Dama Chuva

Quando eu era pequeno, meu avô me ensinou como reconhecer o tempo e o clima. Nunca tentando me transformar em um meteorologista do jornal nacional. Mas sim, passando o conhecimento de anos de vida. Dentre todas explicações dele, a que mais me chamou atenção foi sobre a Dama Chuva:
“Assim ela vem primeiro, você sente seu perfume. Não se engane, o perfume é único. Depois somente os que têm coragem sentirão o gosto de seus lábios… Não importa o estardalhaço que ela faça, sempre é bela, a dama chuva.”
Ainda muito moleque só conseguia imaginar uma dama selvagem, a qual eu teria que domar. Mas com o tempo, o perfume  tornou-se apenas a terra molhada, o gosto insípido, o estardalhaço em trovões e a dama, água. Até que um dia fechei meus olhos por completo.
Contudo, essa dama não gosta de ser desprezada. Não por alguém que aprendeu a conhecê-la, sentir seu perfume a distância. Mesmo que esse pareça ter esquecido, ela não o esquece. Um belo dia deitei num banco de praça, cansado, num cochilo. Quando sinto um pingo d’água em minha face. Com ele veio o inebriante perfume.
– Nem adianta! Não vou sair daqui!
Começou a chover, cada vez mais forte. E logo se ouviam trovões, que certamente viriam de raios cortando o céu. Com meu corpo encharcado só pensava que tudo aquilo era apenas água, apenas barulho.
Mantinha os olhos fechados, mesmo com todas as gotas que caiam sobre ele. De repente, porém, sobre meu peito, pousou algo leve, como um carinho em meio às pedradas. Sentei e olhei. À minha frente postava-se a dama mais bela de todas, com a mão sobre meu peito. Seus cabelos castanhos e lisos escorriam em água. Seu sorriso era branco como as nuvens do céu.
– Mas, quem é você? – perguntei segurando a mão em meu peito.
– Não me reconheces?
– Não pod…
Nesse instante fui beijado, um beijo doce, impossível de detalhar. Fechei meus olhos para aproveitar ao máximo. Quando novamente os abri, o céu abriu-se junto, e não mais havia uma dama em minha frente, apenas o chão molhado.
Voltei para casa. E lá, encontrei meu avô, que me olhou e disse:
– Finalmente tomou coragem e conheceu a dama?
– É vô…é vô…

nota: conto publicado no meu primeiro blog, um cara que não presta.
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