Pita

Eu tinha dezesseis anos, era final da década de 80, e já tinha ganhado minha primeira moto, uma 125cc vermelha, coisa mais linda. Tudo bem que era de segunda mão, mas ainda assim era novinha.

Comum era juntar os amigos, cinco ou seis, todos em suas motos, descer a Manoel Ribas, reduzindo de bar em bar e acabar na Praça dos Pioneiros. A praça ficava onde antes fora o Estádio da pequena cidade de Paranavaí, e agora, era o ponto de encontro da moçada. Minha turma parava as motos no estacionamento e sentava no banco próximo ao meio da praça, pertinho da quadra de patinação. Ficávamos todos os fins de tarde sentados ali, vendo o movimento, às vezes com uma cervejinha, às vezes cantando as menininhas. Foi ali que um dia eu conheci o Wilson.

Wilson era um cara uns dois anos mais velhos que eu. E pelo que sei morava em uma casa não muito longe da praça. Quando o conheci, foi a primeira vez que vi um mímico. Ele vestia uma camisa manga longa listrada em preto e branco, uma calça social preta com um sapato da mesma cor, luvas brancas e um chapéu de coco preto. Ele me lembrava do Raul Seixas vestido de Chaplin.

Naquele dia, tomávamos uma cerveja e ele chegou perto, seguindo uma senhora (um pouco acima do peso) que já xingava em três idiomas diferentes o mímico que a seguia. A turma não perdia uma boa piada e alguém logo soltou que “aquele pilar fazia muito pouca sombra”. Até o Wilson riu, e deixou a mulher seguir seu caminho.

 Ele se aproximou de nós e eu peguei uma cerveja na mão para oferecer. Ele olhou para mim com a mão estendida, e negou a oferta com o indicador na luva branca indo de um lado para o outro. Todos olharam para mim esperando uma resposta, a qual dei:

– Bom, assim sobra mais! – e abri a garrafa.

Então Wilson enfiou a mão no bolso direito da calça social e a tirou, segurando algo imaginário. Colocou a mão esquerda no bolso esquerdo e tirou outro item, também imaginário, mas um pouco menor. Fez a coisa menor se encaixar na maior e abriu a garrafa imaginária. Todos riram. Ele estendeu a garrafa em minha direção, e eu, com a garrafa em minhas mãos, brindei com ele. Dali surgiu nossa amizade.

A praça, naquela época, tinha uma cerca viva de um metro de altura em todos os canteiros. Não era raro vermos crianças passando pelo meio delas, os caras se abaixando atrás delas para mijar, ou ainda, dar uns pegas mais fortes nas garotas, na escuridão da praça. Também ocorria muito do Wilson pular por ela, para seguir as pessoas. Como o banco que sentávamos, próximo a quadra de patinação, ficava ao lado da cerca, ele tinha adotado aquele lugar para pregar as suas peças. Cada uma mais inteligente que a outra. Tinha gente que andava até 30 metros sem sequer notar a presença dele, copiando os gestos.

A inteligência dele não se limitava as mímicas ou seguir pessoas discretamente. Com o tempo descobrimos que ele fazia faculdade de matemática e era conhecido por todos como o gênio do curso. Dizem que, se juntassem os outros melhores alunos não daria o Q.I. dele. Tanto era que, seu apelido tinha se tornado Pitágoras. Graças a isso na verdade ele estava na faculdade. Tinha conseguido uma bolsa de estudos, pois naquela época, a faculdade ainda não tinha sido estatizada. E, seu pai, vendedor de vassouras, não conseguiria bancar uma faculdade.

Era interessante ver ele junto a nós. Era um oposto estranho. Um cara que era o mais inteligente da região, pobre, trabalhador, sem a menor vergonha de quem era. E a gente, um bando de playboys, filhos de fazendeiros ou empresários, festeiros e desleixados, que nunca trabalharam na vida e ganhavam tudo de mão beijada. Alguns diziam que não devíamos andar com ele, pois ele era pobre. Algumas mães diziam que ele era má influência, e não viam que erámos nós que tacávamos garrafas na rua, estávamos sempre bêbados pilotando e mexendo com todos. Eu o via como um espécime diferente, um motivo para dar risadas, e era o que me importava. Hoje, vejo que o único bom daquele grupo era ele. Ele nunca bebia, nunca se metia em confusão, era sempre engraçado e gostava de todos.

