O menino que podia voar

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Algumas coisas simplesmente não compensam serem contadas. Cada um tem os seus segredos. Eu não sou diferente. Lembro como se fosse ontem o dia em que fiquei preso em uma construção.

Eu ainda era novo, tinha nove anos de idade. Poucos metros da minha casa havia uma praça e lá eu passava o dia junto aos outros meninos da rua. Meus pais não eram tão bitolados com a ideia de segurança quanto alguns pais que vejo são. Está certo que era outro tempo, e minha cidade não é lá muito grande. No centro da praça estava sendo construído um pequeno prédio, onde seria a Secretaria de Meio Ambiente do Município. Era uma construção pequena, apenas três andares (contando o térreo). Era o ambiente perfeito para se esconder e fazer loucuras.

Todos os dias esperávamos os pedreiros saírem, por volta das cinco da tarde, e corríamos até a obra. Brincávamos de guerra de pedras e esconde-esconde. Fazíamos estradas para carrinhos de brinquedo. E quando a noite começava a cair, pulávamos de cima da construção no monte de areia. Ali era onde a adrenalina explodia. Todos, normalmente cinco ou seis meninos, subíamos ao segundo andar e de lá pulávamos. Os tombos eram hilários. Cada um rolava para um lado. Lembro-me do dia em que meu irmão mais velho ao rolar parou com a cara num coco de cachorro. Todos riam que se mijavam, inclusive meu irmão.

Meu irmão sempre estava nessas brincadeiras comigo. Por ser mais velho ele acabava cuidando de mim, o que fazia com que minha mãe confiasse e me deixasse sair. Está certo que muitas vezes ele acabava pregando uma peça em mim para se mostrar ao grupo. Eu já era safo com isso. No entanto, irmão mais velho que se preze conhece muito bem as fraquezas dos irmãos mais novos. Diogo (meu irmão) era com certeza um bom irmão mais velho. Minha fraqueza estava na ponta de sua língua: eu era teimoso.

Foi assim que numa tarde, na construção, ele chegou a mim e disse:

– Tuia – esse era o meu apelido – eu deixo você dormir no beliche de cima se você for homem.

Eu olhei para todos. Eles me olhavam rindo. Dali vinha coisa.

– Então eu vou dormir na sua cama e você na minha, porque eu sou homem.

– Ok. Você só precisa provar que é homem. Hoje você tem que pular do terceiro andar.

As risadas cessaram. O Xuxa (um colega) olhou e falou que aquilo era exagero. Diogo parecia não voltar atrás. Ninguém havia pulado de tão alto. O único lugar possível era uma janela naquele andar. Ou seja, praticamente sete metros do chão. Todos diziam que um dia pulariam dali, mas era um tipo de lenda, ninguém tinha coragem pra tanto. Eu olhava meu irmão, minhas pernas tremiam, mas o olhar estava firme. Queria saber se era verdade aquele desafio. Meu irmão, apesar dos protestos dos colegas continuava me fitando, até que soprou o ar para fora do corpo como quem desiste e disse:

– Não posso fazer nada se meu irmãozinho não é homem o sufi…

– Eu faço!

A frase saiu mais fácil do que eu havia esperado. Todos olhavam para mim. Meu irmão sorria com o sucesso. Tanto ele quanto eu sabíamos que eu não voltaria atrás. Eu realmente era teimoso, beirando a estupidez. Tentaram me convencer, mas de nada adiantou. Subi ao último andar. Os outros meninos foram para a base de areia. Apenas meu irmão foi até a parte de cima. Quando eu sentei na janela ele me pediu que esperasse, ele ia descer. Diogo saiu do quarto fechando a porta atrás de si e foi para com os colegas.

Eu olhava todos lá embaixo e temia. Todos gritavam para eu pular. Alguns diziam qual parte da areia estava mais fofa e qual mais dura. Falavam para eu não me esquecer de rolar quando caísse para não quebrar os pés. Minhas pernas tremiam. Meus braços estavam travados segurando os cantos da janela. Queria desistir, mas não é fácil vencer o próprio orgulho. Foi chorando que disse que não pularia, que eu não tinha coragem. Uns se aliviaram. Meu irmão me olhava sério.

Desci da janela e fui para a porta. Quando fui abri-la descobri que Diogo havia trancado com corrente e cadeado (não havia fechadura na porta ainda). Eu gritei. Fui até a janela e pedi que abrisse.

– Eu não vou abrir. Agora você só sai quando pular. – disse meu irmão.

– Você já venceu – eu disse – não quero sua cama, não sou homem o suficiente. Abra pra mim, por favor. Estou com medo.

