Aos trinta

Parte I

Ali estava eu, sentado naquela velha mesa, tomando meu whisky, como fazia solitário há muitos e muitos anos. Toda noite em que me encontrava naquele bar, me isolava de meus próprios pensamentos, de outras pessoas e da dor. Passava o tempo vagando de olhar em olhar, procurando conhecer perfis diversos, apenas pelo seu comportamento, nunca conversando.

Naquela noite, porém, aconteceu um fato que me surpreendeu. Já se passavam às 10 horas da noite quando ela chegou. De cima dos saltos de seu boot, toda de preto, com exceção de umas pulseiras e de sua camisa, que eram vermelho sangue.

Já havia a visto por ali, fazia um bom tempo. Na outra ocasião havia entrado apenas para comprar um cigarro. Desta, ela se sentou. Abriu o cardápio e começou a correr os dedos pela parte de bebidas. Chamou o garçom, pediu algo a ele em tom de brincadeira, seu sorriso era estonteante. De repente notei que ela apontou para minha mesa, o garçom lhe disse algo e saiu de lado. Ao mesmo momento ela se levantara, estava caminhando em minha direção.

– Com licença. Será que eu poderia sentar-me aqui?

– Fique à vontade.

Sentou de fronte a minha cadeira, cruzando a perna direita sobre a esquerda num movimento mágico, ajeitando sua saia após o ato. Colocou suas chaves na mesa e apagou um cigarro no cinzeiro.

– Eu sei que não me conhece, mas eu conheço você!

Tantas horas ali sentado, litros e litros de whisky, e ainda não sabia quem eu era.Todavia, uma jovem, que nunca havia falado comigo, dizia ter a resposta.

– Ah é? E quem eu sou, moça?

– Rafael, e vem sempre a esse bar.

– Ah, claro. Está explicado o que Jorge, o garçom, te contou enquanto olhava para cá. Agora falta me dizer que o whisky que estou bebendo é um JW 12 anos.

– Mas eu sei coisas que um garçom não saberia.

– Bom, e quais?

– Você vem a esse bar para se isolar, pra pensar. Olha as pessoas tentando decifrá-las.

– Estou impressionado (e realmente estava). Contudo, moça, 80% dos clientes desse local buscam justamente isso. A paz, que nesse local habita, é chamativa pra qualquer pessoa que queira pensar em seus conflitos. Você mesma, deve ter vindo por esse motivo.

– Não, na verdade não. Eu vim pra te ver.

Um súbito tremor surgiu em meus joelhos, será que Jorge realmente teria contado meu nome? Ou ela teria outra fonte? Qual seria o real motivo pra ela estar ali?

– Não é primeira vez que venho aqui. Na primeira passei com alguns amigos. Compramos um maço de cigarros…

– Marlboro, light.

– Exatamente. Como você sabe?

– É o mesmo que você colocou no cinzeiro.

Ela me olhou calmamente e continuou a história.

– Naquele momento te vi, você estava com um sobretudo preto, com um copo de cowboy como hoje. E, achei interessante.

– E você veio aqui depois de três semanas pra me encontrar, mesmo sem saber que eu estaria aqui?

– Na verdade eu estava com vergonha de falar contigo. Então pedi para meu primo, o Jorge, que me dissesse se te conhecia. Aí hoje… mas, quem disse que fazem 3 semanas que eu vim?

– Você falou.

– Não! É, bem que o Jorge me disse que você era muito observador.

– Mas o que você precisa de mim?

– Ajuda!

Parte II

Tudo ia bem, tinha me casado com a moça mais linda e morava com ela em Curitiba. Dava aulas em uma faculdade particular após o término do meu mestrado. Ela procurava emprego como psicóloga. Nos amávamos e, em breve, iríamos ao México passar nossa lua de mel.

O México sempre fora o sonho de consumo dela, era como um paraíso na sua visão. Não por causa de belezas naturais, e sim, pois naquele país ela via um lugar onde ninguém pudesse nos atingir, ninguém querendo nos separar, onde poderíamos ser felizes.

