A bolha

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Meu pai aos oito anos era menino da roça, corria entre os cafezais com os seis irmãos, que se tornariam onze ao todo. Estudava cedo, na volta, pelas ruas de café, já via o pai e organizava os irmãos mais novos para levar a marmita do patriarca e ajuda-lo com a cata de poucos grãos que caiam ao pé. Na verdade, pouco fazia. Mas corria, brincava, jogava pião, arruava café e se divertia.

Aos meus oito anos eu ganhei uma bola de salão. Lá íamos meu irmão, eu e alguns vizinhos jogar na praça ao lado de casa. Nunca morei no sítio, apenas ouvi falar. Mas eu corria, brincava de esconde e de pega. Ao todo levei mais de cinquenta pontos pelos cortes do corpo. Cabeça, queixo, orelha, peito, coxas e panturrilha. Não teve parte que não cortei. Como se não bastasse eu ainda tinha mania de pirotecnia. Explodia muros, queimava cortinas e armários. Quando estava entediado, e sem opções, pegava um martelo, um prego e um tanto de fósforos. Furava um pedaço de madeira e com o prego fazia pequenas explosões de fósforo. Colecionei latas de cerveja, maços de cigarro e mascava de dez em dez chicletes por vez só por causa das figurinhas.

Meu filho aos oito anos tinha dois carrinhos elétricos no canto do quarto. Apesar de haver bola, soldados de brinquedo, bicicleta e skate, o menino nunca brincou com outra coisa que não o computador. Minha esposa o levava para escola e buscava assim que dava o horário. Ele não pedia a benção dos tios ou avós. Apenas chegava e sentava na frente da tevê. Quando era mais novo ainda se animava, mas aos oito já era um estranho ao mundo externo. Nunca estava sujo. Só se cortou uma vez, chorou tanto que pensei que estava morrendo. Quando cheguei vi que era apenas um corte de papel. Ok, doeu, mas não era pra tanto.

Hoje meu neto faz oito anos de idade. Ontem fui ao mercado virtual e comprei a Bolha para ele. O nome não é bolha, e sim 泡沫 (palmo) que significa bolha em chinês (não sei porque não traduzem). Trata-se de uma roupa invocada que veste o corpo todo. Dos cabelos ao dedinho do pé. Não é necessário utilizar mais nada além da Bolha. Ela não tem uma cor definida, você escolhe a cor como a densidade, sensibilidade e estilo por um controle holográfico. Uma vez que você a veste não precisa tirar para nada, salvo acasalar. Mas como ninguém faz sexo hoje em dia, não seria meu neto a ter problema com isso. Custa o valor de um terreno na lua, mas eu tenho uma poupancinha. A roupa tem outras funcionalidades, é a prova de bala, cresce com o hospedeiro, controla o peso, purifica o ar, controla o volume do som externo e massageia o corpo assim que percebe sinais de cansaço.

A roupa é perfeita, dá a certeza que o menino nunca vai se machucar ou dormir de mau jeito. Sentir frio ou calor. Cansar ou engordar além do necessário. E é por isso que ontem mesmo eu devolvi a peça de roupa. Fui até ao galpão onde guardo as coisas do meu pai. Peguei o velho pião dele e um pedaço de barbante. Hoje vou levar o menino a um parque e ensiná-lo a jogar o mesmo. Vou dar sorvete para o menino e vamos tomar um banho de chuva se tivermos sorte. Porque hoje ele faz oito anos e é disso que deve lembrar-se quando olhar para trás, da sua infância.

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