– Não tenho a chave – disse para os colegas puxando os bolsos da bermuda pra fora – O cadeado estava aberto, eu só fechei.

Eu comecei a ficar desesperado. Os colegas foram embora. Falaram que não queriam apanhar dos pais por terem me trancado. Meu irmão olhava pra mim sem esse medo.

– Eu vou para casa também, vê se chega antes do jantar, se não nós dois vamos acabar apanhando.

Eu, dentro da construção, olhei pela janela meu irmão ir embora me deixando apenas com as lágrimas. Ainda não acreditava que estava trancado. Olhava a areia sabendo que ia me machucar, mas eu tinha que pular. Tentei mais uma vez na porta, mas eu não seria forte suficiente para arrombá-la como nos filmes policiais. Eu tinha apenas nove anos.

Subi na janela e comecei a olhar a construção, quem sabe eu conseguiria pular para o andar de baixo e depois para a areia. Perdi as esperanças quando ao olhar a janela de baixo vi os ferros de armação que ainda sobravam soltos no chão. Com certeza machucariam mais que a areia.

Sentado eu chorei por aproximadamente vinte minutos. Foi quando o sol se pôs que notei que meu tempo tinha acabado. Logo meus pais estariam perguntando ao meu irmão, que me deduraria. Fechei os olhos e pensei que se eu pudesse voar nada daquilo teria sido problema.

Fiquei um tempo parado, tentando esvaziar a mente para fazer o pulo. Os olhos fechados logo estavam abertos, devido a uma batida forte na cabeça. Olhei e vi que havia batido a cabeça na parte de cima.

– Mas, como? – disse enquanto abaixava a cabeça para entender como eu estava tão alto. Foi quando quase cai de susto. Não estava mais sentado. Meu corpo todo flutuava numa altura de aproximadamente cinquenta centímetros da base da janela. Imediatamente me segurei no canto da parede.

– Eu estou voando – Uma alegria quente surgiu no meu peito e subiu. Abri um grande sorriso enquanto balbuciava essas palavras.

De repente o salto de sete metros não parecia mais tão alto. Levemente soltei as mãos da parede e me inclinei para frente. Vagarosamente desci até o monte de areia. Coloquei os pés no chão, empolgado. Tão empolgado que acabei tropeçando e rolei areia abaixo. Eu ri muito ali sentado cheio de areia pelo corpo.

Ao chegar a minha casa entrei pela porta da sala. Pai, mãe e irmão estavam sentados no sofá. Diogo me olhou incrédulo. Dava pra ver dúvida misturada com orgulho naqueles olhos. Minha mãe, não sabendo da minha proeza só viu a areia que sujava o corredor e me mandou tomar um banho. Eu fui, mas não sem falar ao meu irmão:

– Hoje você dorme embaixo.

O banho estava quente. Eu olhava meu corpo enquanto a água caia. Nada diferente do normal. Tentei voar ali. Não consegui. Não tinha ideia de como voar, apenas tinha acontecido. Ergui os pés, primeiro pela ponta depois pelo calcanhar. Dei pequenos saltos. Nada funcionava. Sai do banho desanimado. Ao chegar ao quarto meu irmão estava sentado na cama.

– Como você conseguiu?

Olhei atentamente para ele e respondi:

– Eu pulei.

Ele se levantou e veio para cima de mim. Olhou de cima abaixo e questionou preocupado:

– Esse galo na sua testa, você bateu em algo?

Coloquei a mão na cabeça e senti uma dor que rasgava. Até ali não tinha lembrado que havia batido a cabeça na janela.

– Eu bati em um tijolo que estava perto da areia.

Ele olhou para mim com certa admiração, acreditando nas palavras.

– Pode ficar com a cama de cima. Você vai notar que não é tão legal assim ficar subindo escadas pra deitar.

Concordando com a cabeça eu sorria. Sabia que não era tão fácil pra ele, a família toda era de teimosos. Com o tempo realmente a beliche passou a ficar chata. Mas eu subia com orgulho todos os dias ao lembrar-me de como havia conquistado o direito.

Logo, tornei-me popular entre os amigos como “o garoto que podia voar”. Afinal, tinha pulado de uma altura que ninguém conseguia. No começo a sensação foi estranha, mas com o tempo tudo vira brincadeira.

Com quinze anos de idade consegui voar novamente. Era uma noite fria de inverno e uma colega do colégio fazia uma festa para comemorar seus quinze anos. Todos estavam vestidos a rigor, inclusive Susana. Ela estava linda.

