Maníaco da sorte

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Todos esperavam que ele corresse para a casa da única vitima de seus crimes que havia permanecido viva. Patrulhas rodavam as ruas, atiradores em cima dos prédios próximos, policiais na porta e policiais de campana nos arredores. Em sua fuga, na verdade, ele próprio tinha deixado uma carta que dizia exatamente isso, que mataria a vadia que o colocou na cadeia. Os policiais não sabiam se era uma ameaça imediata ou não, nem sabiam se era verdadeira. Mas tratava-se do pior serial killer que havia vivido na cidade, talvez do país. E tantas vezes que ele havia brincado de pega com a policia, que os detetives já imaginavam cenários impossíveis.

No entanto, Antunes, não seria tão tolo ou impaciente ao ponto de ir direto para a casa dela. Não é porque era chamado de “Maníaco da Sorte” que confiaria na sua. O apelido era derivado dos pequenos símbolos de azar que deixava em cada local de homicídio. Ele esperaria o momento certo, aquele momento em que a polícia deixasse de gastar com proteção da doce Luisa. Antunes gostava de pensar no sofrimento que passava na cabeça de Luisa. É ruim ver alguém indo te matar, pior é não ver, mas saber que a pessoa está lá.

O jovem ariano, de pouco mais de trinta anos, com os cabelos pretos, deixou que crescesse a barba e conseguiu um emprego próximo a casa de Luisa. Isso permitia que sempre passasse na casa dela e deixasse algo que a fizesse temer. Usou alguns bonecos de bambus quebrados na frente de sua janela, pedaços de espelhos colocados no calço da porta, e um dia cercou a casa dela de sal. Qualquer coisa que beirasse o esoterismo para ele era bem-vindo naquela situação, mesmo que não tivesse nada a ver com sorte ou azar. Ele apenas queria a deixar nervosa. Toda descoberta (e susto) de Luisa fazia com que a polícia aparecesse por mais uma semana na casa.

Luisa, cansada, se mudou diversas vezes, criando uma completa nova identidade em cada caso. E em todo, com poucos dias de mudança, apareciam os símbolos estranhos que a perturbavam. Até que, em uma de suas mudanças isso não ocorreu. Passou-se um dia, uma semana, meses… Após pouco mais de dois anos e meio, finalmente a mulher conseguiu dormir tranquila pela primeira noite após a fuga.

Esse era o plano.

Na terceira noite, entrando em casa, rindo e falando ao celular, Luisa não sentiu a mão que veio por trás de sua cabeça e tampou sua boca com o pano encharcado de formol. Com o cheiro forte seu corpo cedeu, ela desmaiou. Ao acordar Luisa estava nua, no meio sala, sentada em uma cadeira. Tanto os braços quanto as pernas estavam amarrados de forma firme com fita adesiva. Uma mordaça vermelha amarrada em sua boca tornava a emissão de sons quase nula. No corpo nu, nada de brincos ou pulseiras, apenas um colar feito de fios de vime com um pé de coelho na ponta, com o cheiro velho de sangue.

– Você está com azar!

Antunes disse o seu jargão enquanto cortava a garganta da prisioneira. O sangue correu. Tanto o cordão quanto o pé do coelho absorveram o sangue e ficaram vermelhos. Era uma cena única. Foi a primeira vez que havia tido tanto cuidado com uma morte. Nos outros crimes matava de qualquer jeito, normalmente com uma briga. Olhando para a cabeça caída da moça, decidiu que seria aquela a sua ultima matança. E que quando os outros falassem do Maníaco da Sorte, aquela cena viria à mente de cada um.

Tirou o colar cuidadosamente e o colocou em um saco plástico, que foi ao bolso da calça. Olhou novamente a belíssima cena. Procurou em torno e encontrou no armário um par de chinelos. Com cuidado colocou os chinelos próximos à porta, de cabeça pra baixo.  Saiu.

O que aconteceu depois não fazia parte do plano.

Duas quadras da casa de Luisa, enquanto ainda pensava no que havia realizado, Antunes não viu que o sinal estava vermelho. O caminhão de lixo, que estava atravessando o sinal verde, não teve tempo de parar. O carro popular, e roubado, foi arremessado aos ares. O tanque do carro, que estava cheio para a nova fuga, explodiu. Não houve tempo para salvá-lo.

Como certeza ele morreu feliz, havia pintado sua Capela Sistina. Ao menos isso que pensava enquanto capotava. Não soube que três dias depois do homicídio, haviam encontrado Luisa. Porém, ninguém viu nenhum chinelo. O delegado e a maioria dos policiais daquela região eram de concursos de no máximo três anos atrás, e nunca ouviram falar do Maníaco da Sorte. No final, o maníaco e a sorte acabaram.

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