Ela, antes da viagem preferiu fazer uma visita para os pais, em Paranavaí. Quando voltava, ocorreu um acidente no ônibus em que ela estava, um acidente que a levara para sempre.

– Rafael, você está assistindo TV?

– Por quê?

– Ligue-a na globo…

“O acidente que matou 39 dos 40 passageiros, ocorreu em um ônibus Paranavaí/Curitiba, após o veículo ter se chocado com um caminhão de óleo vegetal. A única sobrevivente, uma jovem que entrou em choque após o acidente, teve sua vida salva pela passageira ao seu lado, Natália…”.

Natália, minha namorada, minha esposa, minha amante. Corri desesperadamente para o local do acidente, alguns amigos já se encarregavam do funeral. Quando cheguei ao local tudo que quis fazer foi encontrar meu amor. A menina que sobrevivera quis falar comigo. E, a última coisa que precisava agora era de alguém agradecendo pela morte da minha princesa, logo não dei a mínima pra guria.

Tudo me levara àquela vida que agora levava, um professor seco, sem vínculos, que passava suas noites num bar, se lamentando entre um copo e outro de whisky. E tudo se repetiu enquanto aquela garota de preto e vermelho me pediu ajuda, como num piscar de olhos.

– E como posso te ajudar, Vanessa?

– Como sabe meu nome?

– Seu chaveiro diz Van, logo…

– Podia me chamar Vanusa.

– Mas não se chama.

– Preciso encontrar uma pessoa, e segundo minhas pesquisas, ela pode frequentar um bar nessas proximidades.

– Quem é você?

– É uma longa historia. Uma promessa.

– E como ele, ou ela, é?

– Não sei, mas sei que ele participava de um tipo de sociedade intitulada “novos humanos”.

Como ela sabia dos novos humanos? Quem é aquela garota? Por que tudo surge novamente depois de tanto tempo?

Parte III

– E quem vêm a ser esses “novos humanos” Vanessa?

– A pergunta ideal é “quem foram os novos humanos?”. Sei muito pouco a respeito deles. Apenas que era uma sociedade de poucas pessoas, que buscavam algo maior que o prazer. Ah, sim! Eles mantinham contato pela internet, hoje conhecida apenas como Gnet.

– É. Lembro-me bem quando o Google superou a Microsoft, levando esta à bancarrota.

– Eles escreviam todos seus progressos em blogs. Em alguns desses que encontrei essas informações.

– E o que é maior que o prazer?

– Acredito que seja o sentido da vida, Rafael. E acredito que o nome “novo” venha daí. Humanos que soubesse pra vieram ao mundo. Tenho o pensamento que eles encontraram o real sentido da vida, ou ao menos, tinham esse pensamento.

– Como?

– Haviam três blogs em questão. Nos dois primeiros encontrei sobre o assunto. Pelo que vi era um casal que fazia parte dos “novos humanos”. E eles citavam um terceiro blog em diversos momentos, indiretamente.

Nesse momento um frio repentino correu minha espinha. Aquela moça acabara de descrever nosso grupo. Havíamos formado aquele grupo logo após um bate papo on-line, eu, minha namorada (que depois veio a ser minha esposa), Selph e Ban, que nesse momento já haviam se casado. Todos jovens começamos a utilizar nossos blogs (com exceção de Natália que não escrevia) pra divulgar nosso pensamento. Acreditávamos sim que havia algo maior que o prazer, algo que fazia que estivéssemos juntos, casal por casal, através de toda distancia que já havia nos separado. E esse seria o motivo da vida, o outro. Eu sabia exatamente qual seria o próximo blog.

– Um cara que não presta. Esse era o nome. Justamente o mais importante. Porém estava em branco, ou melhor…

Realmente, logo após a tragédia que levara minha esposa, eu havia chegado a casa, sem nenhuma lágrima no olho e apaguei todos os arquivos daquele blog. Arquivos que mostravam um cara feliz. Eu não era mais aquele cara. Só umas frases restaram.

-… ele dizia “não existe diferença entre nós meus amigos, todos voltamos ao pó. E assim, os motivos”.

