Suor

12

A água quente corria pelo corpo do garoto limpando seus poros. O menino, Carlos, com os olhos fechados gostava de sentir a água esquentando seu couro cabeludo. Descendo parte pelas costas, parte pelo peito nu. O vapor, que deixava respingado o box do banheiro, seria visto como exagero por qualquer outra pessoa, visto que faziam mais de trinta graus aquele dia. Contudo, só dessa forma Carlos sentia o corpo ficar fresco.

O menino era considerado por muitos uma anomalia. Assim que seus pais o adotaram, aos dois anos de idade, souberam que aquela criança, de olhos grandes e sorriso contido, era diferente dos demais. Carlos sempre sentia frio, não importando a estação. Motivo pelo qual a família se mudou para uma das cidades mais quentes do Paraná.

Muitos exames foram feitos. A família abastada levou o menino em diversos médicos, de diferentes especialidades: endocrinologistas, neurologistas, entreoutros. Porém, nenhum deles conseguiu definir o porquê de Carlos sempre estar com frio. A única característica que diferia o menino do restante, fisicamente, era que o mesmo não suava. Apesar de não ter problema algum em suas glândulas sudoríparas, visto que quando colocado para correr muito ela suava como qualquer criança normal.

A psicóloga que o tratava acreditava que o frio sentido pelo garoto derivava da falta que sua mãe biológica teria causado a abandonar o menino no orfanato. Para ela, tratava-se apenas de uma reação psicológica, que poderia ser tratada com terapia. Motivo pelo qual era o único tratamento que o ainda fazia depois de dez anos de pesquisa. A família, vendo que não havia em nada que atrapalhasse a vida do garoto, havia decidido poupá-lo de mais exames.

Agora, com dezesseis anos de idade, já não se sentia em nada diferente dos demais. Não tinha as melhores notas na escola, mas era inteligente. Praticava natação (iniciado a pedido dos médicos), sendo um dos campeões da escola no esporte. Tinha amigos, já havia bebido uma noite ou duas. Porém, nunca saído, os pais diziam que ele ainda era muito novo pra sair para baladas.

Carlos terminou o banho e se enxugou. Vestiu uma calça qualquer, tênis e escolheu a sua melhor camisa do Iron Maiden. Pela primeira vez ia sair com uma garota, num encontro sério. Passou um perfume do pai. Tirou os três fios de bigodes do rosto. E, foi ao encontro de Suzana.

A menina de mesma idade que ele estudava em sua sala. Uma menina de estatura baixa, pouco mais de 1,60m, vinte centímetros a menos que Carlos. Não era uma menina que daria capa de revista. Porém, tinha algo que atraia e muito o menino. Talvez fosse o sorriso simpático, talvez fossem os óculos e cabelo preso, fazendo com que Carlos sempre imaginasse como seria a beleza da menina por baixo daquele formato. Com essa curiosidade o menino foi até a casa da menina.

Eram sete horas da noite quando ele tocou a campainha. O pai da moça, com cara de quem chegou do trabalho exausto, abriu a porta e perguntou com sua voz rouca:

– Então, você que é o Carlos?

– Sim, boa noite – disse o garoto engasgando duas vezes na palavra “boa” – A Suzana se encontra?

O pai da menina sorriu, como se alguém tivesse tirado toda a carga de suas costas. No ato Carlos viu da onde Suzana havia herdado a simpatia no sorriso.

– Está sim! Pode entrar e esperar na sala. Ela já sai do quarto.

Aliviado o menino pediu licença e adentrou a casa. O pai da moça mostrou o sofá. Sentaram e começaram a conversar. O pai da moça falou que Carlos era o primeiro namorado que ela levava em casa, fazendo com que o garoto ficasse rubro, ao tentar explicar que não eram namorados ainda. Ambos riram (Carlos de forma forçada, realmente estava assustado). O pai perguntou o que fariam, que horas voltariam, e pediu para tomar cuidado com uma ou duas ruas do caminho.

Vinte minutos se passaram quando Suzana entrou na sala. A menina, com a maquiagem sob os óculos, um batom de cor leve que combinava com sua pele clara, e o cabelo solto e batido. Deixou o menino sem fala. Com um sorriso deu um beijo no rosto de Carlos. E perguntou se ele estava com febre. Ele afirmou que era normal, nada com que se preocupar. O menino tocou com a mão onde havia sido beijado e no mesmo instante Suzana o puxou pela outra mão, dizendo “vamos”. Despediram-se rápido do pai da menina e seguiram.

