Pingo de ouro

Bonito ver crianças, aos dois anos, chegarem à mãe e começar a fazer perguntas começadas com “por que”. Porém, ninguém espera que a primeira das perguntas seja “por que você matou o papai?”. Linda chorou e explicou ao pequeno filho que o pai, na verdade, havia morrido de câncer. E assim, Lucas foi criado. Com o pensamento sempre a frente da sua idade, recebendo de sua mãe as respostas mais simples e corretas quanto possível.

A mãe havia perdido toda sua fé, o menino, nunca tivera. Quando a mãe morreu, o menino, que tinha dez anos de idade, não chorou.  Apesar do estranho sentimento em seu peito, ele não chorou. Apenas esperou para saber quem iria cuidar dele, o que acabou sendo sua avó paterna.

Dona Chica, sua avó, era uma senhora de pouco mais de setenta anos, corpo encurvado pela idade, tez clara, cabelos brancos sempre enrolados em um coque na parte superior da nuca. Era uma pessoa com as marcas de expressão de alguém que muito sofreu. Carregava, porém, uma simpatia digna de quem nunca sofrera. Era um contraste que fazia com que, caso alguém a olhasse lembraria imediatamente da “avó boa”. Diferente de sua nora, Linda, Chica era extremamente religiosa. E provocava, em si, fé de muitos outros. A velha senhora era a benzedeira da pequena cidade do interior do Paraná.

O trabalho de benzedeira, a quem visse de fora, consistia em fazer algumas rezas buscando resolver um problema daquele que procurou a benzedeira. Linda, explicaria que isso era “abusar da falta de cultura do povo”. Lucas, não sabia nada sobre o trabalho da avó, e estranhou ao chegar a sua nova casa e ver três pessoas esperando para serem benzidas.

– Quem são aquelas pessoas na frente da casa? – perguntou à avó.

– Pessoas que vieram ser benzidas.

– E o que é ser benzido?

A avó olhou atentamente o menino. Explicou que rezava para curar, ajudar, aliviar ou livrar as pessoas do mal. Quando viu a cara azeda do menino, explicou que não era santa, que apenas rezava, quem saberia se a pessoa receberia a graça ou não era deus.

– Eu não acredito em deus, em santos e não acredito na senhora.

O menino olhava inocente para a velha avó. Não parecia julgá-la, apenas tinha exposto o que pensava, e estava tranqüilo com aquilo. Chica olhava atentamente o neto. Um pouco assustada pela falta de fé em alguém tão novo. Mas, com sua experiência, já havia visto muitas pessoas que não acreditavam no que fazia. Acreditava também que poderia mudar aquele pensamento. Foi o que tentou fazer.

– Eu não posso te mostrar Deus, mas posso te mostrar como a reza pode ajudar, quer ver?

Ele fez que sim com a cabeça atento.

– Então vá lá na frente da casa, pegue três ramas de uma mesma planta do jardim, traga pra mim e chame também os três que lá estão.

O menino foi. Os primeiros passos atentos, pensando no que viria, o restante com pressa de ver o truque.

Entrando na casa levou as ramas de uma planta chamada “pingo de ouro”. As folhas amarelas esverdeadas tinham chamado sua atenção. A avó pediu para os três que chegaram sentarem em cadeiras, pegou as varas e com olhar aprovador as segurou. Chamou antes o menino e o acompanhou até o quarto. Chegando lá perguntou:

– O que você achou das três pessoas lá fora?

Tratavam-se de três tipos diferentes de pessoas. A primeira era uma senhora, pouco mais de cinquenta anos de idade, sua roupa era simples, e ali estava para tirar um mal olhado que tinham colocado em sua casa. O segundo, um rapaz, com o rosto queimado de sol, e estava ali porque a mãe o obrigara, para ser benzido, com a intenção de parar de cometer crimes. O terceiro, um senhor, que todas as semanas ia ser benzido, apenas porque achava que era mais uma forma de rezar. O menino, pensando nos três, disse:

– A mulher parece uma velha fofoqueira. O menino um marginal. E o velho, eu não sei por que ele está aqui, deve estar querendo te namorar.

A senhora riu com o último comentário. E contou o porquê de cada um estar ali para o menino.

– Ainda acho que ela seja fofoqueira – o menino disse sério.

– É, é possível. De qualquer forma, o que vamos fazer é rezar com eles. Para cada, segurarei uma varinha dessas, que você vai escolher. Ao final, qual tiver uma carga maior, precisará de um pouco mais de reza.

O menino, incrédulo, foi com a avó novamente para a sala onde os três estavam sentados. Quando pedido, entregou a primeira vara. A avó, segurando tal vara para a cabeça do senhor mais velho, começou a rezar. Rezou uma ou duas orações. Quando entregou a vara para o neto essa estava um pouco murcha. O menino entregou a segunda, a avó procedeu exatamente da mesma forma sobre o menino que cometia os crimes. A vara murchou um pouco mais, ficando com a cor um pouco envelhecida e as folhas moles. A terceira vara foi colocada sobre a senhora que o menino chamara de fofoqueira. Dona Chica, ao olhar para a senhora, ficou assustada. Continuou com a mesma reza, a rama foi murchando mais rápido que as outras, ficando completamente negra ao final. Parecia que a vara havia sido desidratada e torrada. A avó do menino pediu para ele sair com os outros dois e suas ramas.

Quinze minutos depois, a fofoqueira saiu da casa e o menino entrou rápido na casa da avó. A velha senhora estava sentada no sofá, com um olhar cansado e pele suada.

– Como a senhora fez aquilo? – perguntou.

– Eu só rezei, pedindo a Deus para aliviar o peso dos pecados que eles carregavam.

– Não, perguntei como você queimou a vara só segurando.

– Aquele é o meio que a reza ajudou. Você viu como as pessoas saíram mais tranqüilas? Isso é porque o peso foi para as varinhas.

– Sim. Mas como? Você só rezou e queimou a varinha. Faz comigo?

– Agora você acredita em Deus?

– Não.

– Você é novo, e sua avó está cansada. Provavelmente, a vara não se curvaria. Não acredito que tenha pecados. Mesmo que não acredite em Deus.

O menino, animado, correu e pegou outra vara. A maior do jardim. Voltou correndo para a avó, esticando a varinha em sentido dela.

– Eu quero acreditar!

A senhora, com lágrimas nos olhos, pegou a vara e fez uma reza. Fez em palavras altas para que o menino ouvisse-as. O menino olhava atento, absorvendo cada palavra.

Pela primeira vez na vida da velha benzedeira, a vara ao invés de murchar, ou ficar no estado normal, começou a crescer em vida, suas folhas ficando mais verdes. Uma pequena flor que estava fechada floriu, em um roxo contrastante com a galha amarela. Ela pode dizer ao menino que aquilo era Deus.

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Esta entrada foi postada em Contos.

2 comentários em “Pingo de ouro

  1. Nata Sierakowksi disse:

    Essa senhora, não sei porque, me lembra alguém!!!

    Alguém que eu amo muuuuuuuuuuuuuito!!! XD

  2. Zulmira disse:

    Lindíssimo. Parabéns.

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