Aquela frase, que eu tentava afogar toda a minha vida, por três anos, num copo de whisky. E que, em toda manhã surgia estampada na cara de meus alunos e eu respondia “No longo prazo? No longo prazo meu aluno, como diria Keynes, todos estarão mortos”.

– Eu preciso encontrá-lo, por isso vim até o senhor. Posts, dos outros dois blogs, sempre falam para que ele “saia da adega em que se encontra, em Curitiba, e volte a viver”. E se ele vier a este bar penso que o senhor, que sempre está aqui, como disse meu primo, possa conhecê-lo.

– Desculpa moça, só conheço rostos. Não tenho o costume de conversar. Em anos, você é a primeira com quem converso, além dos garçons. Sinto muito.

Aquela conversa tinha ido muito longe, todos meus fantasmas estavam à tona. E tudo porque aquela moça queria descobrir o sentido da vida, me encontrara no gnet e pensara que eu poderia lhe dar a resposta.

– É, uma pena. Tenho um recado para ele, e a busca já é longa demais.

– Um recado? Que recado?

– Nem eu entendi direito, mas prometi que iria lhe entregar. Há uns três anos aproximadamente, eu estava vindo pra cá, havia acabado um namoro de dois anos com meu namorado, tinha que enfrentar os estudos. Tinha apenas dezoito anos e fazia cursinho em Curitiba. No ônibus da viagem uma moça, de uns 22 ou 23 anos, se sentou ao meu lado. Ela estava feliz, voltando pra casa. Mesmo assim ouvia meus lamentos, e na hora em que me abraçou pra conter minhas lágrimas aconteceu o acidente…

Não podia ser o mesmo acidente, impossível…

– …ela me salvou com seu corpo. Fiquei presa entre as ferragens com ela. As costas haviam sido perfuradas, e nos últimos segundos de vida ela me disse “procure os novos humanos, procure um cara que não presta”. Sem entender, e desesperada, perguntei quem eram eles. “Leve um recado a ele” cortou minha fala, após isso ela me disse o recado, e faleceu. Eu fui a única sobrevivente daquele acidente. Tentei falar com ele após o acidente, mas ele havia sumido. Desde então procuro ele, sem sucesso.

Eu estava petrificado. Eu que havia pensado que a garota ia apenas me agradecer. Eu que não quis a ver. Três anos na escuridão. Havia perdido as palavras e com elas os cincos sentidos. Qual seria o recado? O que minha amada lembrara de me dizer em seu ultimo instante?

– Mas é isso. De volta à procura – ela dizia se levantando da mesa, jogando seus cabelos para trás num movimento outrora atraente, pegando as chaves em cima da mesa.

– Mas – também me levantando – qual era o recado?

– Outra coisa que ainda não decifrei. “Te espero no México”.

Abaixei a cabeça, mil pensamentos na cabeça, os cabelos longos encobrindo o rosto. Todos me olhavam no bar, quando de súbito ergui a cabeça, rindo como quando “ela” me disse que me amava pela primeira vez. Todos os sentidos voltaram.

– Jorge, aqui está o dinheiro pelo whisky.

– Senhor, mas aqui tem 100 reais?

– Fique com o troco. E você, Vanessa, sua missão foi cumprida. – o sorriso já tocava as orelhas.

– Como? Minha missão? Você?

– Sim, eu sou um cara que não presta. E adeus. – virei indo em sentido a porta.

– Mas… E o que você vai fazer agora? – ela como se tivesse levado uma pancada.

– Eu? Estou indo pro México.

Nota: Esse conto foi publicado inicialmente em 3 partes, no meu antigo blog Um Cara Que Não Presta, no ano de 2006. Com ele, fui classificado em segundo lugar regional do FEMUP, de 2009. O considero como meu primeiro conto, e espero que todos tenham gostado.
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3 comentários em “Aos trinta

  1. Nata Sierakowksi disse:

    Lindo… Mas eu não gosto… hUAHuHAUhUHAUHA

  2. Marcos Cesar disse:

    Caro Rafael,

    Obrigado pela visita , se sinta convidado a voltar quando quiser, gostei do seu blog, li este conto inteiro depois volto para ler o resto. Lá no meu blog o Ira! é sempre uma referência…..

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