Susana estudava em minha sala. Tinha pele morena com cabelos pretos. Apenas uma mecha de sua franja era loira, o que dava a ela um ar de revolta. Mas ela não era revoltada. Tinha um coração bom, conversa fácil e agradava qualquer um que conversasse com ela. Eu estava apaixonado por ela. E ela estava apaixonada por mim. Mas aquela noite seria a primeira vez que ficaríamos juntos. Todos da festa sabiam. Fato que chegou a parecer mais importante do que a própria aniversariante.

Um grupo de meninos ficava em cima de mim, falando que eu ia me dar bem, pra pegar ela “de jeito”, para gravar cada momento e contar depois pra eles, perguntando se ela tinha amiga disponível, etc. Eu não prestava atenção neles, só tinha olhos para o grupo de meninas no qual ela era a peça central. Todas falando mais que a boca e ela calada. Apenas olhando para o meu lado. Sorríamos todas as vezes que nossos olhares se encontravam. Ela fazia algumas caretas e eu ria.

Eu já havia beijado outras meninas e ela beijado outros rapazes. Ainda assim foi estranho sermos empurrados para uma parede distante pelos amigos e deixados lá para “resolvermos as coisas”. Com ela as coisas não seriam apenas “resolvidas”. Olhei para ela e perguntei:

– E agora, o que fazemos?

Ela me olhou e deu de ombros.

– Parece que eles querem tanto que a gente fique um com o outro que me parece forçado. –disse ela.

– Pois é. Por que a gente não senta aqui e conversa?

Sentamos no banco baixo que havia encostado à parede. Falamos como era estranha a situação. Como as pessoas gostam de se meter na vida dos outros. Mudando o assunto, descobrimos que tínhamos o interesse musical bem compatível e passamos a conversar sobre as bandas e seus integrantes. Volta e meia algum amigo vinha para atrapalhar a conversa e logo o expulsávamos dali. O assunto estava tão bom que não vimos o tempo passar. Então, o alarme do celular dela tocou às onze horas.

– Eu tenho que ir embora – falou levantando-se com dificuldade.

Também me levantei ficando de frente a ela. Perguntei se ela realmente tinha que ir, e sim foi a resposta. Mas sabia que por dentro ela queria que não. Ela tinha quase a mesma altura que eu, talvez fosse um pouco mais alta ainda. Eu olhava seus olhos.

– O pior – ela disse – é que acabamos não fazendo o que viemos fazer. Mas, sabe? Adorei essa noite.

Os lábios dela se fecharam vagarosamente. Lindos lábios. Meu olhar voltou ao dela e então ambos fechamos os olhos. Senti o seu sabor e um sentimento me preencheu. Naquele momento soube que queria passar o resto de minha vida com aquela menina de mecha. Eu a beijava de cima para baixo. Abri os olhos para curtir o rosto dela de perto.

Nesse momento vi que eu flutuava. Automaticamente eu me separei um pouco dela. Ela abriu os olhos e me olhou.

– Eu não sabia que você era tão mais alto que eu.

– Ainda vou te surpreender mais que isso – e voltei a beijá-la. Vagarosamente fiz com que meu corpo baixasse. E ao final do beijo ela sorriu. Abraçou-me e voltamos para a festa de mãos dadas, sem que ela reparasse no que eu havia feito.

Cheguei à minha casa, empolgado. Com certeza contaria para o Diogo o que acontecera. E dessa vez eu voaria para ele ver. Mas ele não estava. Eu havia esquecido que ele se mudara para fazer faculdade fora. No quarto eu sorria como bobo. Tinha prestado atenção no que eu sentira quando voava. Não foi o suficiente. Acabei sem conseguir voar novamente.

Aos trinta e dois anos de idade, já meio calvo e casado com Susana, finalmente consegui voar à vontade.

Era uma tarde fria e eu estava sozinho em casa. Assistia a um filme muito antigo onde um garoto podia voar. Lembrei-me do que havia ocorrido quando eu era mais novo. Um sentimento alegre me fez levantar e ficar de pé em frente à televisão. Ali tinha certeza que eu conseguiria voar. Tentei, sem sucesso. Fechei os olhos e lembrei-me do primeiro beijo em Susana. Lembrei-me de como eu havia ficado feliz. Apenas uma vez fui mais feliz que naquele dia. No dia em que Susana, seis meses atrás, anunciou sua gravidez. Teríamos uma menina. Senti o peito queimar ao passar mentalmente os nomes que estavam na lista de prováveis. Olhei minhas pernas e disse comigo:

– Agora eu posso voar.

