Passado

tortura21

– Está na hora de acordar, Antônio. – disse Lucas com um sorriso convidativo, dando leves tapinhas no rosto do senhor sentado à sua frente. Por alguns milésimos de segundo o homem lutou com a dúvida, até que o pavor surgiu das profundezas de seus olhos azuis.

– Quem é você? Onde estou? – ao tentar se mexer percebeu que estava com braços, pernas e tronco presos à cadeira – Você não tem ideia com quem está mexendo garoto, solte-me logo!

Apesar do tom autoritário, era palpável o medo em suas palavras. Antônio era um grande chefe do tráfico da cidade do interior do Paraná. Tinha feito fama matando muitos na região, dominando o mercado de crack e pagando os policiais influentes para solucionar algumas questões para si. Por mais de vinte anos dominou a cidade. E nunca, em todo esse período, houve alguém suficiente capaz para lhe desafiar. Além do nome, os cinco guarda-costas que andavam sempre por perto afastavam qualquer pessoa mal intencionada. Logo, para estar ali preso naquele quarto escuro, o sujeito à sua frente tinha dado um jeito nos capangas. Não era um qualquer. O medo, contudo, vinha daqueles olhos que brilhavam. Ele conhecia aqueles olhos, eram os olhos de quem perdeu tudo.

– Meu nome é Lucas – disse o jovem sorridente, de vinte e nove anos de idade, enquanto puxava uma cadeira, sentando-se de frente a Antônio. Os olhos vazios destoavam do sorriso e rosto bonitos. Havia um brilho naqueles olhos negros, algo que faria própria escuridão procurar um abrigo à luz do sol. – Você está no quarto que nos conhecemos e onde nos despediremos.

Ao sentir que as palavras haviam causado o efeito desejado, Lucas esperou. Deixou que elas fizessem a cabeça do senhor pálido à sua frente fermentar. Sorriu, conforme sentia que o clima ficava mais e mais pesado. Levantando-se, continuou:

– Você é Antônio Ferro. Tem cinquenta e dois anos de idade, nasceu na cidade de Curitiba. Veio para o interior fugido da capital, pois havia matado seu irmão em uma briga, por causa de um jogo de cartas. Aqui chegando trabalhou como pedreiro, na cidade que crescia. Na década de 90, sem dinheiro e sem emprego, conheceu Pedro Loruque, com quem passou a cometer pequenos assaltos. Logo, descobriu que drogas davam mais dinheiro que roubos. Afinal, porque roubar se alguém podia fazer isso por você. Você matou seu parceiro, ficando com o dinheiro conseguido até ali. Começou, então, a comprar crack e vender na cidade. Subornou policiais, matou, estuprou e fez o que bem entendeu até hoje. – Lucas tinha os olhos fixos nos de seu prisioneiro, e a cada verdade dita, sentia o medo crescer ainda mais – E então, posso dizer que sei com quem estou mexendo?

Antônio não soube o que responder. Boa parte daquele discurso era fácil de se descobrir, mas um fato era desconhecido na cidade. Nunca contara a ninguém que havia matado o próprio irmão. Havia mudado o nome ao sair de Curitiba, conseguiu novos documentos, pagava impostos, ou seja, apenas alguém que tivesse feito uma pesquisa muito a fundo chegaria àquilo. O fato de não ter ideia de quem era aquele garoto, tornara-se assustador.

– Se vai me matar, mate. Não fique enrolando, garoto! Se eu sair daqui, pode ter certeza que não te darei todo esse tempo.

– É incrível que você ainda tenha esperanças de que sairá daqui com vida – Lucas disse caminhando para trás da cadeira do prisioneiro. Abaixando por trás de Antônio, disse ao pé de seu ouvido, quase num sussurro – Fique tranquilo, farei você perder essa esperança.

Um tique e a luz se acendeu no quarto. Uma lâmpada incandescente, de 60w, iluminava fracamente o ambiente. Andando novamente até a própria cadeira, Lucas aproveitou para desligar a luminária que tinha sido a única luz desde o início do encontro. Sentou-se, notando que Antônio olhava tudo atentamente. Abriu os braços, sorriu de forma orgulhosa e perguntou: – O que achou?

O quarto, conforme estimativa de Antônio, deveria ter não mais que vinte metros quadrados. Tinha um pequeno guarda-roupas no canto. A porta, provavelmente, estava a suas costas. À sua frente, depois da cadeira de Lucas, uma cama simples de casal. A janela, ao lado da cama estava pintada de preto. Em cima da cama, um pano enrolado, parecendo algo que se leva quando vai acampar. Do seu lado, uma pequena mesa de madeira, de quadro lugares, mas sem outras cadeiras além daquelas que usavam. Os móveis aparentavam ter muitos anos, e ao constatar isso, pode sentir também um cheiro de mofo vindo do quarto.

– Quem é você, garoto? Não me lembro desse quarto ou de ter conhecido alguém aqui.

– Ah, você conheceu! – disse de forma sombria, e não animada como até ali – Aqui você me conheceu e me disse algo que nunca me esquecerei. Você havia estuprado minha mãe e batido com a cabeça dela na janela até que houvesse mais vidro na cabeça dela do que na janela. Você estuprou ela na minha frente, depois de ter me surrado. Eu tinha apenas onze anos de idade. Você bateu em mim, estuprou e matou minha mãe na minha frente, tudo por vinte reais de crack que ela te devia. E não satisfeito, olhou para mim e disse que havia lido que, quando se mata um clã, deve matar todos daquele clã, ou morrerá pelas mãos daquele que deixar viver. Aí abaixou-se ao meu lado, puxou meus cabelos, e me perguntou “você vai me matar, garoto?”. – uma calma fantasmagórica perdurou em cada palavra dita por Lucas, até que o jovem voltou a sorrir – E então, você lembra qual foi minha resposta?

Com um pavor que jamais havia sentido, Antônio viu Lucas se levantar, e ir até a cama. O garoto desenrolou o pano que estava ali, mostrando uma coleção reluzente de facas dos mais variados tamanhos. Antônio começou a se bater, tentando soltar-se da cadeira. Era impossível. Lucas, que havia escolhido duas facas, segurava-as, olhando entretido pela vã tentativa de seu prisioneiro. Caminhando de volta para sua cadeira, disse:

– Eu tinha onze anos. Faz dezoito anos desde aquele dia. Dezoito anos em que chorei e sofri. Uma tortura constante em sonhos e pensamentos. Sua imagem sobre minha mãe. O sangue espirrando na janela. Sua frase. Foram dezoito anos de uma tortura constante. Mas também foi o tempo para me preparar. Não foi fácil planejar. Mas vou poder dizer que não deixei ninguém para trás. Nem sua esposa e dois filhos. Nem seus cinco seguranças ou suas famílias. – Lucas sentou-se à frente do prisioneiro que chorava e, ao colocar uma faca sobre sua bochecha, notou que o velho chefe do tráfico se mijara. Não conteve o sorriso – Sim, todos já estão mortos. Mas, pra você eu tenho algo especial. Só que antes preciso de sua resposta.

Lucas avançou como um guepardo, puxou os cabelos e com eles a cabeça de Antônio para trás. Com nítida irritação na voz, com os olhos colados aos do prisioneiro, perguntou mais uma vez, enquanto cortava a bochecha do porco:

– Qual foi a minha resposta, seu estuprador filho da puta!?

– Você disse que chegaria o dia que me torturaria e me mataria.

– Pois bem – disse Lucas satisfeito, deixando-se cair na cadeira – Chegamos ao dia!

 

 

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