Boneca do sul

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Muitos pais gostam de vestir e tratar suas filhas como verdadeiras bonecas, umas princesas no jeito de se vestirem e falar. Carolina era uma dessas meninas. Aos cinco anos de idade todas as roupas eram rosa, assim como seu quarto. Ao longo do tempo viu-se que a menina gostava da maquiagem, de pequenos animais (como sapos, cães e gatos), dos vestidos rodados, e tudo que era de alguma forma ligada aquele mundo.

Sua fisionomia e carisma garantiam diversos elogios, o que acentuava sua vontade de parecer uma boneca. Na verdade, poucas bonecas poderiam ser comparadas a ela. Com treze anos a menina media um metro e sessenta centímetros, pesando pouco mais de quarenta quilos. Pele clara e olhos azuis contrastavam com o cabelo totalmente preto. O pai dizia que o cabelo da menina tinha de ser preto, “assim poderia diminuir um pouco da luz que Carol emanava”. E quem pensar que a menina por ser criada dessa forma seria antipática, se engana. Todos a queriam bem.

A menina morava em uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, um dos poucos lugares do país onde ainda era possível ver-se neve nas ruas durante o inverno. As telhas ficavam brancas, as ruas molhadas numa mistura de gelo e barro. Com aproximadamente cinco mil habitantes eram poucos os carros que se via nas ruas. E muito menos nessa época, pois quase ninguém gostava de passar correntes nas rodas.

Em um dia nevado de julho, Carolina colocou um de seus vestidos mais bonitos. Ele era um vestido leve, com as mangas longas, e barra pouco abaixo do joelho. Algumas costuras em dourado davam a sensação de parecer sagrada. Gostava de imaginar que poderia se misturar à neve com aquela vestimenta. O vestido era para uma ocasião especial, haveria festa na praça da cidade e o pai tocaria a gaita.

Chegaram à praça logo depois do almoço. A música começaria às quatorze horas, e terminaria por volta das oito da noite (isso se não caísse uma nevasca). O pai arrumava-se no gazebo do centro da praça com sua banda. Carolina aproveitou para ir brincar com algumas amigas. Corriam para lá e para cá. Perto do horário da banda começar foi até o pai e deu um beijo de boa sorte. Os outros três membros da banda também pediram beijo. O pai fingiu ficar bravo, mas sorria quando a menina dava um selinho na bochecha de cada músico, pedindo que tocassem bem.

A banda começou a tocar e a menina sentou-se em um banco, um pouco afastada. As amigas andavam de um lado para o outro enquanto ela ouvia as músicas do pai. Pensava em como as músicas eram boas e animadas, um verdadeiro sonho.

– Parece um sonho, não é?

A menina virou-se assustada para a direção da voz. Ao seu lado, sentado também no banco, estava Zé Bruxo, um dos andarilhos da cidade. O apelido combinava bem com Zé Bruxo por causa de sua barba avantajada e sua muleta que parecia um cajado. Ninguém sabia sua idade, mas aparentava ter pouco mais de cinquenta anos.

Apesar da voz grave e calma, Zé Bruxo assustou muito Carolina. Porém, essa não se levantou do banco. Recompôs-se, e respondeu a pergunta do andarilho.

– Sim, um sonho. Principalmente quando o meu pai toca a gaita.

Sempre a ensinaram que a cidade era calma, e ninguém oferecia perigo. Ainda assim, que era necessário tomar sempre um pouco de cautela. E mostrar o pai ali, próximo, foi como ela pode sentir-se segura.

– Conheço seu pai, um homem sábio. Excelente músico e muito bom nas esmolas.

O velho sorriu olhando para a menina, que retribuiu o sorriso. Então Bruxo perguntou:

– Você já ouviu a letra dessa música?