As pernas levantaram-se carregando todo o corpo consigo. Sentia-me leve, como uma pluma. Mas sem deixar de sentir qualquer outra parte do meu corpo. Podia me mexer livremente, ir para o alto e para baixo. Fui ate o fundo de casa sem colocar os pés no chão. De lá vi a antena em cima do telhado, voei até lá. Pousei, para ter certeza que eu sabia como voar. Foi fácil levantar voo novamente. A velocidade ainda era baixa. Mas posso garantir, quando pode-se voar, a velocidade é o que menos importa.

Após duas horas de voo desci novamente para sala e me sentei. Logo Susana chegaria do trabalho e queria mostrar para ela de uma forma surpreendente. Quando ela chegou deu-me um beijo e perguntou:

– Tivemos algum problema na antena?

– Não, por quê? – respondi.

– Porque quando cheguei a vizinha veio comentar que você passou quase a tarde toda em cima do telhado, pensei que fosse algo com a antena.

– Ah, sim. Foi só uma falha no sinal. Subi rapidinho e arrumei. Mas o dia estava bonito e acabei ficando um tempo por lá pensando.

Ela riu e falou que me achava um bobo. Beijou-me novamente e foi para o banho. Assistimos à televisão enquanto ela falava do seu dia. Confesso que não lembro nada do jornal ou de suas palavras. Só pensava em como a surpreenderia e mostraria meu voo. Talvez a levasse como o Super-homem fazia com a Louis. Talvez acordasse ela em pleno voo. Tinha que ser interessante. Acabamos indo para a cama e eu com esse pensamento.

Eram quase três horas da manhã e eu não conseguia dormir. Voava deitado sobre a cama. Fiquei com medo de Susana me ver. Levantei e fui para fora de casa. Vi uma arvore, uma Sibipiruna, que ficava na frente do meu quintal. E rapidamente estava em cima de sua copa, sentado num galho central. Fiquei ali pensando. Foi quando ouvi a voz de Susana.

– Tuia, o que deu em você? O que você está fazendo aí?

Ela estava ainda com seu pijama e sua barriga de sete meses. Não era daquela forma que queria falar. Mas não consegui imaginar uma resposta diferente da verdade.

– Eu estava pensando, amor. Tenho uma coisa que preciso te contar.

– Não dá pra contar aqui embaixo. Desça daí agora, eu estou assustada.

– É exatamente sobre estar aqui em cima que queria falar. Desde criança eu posso voar Susana. E agora eu consigo controlar – as palavras saiam como peso retirado do meu peito.

– Que história é essa Tuia, desça daí. – ela começava a chorar. Eu pensei que era de felicidade sobre o que estava contando.

– Eu vou descer como subi, voando.

Fiquei de pé no galho e abri os braços. Não precisava, mas os braços fariam parecer mais real. Quando comecei a inclinar o corpo ela gritou:

– Não! Pare, Tuia! Você não subiu ai voando, eu vi você subindo!

Olhei para ela incrédulo. Por que ela mentiria daquele jeito? Fazia pouco tempo que eu tinha subido, voando. O que estava acontecendo?

– Pode ficar calma, amor. – a tranquilizei – Não vou me machucar, sei o que estou fazendo.

– Se você sabe, por que esta com o corpo vermelho de sangue? – ela engasgava no próprio choro ao dizer as últimas palavras.

Foi nesse momento em que olhei para o meu corpo. Estava vestindo apenas um shorts de pijama azul, que estava com manchas vermelhas. Meu peito, pernas e braços estavam todos cortados e sangrando. Por um minuto não entendi o que estava acontecendo, mas logo eu soube. Veio a mente como eu tinha saído de casa e olhado para a árvore. Sem qualquer equipamento subi. Os cortes foram das cascas da árvore que, já secos, cortavam com a pressão que eu fazia meu corpo sobre eles. Eu abracei a árvore e subia abraçado, foi devagar e doloroso. Com essa imagem vieram outras: aquela em que eu subia no telhado pelo muro; aquela em que eu subia no banco baixo, do nosso lado, enquanto dava o primeiro beijo em Susana, e; o momento em que fechei os olhos de sono e cansaço naquela construção e acabei caindo, batendo a cabeça em um pedaço de madeira que sobrara ali, rodando para baixo no monte.

Eu nunca havia voado, as minhas memórias haviam sido adulteradas enquanto aconteciam. Senti-me assustado em cima da árvore e acabei descendo com a ajuda dos bombeiros que chegaram para me levar ao hospital, chamados por Susana.

Alguns segredos não compensam serem contados. Eu descobri isso naquele dia. Eles podem manter as nossas verdades do jeito que deviam ser.

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Esta entrada foi postada em Contos.

3 comentários em “O menino que podia voar

  1. leonardo coutinho disse:

    texto muito top !

  2. Zulmira disse:

    Uau! Perdi o fôlego. Incrível. Parabéns. 🙂

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