou-se que todas as portas e janelas estavam bem fechadas. Estendeu um lençol sobre o tapete na sala e deitou-se ali.

O dia da divisão havia feito com que perdesse a namorada, mas não apenas ela. Amigos, irmãos e outros parentes. Para cada um era diferente, mas todos mudavam depois de passar por aquilo. O horário que ocorria também era diferente de pessoa para pessoa. Alguns não chegavam nem até aquele horário em que havia comido seu pão com queijo. Outros chegavam na hora apenas minutos antes da meia-noite. Era ansiedade que muitas vezes fazia com que algumas pessoas se matassem antes de sua hora. Não importava quanto fossem preparados na escola para aquilo, ou em suas famílias. Outro motivo da ansiedade era não saber como ficaria. Se bom ou ruim. Se animado ou depressivo. Se louco ou são. Se normal ou algo absolutamente anormal.

Téo passou o dia todo deitado se virando de um lado para o outro. Apenas quando chegou às vinte três horas, momento no qual começava a ter esperança de não passar por aquele processo, que sentiu algo. Foi uma dor de cabeça alucinante.

A dor, após uma eternidade, diminuiu e Téo viu-se de pé, sem saber como havia levantado. Olhou para o corpo nu e nada havia ali de diferente. Sorriu por ter passado por tudo sem nenhuma escolia. Mas não era tudo.

A dor de cabeça voltou com o dobro da força. Era como se o lado esquerdo e direito do cérebro estivessem querendo escapar um do outro. Logo, não era apenas a cabeça, mas essa sensação corria todo corpo. Lado esquerdo contra o direito. O corpo do rapaz começou a se rasgar a partir da cabeça. À medida que a parte direita rasgada passava a se afastar surgia nela uma nova parte esquerda. Assim como da parte esquerda surgia uma nova parte direita.

Ao final, um risco de sangue marcava ao meio cada um daqueles dois seres. Ambos, que haviam caído, agora sentavam-se de frente um ao outro. Tontos ainda por causa da dor sentida demoraram a perceber o que havia ocorrido: a divisão. Tão logo perceberam cada um correu para o canto mais perto e pegou uma arma e apontou para o outro.

– E agora, Téo? O que fazemos? – perguntou o temente Téo da direita, ao que o da esquerda respondeu.

– Para começar, pode me chamar de Teobaldo. Eu te chamo de Téo, e assim evitamos uma confusão.

– Qual é? Não falam por aí que apenas um sai vivo da divisão, mano? – respondeu Téo com um sorriso sarcástico.

Uma coisa era certa para todos que chegavam aos vinte um anos, o melhor sempre é o que sai da situação. Mas ninguém sabia quais as características que cada um possuía e qual era útil para aquilo.

– Eu não acredito nisso. Já ouvi falar de alguns casos raros onde ambos saem vivos da divisão.

– Calma aí? ‘Cê ouviu o que? Como assim caso raro. Éramos um até agora e eu num tô sabendo nada disso.

– Isso faz parte da divisão Téo. Já foi provado, e isso até você deve saber, que não apenas os corpos se dividem, mas as características de cada um. Muitas vezes nenhum dos dois novos é igual ao original. A inteligência, força e sentimentos são divididos de forma desigual. Acredito que naqueles casos raros dos quais falei os produtos combinaram entre si a mútua convivência.

– Tá se achando, hein, Teobaldo!? Como vou saber que você num tá querendo me enrolar?

– Não há como você ter certeza, mas… – nesse momento Teobaldo baixou a arma vagarosamente e empurrou-a para o canto.

– Há, mano. Agora abre o peito que vou meter chumbo! – disse Téo aproveitando o momento.

– Nunca pensei que alguma parte de mim poderia se tornar um assassino. – falou o garoto desarmado que abria os braços.

Téo vendo a situação não teve coragem de puxar o gatilho. Olhou para sua cópia nua e desarmada à sua frente e baixou também sua arma.

– Eu não sou assassino. Nem quero ser. Qual o plano, mano?

Um sorriso sincero surgiu no rosto de Teobaldo que respondeu:

– Nada. Vamos comer, beber e viver normalmente. Eu não te mato e você não me mata. Se quiser até posso mudar de cidade, e cada um leva sua própria vida.

– Mas, e como saberei que a divisão acabou? E se os dois morrermos se não fizermos nada?

– Não há como saber Téo. Mas entraremos nessa juntos.

Téo olhava para o sósia. Ficou ali por um tempo até que respondeu que concordava com a tentativa. Os dois levantaram-se e foram para a cozinha. Um fato que haviam descoberto juntos era que a divisão dava uma fome gigantesca. Teobaldo foi para o lado da geladeira, abriu-a e pegou o pão que ali estava. Colocou na mesa onde Téo já o esperava.

– Nossa, faltou o queijo. – o rapaz sentado lembrou.

– Vou pegar – e Teobaldo voltou à geladeira.

Sem entender o porquê, Téo foi atirado para trás com uma força assustadora, enquanto cortava o pão. Viu que Teobaldo segurava a escopeta calibre 12, de cano cortado, que havia tirado de dentro da geladeira. Téo olhou para baixo e viu que um buraco havia onde era o seu peito. Não mais ergueu a cabeça.

Teobaldo olhava sem qualquer sentimento para o corpo ali atirado. Estava contente de ter sido o único a se lembrar da escopeta escondida na geladeira. Teve certeza que seu plano daria certo assim que se dividiu. Pois Téo não seria tão vazio quanto ele.

Foi ao quarto e vestiu-se. Ao abrir a porta viu dois homens com armas apontadas para ele:

– Onde está o outro?

– Morto, na cozinha.

– Ótimo! – disse o que comandava a operação – Feliz aniversário e seja bem-vindo.

Após uma leve concordância com a cabeça Teobaldo saiu dali e, como todos os outros que passavam por aquilo, nunca disse uma palavra sobre o caso.

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