A menina virou a cabeça para os lados negando conhecê-la. O velho continuou:

– Ela conta a história de uma prenda, menina chegando à época de suas regras, que ouviu uma música nos pampas. Seguiu o som e chegou a um velho tronco de umbu. Lá, a menina encontrou um rapaz de olhos claros que tocava a gaita. Imediatamente o rapaz começou a tocar mais animado, a prenda começou a dançar e o brilho saia por baixo de seu vestido. A noite que estava encoberta pelas nuvens se abriu. A prenda transformou-se numa bailarina de caixinha de música, onde apenas a música daquela gaita toca. Uma boneca que dança e dança todas as noites ao som da música que roubou seu coração.

A menina ouvia encantada as palavras do ancião. Não sabia que o velho andarilho podia contar histórias tão bem. Muito menos uma história que a menina acharia tão bonita quanto aquela. Logo estava confidenciando.

– Eu sempre quis ser uma boneca, uma boneca que conservasse sempre a beleza e que pudesse fazer as pessoas sorrirem ao me verem.

O andarilho olhou abismado para a menina. Não pelas palavras, mas pela verdade contida nelas. A sinceridade que só poderia vir de uma menina tão bela quanto aquela. Pensou um pouco, colocando suas ideias no lugar e então disse:

– Você gostaria mesmo de se tornar uma boneca?

– Claro, imagina, ter várias roupas, um carro, uma mansão, e sempre estar linda.

Os dois fizeram silêncio e voltaram a ouvir as belas músicas que vinham do centro da praça. Ao acabar o repertório a menina se despediu com um sorriso e foi até o grupo musical parabenizá-los. Ao olhar para o banco a procura de Zé Bruxo viu que o andarilho já não estava muito ali.

Por volta das vinte horas Carolina chegava a casa com seus pais. Tirou o sapato molhado da neve e subiu para o segundo andar, onde ficava seu quarto. Lá chegando viu uma enorme caixa, com pouco mais de um metro, tanto de altura quanto largura e profundidade. Abriu o pacote e viu uma linda casa de bonecas. Daquelas em que as portas dobram-se e é possível ver todo o interior. Quartos, banheiros, cozinha e salas. Tão detalhista quanto o Palácio de Buckingham. A menina admirada desceu correndo as escadas e agradeceu ao pai com um caloroso abraço. O pai nada entendeu, mas antes de perguntar a menina já havia retornado ao quarto.

Brincou com a casa de bonecas a noite inteira, até cair no sono ali mesmo no chão.

Quando acordou Carolina ainda com os olhos inchados se levantou do chão. Abriu a porta e foi descendo as escadas por instinto, foi quando tropeçou no ferro que prendia o tapete da escada. Milésimos de segundos pareceram minutos até Carolina se lembrar de que não havia tapete na escada de sua casa. Esfregou bem os olhos e viu o tapete vermelho na escada, com arremates dourados nos cantos. Um vento gelado bateu em seu peito e olhou para frente.

Nesse momento Carolina pensou em mil possibilidades e em nada ao mesmo temp. A sua frente via o seu próprio quarto, em proporções gigantescas. Desceu correndo a escada que parecia nunca terminar. Chegando ao térreo olhou a mesa de dezesseis lugares na sala, com um grande candelabro sobre ela. Quadros e tapetes que nunca tinha visto em sua casa. Porém, algo dizia que já havia estado ali. E o quarto gigante continuava como se fosse à parede ao lado. Finalmente, admitiu que sabia onde estava desde o principio. Havia se tornado a boneca que tanto queria, na casa de bonecas que tanto quis. E, caso tivesse duvidas ainda podia ler no espelho da sala, como se pintado de batom rosa, “aproveite seu sonho, Zé Bruxo”.

Os pais procuraram desesperadamente pela filha. A única pista era a casa de boneca encontrada no quarto, com uma boneca de olhos azuis, pele clara e cabelo negro. E aquela frase no espelho. Procuraram por todos os cantos da terra, pela menina e pelo andarilho. Ambos haviam sumido, como se nunca tivessem existido. A mãe chorava com a boneca em mãos, a boneca mais linda que já existiu.

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