Bananeira

Bananeira

O verdadeiro silêncio é assustador. Sempre há um barulho aqui ou ali. O vento que carrega folhas, uma música no vizinho, insetos voadores ou a própria respiração. À noite esses sons se tornam assustadores. Comecei a notá-los melhor quando me mudei de casa. Agora, no quintal, temos árvores e mais árvores. Chamamos o local de chácara. O tamanho não é tão grande, mas para quem pensava que moraria num quintal de duzentos metros, setecentos é muito. Foi estranho notar, então, na última sexta-feira que o mundo se calou.

Minha esposa, que dormia ao meu lado, ficou totalmente silenciosa. Dei uma leve risada, lembrando-me de sua asma, que a fazia respirar alto durante a noite. Contente, fechei o livro em meu colo, e inclinei-me para dar um beijo em sua bochecha. Voltei à posição inicial, quase sentado, e coloquei o livro sobre o criado mudo. Foi nesse instante que notei, estava surdo. Não pude ouvir o interruptor quebrado que sempre parecia um tiro na madrugada. Nada emitia som algum. Bati palmas, nada. Não havia mosquitos, não havia qualquer som. Chacoalhei minha esposa, ela não acordou. Na verdade, ela nem se mexia. Fiquei apavorado.

Levantei, pensando estar em algum sonho. Pulei, gritei, puxei os cabelos. Nada me fez acordar. Água. Fui atrás de um copo de água. Já li diversos livros que tinham lendas sobre água, onde ela purificava, em diversos sentidos. Tomei água, coloquei a cabeça de baixo da torneira e nada. Ao chegar à sala novamente, a caminho do quarto, cai. Não tinha forças para continuar.

Não sei se era uma lágrima ou uma gota que correra do meu cabelo molhado, mas ao limpar a água da bochecha ouvi um forte e conhecido ladrar. Logo, outro. Eram minhas duas cachorras. Elas estavam no fundo de casa. Levantei e corri em sentido a janela que fica sempre aberta. Antes que terminasse de me levantar, mas já vendo o fundo da casa, um forte clarão acompanhado de um som gigantesco fez com que eu voltasse a cair.

Agora ouvia tudo, inclusive minha respiração falha por ter caído tão forte de costas. Levantei-me, novamente. Olhar para o fundo, que tem aproximadamente vinte e cinco metros após a casa, fez-me ficar apavorado mais uma vez. No meio do quintal, uma enorme torre de vento se erguia, um furacão. Formava um cone com a base de aproximadamente cinco metros de diâmetro e altura de pouco mais de três metros. Ao centro, no olho do furacão, era possível ver apenas duas bananeiras.

Saí da casa, em sentido ao furacão. Era incrível como, apesar da cara feia, era pouco o vento perto. Minhas cachorras foram ao meu lado. Uma latia para a cena assustadora, a outra me olhava como quem quer dizer “já podemos ir pra dentro?”. Eu abaixei para fazer um carinho nela dizendo que ela podia ir para dentro cuidar da “mamãe”. Ela sentou-se olhando decidida para o furacão, “se você fica eu fico”. Eu sorri.

– Ha há! Ha há! Há! – uma gargalhada contínua veio do meio do furacão.

Tanto eu quanto as cachorras demos um passo para trás. Eu fechei os punhos, elas mostraram os dentes.

– Então, consegui assustar vocês!? Ha há!

O furacão sumiu, sobrando apenas as duas bananeiras no olho do furacão. Logo que me mudei havia um corredor de bananeiras, que eu havia tirado para dar visão do fundo, sobrando apenas aquelas duas. As cachorras foram na frente, passando entre as duas bananeiras e cheirando o chão por ali. Eu, não vendo ninguém, segui para o fundo, para ver em cima das árvores. Nada nas jabuticabeiras, abacateiro ou mangueiras. Os pés de amora, fumo e limão também estavam intactos. Sem ninguém por ali. A palmeira era alta demais para alguém subir, assim como outras plantas eram baixas demais. Pensei estar ficando louco. Do fundo da casa olhei e vi que deixei a porta aberta. Minha esposa! Corri, e ao passar pelas cachorras, que agora estavam de barriga para cima perto das bananeiras, ouvi novamente a voz de poucos minutos antes.

– Bah! Eu não quero assustar ela! Só você!

– Me assustar? – disse ao virar de costas, buscando a voz.

Lá estava ele, sentado, fazendo cócegas nas barrigas de minhas cachorras com uma mão e segurando o cachimbo na outra: o Saci. Eu não precisaria conhecer a lenda para saber que aquela pessoa na minha frente era a encarnação do mal. Não a encarnação de “todo o mal”, mas de uma parte bem grande. Ele não era feio, pelo contrário, nunca vi um menino mais bonito. Ele aparentava ter quatorze anos. Era preto como a noite, com um sorriso branco de dar inveja a propaganda de creme dental. Era tão simpático quanto algo pode ser. Magro, mas não esturricado. E não fosse por ele ficar batendo o pé no chão, para levantar microtufões, ninguém notaria a perna faltante.

– Eu não faria nada se você não fosse tão mané!

– Mané, eu? Como?

– Corta minha casa, corta meu fumo, e deixa essas ervas daninhas cheias de espinho machucar essas duas – as cachorras praticamente tinham dormido lambendo a mão dele.

Eu realmente havia cortado folhas do pé de fumo, para secarem e ver se ficavam boas (mesmo sabendo que eu ia jogar fora depois por não fumar). Também havia deixado as ervas crescerem, mas nesse ponto, deve ser dito, ninguém vence cuidar de setecentos metros de quintal não calçado. Ao menos não alguém que não tenha qualquer experiência. Agora, casa?

– Que casa?

– As bananeiras – ele disse com os olhos ficando vermelho, apesar do sorriso manter-se – nunca ouviu as lendas não? Eu moro nas bananeiras.

– E como você queria que eu soubesse que eram bem nas bananeiras da minha casa?

E essa foi a maior afronta que acho que alguém pode fazer. O seu rosto ficou sério pela primeira vez, os olhos queimavam vermelhos. Durou dois segundos, até ele responder triste.

– Eu vivo e me escondo em todas as bananeiras. Ao menos, vivia – a última palavra olhando para o monte de restos de bananeiras que secam no meu jardim depois do último corte. O sorriso voltou – Mas quer saber? Vou te infernizar enquanto morar nessa casa!

– Você sabe que o financiamento da casa é de trinta e cinco anos, certo? – Falei, mas queria não ter falado. Típica piada de uma pessoa nervosa que não sabe o que dizer, e que acaba ouvindo uma resposta que não gosta.

– Então vai passar rapidinho! – disse ele desaparecendo no ar, fazendo as folhas das bananeiras restantes irem e virem com um vento forte.

Olhei para as cachorras que vieram para perto. Olhei para o céu, estava tarde. Fui para dentro, fechei as portas e janelas. Fui para a cama.

– Está tudo bem? – perguntou minha esposa.

– Vamos ver!

Anúncios
Esta entrada foi postada em Contos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s