Circo dos Horrores

Evil Circus Clown Welcoming You To A Dark Carnival

Chovia quando o jovem de dezesseis anos de idade chegou ao Circo dos Horrores. Julio era um garoto de rua, que vivia abandonado ao acaso, vivendo de migalhas e da caridade de estranhos. Estranhos nem tão amigáveis, que viam nas esmolas uma forma de se livrarem logo do problema.

O menino conheceu o lugar através de um malabrista, Tomas, o qual ganhava uns trocados no semáforo próximo à praça onde Julio dormia. Tomas há alguns dias havia puxado conversa com ele, perguntava dos pais (que o menino não conhecera), dos problemas que havia superado e quais persistiam. O garoto não havia estudado muito, apenas lia e escrevia. E com o tempo de rua aprendera a reconhecer o perigo quando o via. O malabarista realmente não o assustava. Ficou realmente feliz quando o amigo o chamou para ir conhecer o circo, e quem sabe morar e trabalhar lá.

A tenda escura, num local escuro da cidade, não era muito convidativa. Mas, conforme adentrava o terreno, notava a organização. Duas caminhonetes, uma do século passado e outra nova, estavam estacionadas ao lado da tenda principal. Além delas via-se quatro trailers. Quando perguntou Tomas explicou que apenas alguns membros do circo residiam ali. Alguns, como ele, trabalhavam fora. E alguns desses preferiam ter suas casas na cidade, só aparecendo ali para o show que acontecia às sextas. Não parecia haver qualquer pessoa por ali.

Seguiram para a tenda principal. Passando por um hall anterior a tenda, viu duas barracas, onde eram vendidos amendoins e pipoca. Uma barraca estava vazia e nela eram vendidas as lembranças do circo. O hall todo era preto, incluindo as barracas. Apenas iluminado por três buracos na lona que deixavam o sol entrar. A noite, quatro lâmpadas amarelas nos cantos se acendiam, mantendo o espírito sombrio do local.

Atravessando a porta (feita de pano negro) não se via muita coisa. Apenas uma luz ao meio do palco principal. Embaixo da luz uma cadeira simples de madeira e sob ela um circulo de alquimia, que Julio apenas conhecia como um símbolo do mal. Alguém um dia havia dito que a estrela representava o mal do mundo. Ele não entendera, mas não gostava do símbolo desde então.

– Siga até a cadeira e sente-se. O Mestre logo virá para realizar a entrevista. – disse Tomas se afastando.

Julio aprendera que o medo é o que o conservava vivo nas ruas, e por isso era um sentimento bom. Porém, ali ele não estava sentindo medo. Sentia-se como alguém vazio, prestes a se completar de alguma forma. Uma mistura de esperança e êxtase. Foi em linha reta, mesmo sentindo que vários olhos o acompanhavam. Ao sentar-se, ficando de frente para a porta da onde saíra matou a curiosidade de olhar para os lados. Mas como imaginou nada se via. Pensou ainda se esticasse a mão para fora da luz provavelmente não veria os dedos. Isso era exagero.

– Então, você é o mendigo que quer entrar pra trupe?

A voz gutural rasgou o silêncio. O menino se lembrou de um desenho que tinha assistido em que após um susto a alma do personagem corria deixando o corpo para trás. Foi exatamente esse o sentimento. A luz ficou mais forte, aumentando o circulo. Da escuridão surgiu um senhor. Aparência de pouco mais de cinquenta anos. Baixo, careca e com uma barba fechada. A voz combinava como seu rosto e suas olheiras. As roupas pretas e tatuagens por todo o corpo o tornavam assustador.

– Não sabe falar moleque!?

– Sim, eu sei. – respondeu sem gaguejar, com a voz firme, controlando qualquer medo que ainda persistisse. – E sim, quero deixar de ser um mendigo e entrar para a trupe.

O Mestre o fitou, um moleque magro e extremamente branco. Sentado era quase do tamanho do Mestre. Provavelmente, chegando aos 1,90 metros de pé. Os olhos eram sérios e despertavam a curiosidade.  Mas, de longe, o que mais chamava atenção para o garoto era seu nariz. Era maior que o normal, duas vezes, no mínimo. Muito inchado na ponta, deixando com um aspecto circular (apesar de não ser exatamente redondo). Não fosse o tamanho desproporcional, ainda podia ver-se um nariz completamente vermelho. Provavelmente uma acne piorada milhões de vezes. Havia espinhas nas espinhas do garoto. Muitas tinham sangue coagulado nas pontas e em algumas ainda o sangue escorria. Definitivamente não era bonito de se ver.

– E você tem nome, moleque?

– Sim, meu nome é Julio – e apontando o nariz vermelho, com um sorriso leve e voz cortante, continuou – mas todos me chamam de Palhaço.

O homem refletiu sobre as palavras e intenções do menino. Aproximou o rosto com o de Julio e, sem mudar o tom seco em sua voz, continuou.

