Apolo

Era perto das 18:00 horas, e eu esperava ansiosamente pelo crepúsculo, que ocorreria às 18:06 horas. Sentado num banco de espera de ônibus, no limite da cidade, virado exatamente para o oeste. O sol, que agora batia nos meus olhos, era de um amarelo forte, com o céu rosado o empurrando para baixo. A vista abaixo era um mar ralo de capim, todo dourado pela luz do astro rei, sendo pastado por algumas cabeças de gado.

Trabalho no serviço público, e trabalho muito, vez que não suporto ver meus colegas deixando o serviço para depois, e acabo  fazendo-o. Saio as cinco do serviço, então, cansado. Às vezes passo no mercado para pegar alguma coisa para casa. Mas, em regra, vou direto para o ponto de ônibus. Sento sozinho. A cidade é pequena, e apesar de haver o serviço de transporte coletivo, quase ninguém usa. Vejo o sol baixar, e vou para minha casa ficar com minha esposa, filhos e sogra.

Posso dizer que esse é o único momento que tiro para mim no dia. Veja bem, não é pouco. No verão chego a ficar ali até três horas, apenas vendo os bois pastando e o sol baixando. O local é coberto por um toldo, e num bar próximo pego uma ou duas cervejas. No inverno, porém, é sempre menos. Quando muito o sol se põe as sete. O gado também não está muito animado por conta do capim seco. Porém, confesso que é quando o sol desce mais bonito. E hoje, solstício de inverno, ele estava ainda mais bonito.

Foi a primeira vez que fui ao banco em um solstício. E logo que cheguei, senti uma calma que nunca tinha sentido. Sentia que tudo havia ficado em silêncio. Até a cerveja, que eu havia levado, parecia mais gelada. Ela descia bem. Não sobrou um problema na minha mente. O sol, pequeno até, começava a encostar no chão.

Quando novo, logo que aprendi que o sol era uma grande bola de fogo queimando no céu, ficava imaginando, fantasiosamente, quantos ele já teria matado ao encostar daquele jeito no solo. Às vezes, pensava qual seria o tamanho do buraco que ele faria no solo. Ou ainda que, a cidade, que ficava para aquele lado, teria o maior número de cegos do país, tal forte era o brilho. Lembrando disso, e vendo o sol naquele dia, sorri feito criança. Nesse momento, ouço ao meu lado:

– Lindo, não?

Um rapazote, com pouco mais de 20 anos de idade, pele clara, cabelos louro-dourados, e um sorriso simpático, que sentara sem que eu notasse, disse me dando um baita susto. Mas, logo eu estava calmo. Acredito que naquele dia jamais conseguiria ficar irritado com alguém.

– Lindo – respondi, voltando o olhar ao sol – Quando era novo, gostava de imaginar onde ele estava indo.

– E para onde ele ia? – indagou o rapaz.

– Vários locais. Não era só um monte de hélio queimando no céu. Ele queimava de felicidade porque seria a hora dele descansar. Queimava mais forte esse horário porque ele tinha de ir, mas queria deixar alguma lembrança pra gente. Para esperarmos por ele na manhã do outro dia.

Nunca tinha dito para alguém aquilo. Eu não era muito aberto.  Mas aquele sol facilitava as coisas.

Ficamos ali parados olhando o sol que agora já tinha metade sua dentro da terra. Olhei novamente o menino, os olhos dele brilhavam. Eram claros, um azul quase transparente. Parecia que o conhecia há muito tempo. Era a primeira vez que o via ali, mas o silêncio entre nós era o mesmo de velhos amigos. Nenhum estava tentando descobrir o que o outro estava pensando, apenas olhávamos para o sol, e comungávamos daquele lindo e calmo momento. Ele disse, então:

– Sempre venho nesse banco no solstício.

– Sério!? Nunca te vi. Você só vem no solstício?

– Sim.

– Entendo, deve ser por isso então, minha primeira vez.

Ele me olhou, com um olhar atento, e ao fixar os olhos nos meus disse:

– Aqui é o lugar mais bonito do mundo para vê-lo hoje.

Eu não era muito viajado, e não achei que ele seria. Mas, no fundo, não estava curioso em perguntar como ele sabia aquilo. O sol estava chegando ao final. A noite estava chegando às nossas costas. Poucos raios eram possíveis de ser vistos. O rapaz se levantando, foi seguindo em sentido a cerca. Nessa hora a magia meio que se quebrou e indaguei:

– Ei! Onde você está indo?

– Para o segundo ponto mais bonito de vê-lo hoje – respondeu com um sorriso. Eu estava assustado, ele continuou – obrigado por deixar o sol desse local ainda mais forte, até ano que vem.

O rapaz virou, e foi seguindo em direção a cerca. Quando ele ficou entre o mim e a última luz do sol, e pude ver apenas suas costas, uma explosão de brilho chegou aos meus olhos. O rapaz não estava mais ali. Foi-se com o sol. Sete minutos passados das seis horas, me levantei e fui para casa.

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Esta entrada foi postada em Contos.

3 comentários em “Apolo

  1. Angela disse:

    Lindo conto, ainda bem que Apolo não fala apenas o português… dá uma estudadinha na gramática….

    Trabalho no serviço público, e trabalho muito, vez que não suporto ver meus colegas deixando o serviço para depois, e acabo (o) fazendo-O.

  2. Angela disse:

    Rafael, quando escrevi que Apolo não fala apenas o português, quis dizer que, sua linguagem é Luz, portanto Universal. Então ele não daria tanta importância à gramática dos homens, seja em que idioma for.

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