– O que você planejou? – perguntou a menina.

– Lembra que você me disse na aula que estava com vontade de comer aquela batata do shopping? Então. Pensei em te levar lá, o que acha?

– Ótimo.

Foram andando e conversando até o shopping, que ficava pouco mais de um quilometro da casa da garota. Chegando lá pediram ambos uma batata recheada, ela de frango catupiry, ele de filé mignon. Indo pagar, o rapaz tirou o cartão do pai da carteira. Ao passar para o atendente o mesmo disse que não estavam aceitando cartão no dia. O rapaz abriu novamente a carteira e viu que não havia um centavo ali. Olhou para Suzana que já pegava sua batata e pediu que o esperasse ali, ia buscar o dinheiro no caixa eletrônico.

Foi andando apressado até o caixa eletrônico, esperou na fila por três minutos até chegar ao aparelho. Quando olhou o visor viu a mensagem que não havia dinheiro disponível. Pensou na amiga comendo a batata e ele sem ter como pagar. Passou a correr para o banco.

Chegando ao banco uma grande faixa negra informava a todos os clientes que o local estava em greve. Carlos estava desesperado. Abriu a porta e foi até o caixa eletrônico. Um após o outro indicavam que não havia dinheiro. Apenas no último, o décimo terceiro caixa, Carlos encontrou o dinheiro. Por pouco não tinha desistido de tentar. Pegou então o dinheiro e voltou a correr para o shopping.

Lá chegando, avistou Suzana com o rosto cansado da espera. Parado sentiu o aperto no peito. Como se alguém estivesse com a mão dentro de sua caixa torácica, apertando o coração esperando que ele parasse. Caminhou até a menina, pediu desculpas e sentou-se.

A menina, que tinha o rosto magoado olhou atentamente para Carlos. De repente, no pequeno rosto foi possível ver um espanto, seguido do lindo sorriso da menina. Ela esticou a mão e com o polegar enxugou o suor da testa do garoto.

– Eu nunca te vi suado.

– Normalmente eu não suo – disse, ainda admirando o sorriso da menina.

Começaram a conversar sobre o histórico médico de Carlos. Quanto mais ele contava dos médicos e testes, mais ela ficava curiosa e fazia perguntas. O papo durou do shopping até o portão da casa da menina.

– Pronto, chegamos! – disse a menina – foi uma ótima noite.

– Desculpa novamente por ter te deixado esperando, não queria deixar você esperando. Não você. – disse Carlos cabisbaixo.

A menina sorriu e perguntou:

– O que eu tenho de especial?

O menino olhou atentamente para ela. Pensou em como havia sido o dia.

– Talvez seja besteira. Já tive contato com outras pessoas, já fiquei com algumas meninas. – viu que a menina fez uma feição de que não era o que ela esperava ouvir e continuou – Porém, nunca deixei de sentir frio quando estava perto delas. Já com você, quando você me beijou no rosto, quando pegou minha mão e quando limpou meu suor, senti cada parte tocada do meu corpo esquentar. E, seu calor é muito bom.

A pequena menina não disse nada, mas com lágrimas nos olhos e na ponta dos pés beijou Carlos antes que terminasse a última palavra. Um sentiu o outro.

Carlos, ao fim do beijo, afastou seu ombro sem soltar a cintura da menina, admirando a beleza de seu rosto. Era como se a mão não estivesse mais dentro de seu peito, mas fora, o tocando num carinho. Era a mão de Suzana, que agora deixava seu coração pulsar livremente. Deram mais um beijo e se despediram, estava tarde.

No caminho para casa, Carlos sentia que seu coração batia mais rápido e mais forte. Não sentia mais frio. Sua pele queimava. Parou no meio do caminho quando viu que fumaça subia de seus braços. De tão feliz, não se importou quando viu que sua pele começava a se descolar. Roupas, pele e pelos ficaram todos no chão enquanto ele andava. Havia se tornado uma tocha humana. Com o calor passou a flutuar. Sentia-se livre pela primeira vez na vida.

Quem viu a cena diz que ele sumiu quando a não havia mais o que queimar. No entanto, alguns dizem que ele era uma estrela que veio para Terra saber como era se apaixonar.

 

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Esta entrada foi postada em Contos.

Um comentário em “Suor

  1. Nata Sierakowksi disse:

    Muito lindo!!!

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