– Você já conheceu o inferno, Palhaço? – houve um silêncio proposital para que a mensagem chegasse ao garoto – Porque é o inferno que você encontrará aqui.

O homem deu um passo para trás virando o corpo para direita, convidando o menino a visualizar suas palavras. Pela mesma porta que entrara conseguia ver a trupe chegando. À frente, Tomas, com facas atravessando suas mãos, com o sangue escorrendo, enquanto bolas flamejantes iam e vinham do alto. Em segundo lugar um homem completamente pelado, nada diferente a não serem os cascos no lugar de pés. Enquanto o fauno-sem-pêlos virava um mortal duplo para frente, foi possível ver a mulher cujas barbas iam até seus pés. Abaixo da barba era possível ver os pés do que pensou ser uma criança se amamentando, mas que se revelou um anão caolho que sorvia os seios da moça. Assim que entravam o Mestre ia apresentando cada um, como o anão caolho que se chamava Thor e tinha uma incrível força. Mais e mais monstros entravam pela porta, cada um mais assustador que o outro. Cada um com um “dom distorcido”, como o próprio Mestre dizia.

Quando todos haviam entrado, e vendo os olhos atentos do rapaz o Mestre perguntou:

– E você, o que tem de especial para poder entrar para esse inferno? Além, é claro, desse nariz asqueroso.

– Nada que impressione tanto. – respondeu como quem já sabe que será rejeitado antes de pedir a uma donzela idolatrada sua mão.

O Mestre então olha para Tomas, curioso. Esse tenta encorajar o menino.

– Você deve contar.

O menino volta o olhar para o Mestre e diz:

– Eu consigo sentir o cheiro do sangue. Eu consigo sentir sangue.

Um alvoroço começa, todos discutindo o dom e ao que poderia levar. Uma decepção vai surgindo e fica evidenciada nas palavras do líder.

– Não vejo como isso pode ser útil.

– Pode ser útil, pois eu posso ler as pessoas. Com poucas palavras eu consigo sentir o medo de cada um. E eu posso forçar esse medo. O sangue se move a cada pensamento, e eu posso interpretá-lo. Eu pude saber que havia dezoito pessoas na tenda na hora em que entrei. Inclusive o homem que ainda está sentado na arquibancada.

Todos ficaram assustados naquele momento. O silêncio absoluto fez com que Palhaço se sentisse no controle da situação, e até um sorriso surgiu em sua face. Mas o prazer foi tão duradouro como o fogo de uma vela que cai no mar. Sem perceber suas pernas, braços e torço estavam amarrados. A sua frente havia um homem de terno preto, com uma cartola e de costas. Ao virar-se o rosto do homem se mostrou cadavérico, e com a boca costurada com linha de vime. O Mestre foi a frente e disse:

– Esse é Lucius, o mago negro. Ou, o homem que estava sentado na arquibancada. Incrível sua mágica, não!? No entanto, devo confessar, você também me surpreendeu menino. Acredito que será um ótimo palhaço para nós. Só uma coisa me incomoda. Seu sorriso, você não sorri. Seus olhos se vangloriam, têm prazer, mas sua boca não se mexe. E, meu caro, não existe palhaço sem sorriso. Vamos ter que resolver isso.

Tirando um canivete do bolso o anão avança. Banguela, sorri, mostrando a pequena arma branca balançando. O menino não teme, ficando sério. Apenas a dor o faz mudar a posição, ele grita. Há quem diga que o grito pode ser ouvido há quilômetros dali. O menino, cansado dos cortes que rasgaram um sorriso em sua face, abaixa a cabeça. Nesse momento vê que as cordas que o prendiam não estavam mais ali.

Os artistas começam a se afastar, vendo o estado do garoto. Todavia, param quando ouvem o menino falar. Ao olharem vem que as palavras saem de uma pessoa assustadora e séria.

– E você, mestre? Qual seu medo? Qual seu inferno?

– Reunir todos vocês é meu inferno! Conviver com vocês, seu bosta, é meu inferno. Não temo a nada.

– Entendo, então esse é seu medo. Você é uma pessoa comum, e vive a custa desses monstros. O seu medo é que eles descubram, não é? – o menino saboreia o próprio sangue que jorra dos cortes em suas bochechas, mas não para – Posso sentir seu sangue medroso. Posso sentir a dúvida no sangue deles… neste momento!

– Cale a boca, seu mald…

Não houve tempo para que o Mestre concluísse a sentença. Palhaço, com uma incrível destreza, levantou-se e com uma mordida arrancou um pedaço do pescoço e jugular do homem à sua frente. Todos olhavam Mestre agonizar no chão, por volta de três segundos, até perder a consciência. O rapaz olhava com um sorriso para todos ao redor. Com seus medos, suas fúrias. Cada sentimento, cada medo. E assim, fitando a todos, propagou:

– Eu sou o Palhaço! Todos vocês morrerão aqui, por minhas mãos. Começa agora o verdadeiro show de horrores!

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