Um dia, estávamos torrando no sol, tomando a dita cervejinha, com Pitágoras fazendo suas mímicas ganhando seus trocados, quando ele, enquanto “conversava” conosco, olhou para um garota e simplesmente ficou embasbacado. A menina era linda, todos olhavam para ela. O seu nome era Amanda, linda, loira, com altura por volta de 1,65m, e corpo um pouco mais magro do que as modelos da época (e nem de perto tão magro quanto às modelos atuais). Todos assustados com a concentração com que ele a olhava. Incitamos ele a chegar e fazer uma mímica. Ele olhou para nós, pela primeira vez que saiba, com pavor. Eu ergui minha cerveja quando o olhar dele chegou a mim, ele sorriu tranquilo. Bateu o pé no banco, entre eu e um colega, e caiu do outro lado da cerca viva.

Amanda andava linda, sentido a nós, e quando chegou a cerca Wilson pulou para suas costas. Ele seguia ela com as mãos nas costas. Todos olhávamos. Ela notou a comoção e se virou. Foi uma cena perfeita, ela virando e ele ajoelhado, segurando 3 flores silvestres (mato mesmo) junto com algumas galhas da cerca. Todos esperaram um tapa ou uma corrida desesperada por parte dela. O que aconteceu foi um sorriso, lindo, e ela pegando as flores das mãos do mímico.

– Como é seu nome?

– Wilson, mas pode me chamar de Pitágoras, como meus amigos – pela primeira vez eu ouvia a voz de Wilson.

– Pitarogás? – ela disse, fazendo com que todos rissem num tom de voz quase feminino, de tamanha graça que achamos do erro na troca de letras. Ela olhou para nós sem graça e virou para ele para confirmar.

– Sim, Pitarogás – ele disse para acalma-la e nos calar.

Ela foi embora levando as flores com a promessa que voltaria para conversar com ele. Todos tiraram com ele.

– Com ela você fala, não é? Safado!

O apelido se mudou, e ela acabou voltando outros dias. Ela também fazia faculdade, e começaram a namorar lá, na praça ela ficava apenas 30 minutos por dia, que era o horário em que levava o lanche da tarde para seu pai, que trabalhava ali perto. Esse tempo era passado conversando, dentro da cerca viva, de mãos dadas. Wilson estava realmente feliz, o sorriso estava estampado em seus olhos. Até suas mímicas estavam mais engraçadas.

Porém, um dia eles se sentaram lá, e não tinham as mãos dadas. Ela chorava, enquanto falava. Ele chorava, enquanto ouvia. Ele não pronunciava uma palavra pra ela. E quando ela tentou o abraçar ele a afastou e se levantou. Esfregou os olhos, o que fez com que sua maquiagem borrasse. Ela se levantou, e tentou novamente abraça-lo, pedindo pra que ele falasse com ela. Nenhuma palavra veio da boca dele para ela. Ela foi embora chorando e correndo.

Pitarogás veio para o nosso lado. Peguei uma cerveja no isopor e a ofereci, pensando que ele sorrir e pegar a cerveja de seu bolso, de alguma forma o animando. Ele pegou a cerveja de minha mão e virou em apenas um gole. Enxugou um pouco de cerveja que escapara pelo lábio e me pediu outra.

– Tem certeza? – perguntei, oferecendo a cerveja.

– Não.

Mesmo assim ele pegou e virou a segunda também. Sentou e chorando contou para gente o que tinha ocorrido. Amanda ia se mudar para o Norte do país. Nunca mais se veriam. Mas isso, ou o amor, não era o pior. O pior é que ela sabia que se mudaria desde o dia em que tinham se encontrado na praça pela primeira vez, cinco meses atrás. Sabia e nunca havia falado. Tinha deixado ele gostar mais e mais dela.

– Mas mulher é assim mesmo – disse Jorge, um dos garotos do grupo – não dá pra confiar.

– Pois é – Wilson respondeu pegando mais uma cerveja. Aquele dia foi a primeira vez que Pitarogás bebeu, e encheu a cara.

No dia seguinte ele chegou sem nenhuma maquiagem. Chegou quieto, como sempre. E perguntou se iríamos beber. Eu, com a cerveja na mão, ri. Todos os dias bebíamos agora. Pitarogás faltava às aulas por chegar a casa bêbado e não conseguir ir as aulas. Suas notas caíram. Um dia ele me perguntou o que fazíamos após sair dali.

– Depende do dia. Às vezes vamos pra casa, às vezes vamos pra casa de alguém, ficar mais altos, sacas?

– Beber mais?

– Não exatamente. O Jorge tem um amigo que traz umas coisas de fora. A gente usa essas coisas.

– Tipo o que?

Àquela hora olhei para os caras, não sabia se respondia ou não. Estava claro que ele nunca tinha bebido algo mais forte, muito menos usado drogas. E hoje, sei que aquele foi o limiar.

– Maconha, Coca, Cogumelos – respondeu Jorge.

– Vocês usam drogas? – pergunta retórica, mas todos sentiam que o que ele realmente perguntava é se “ele usaria”. Todos nós já tínhamos feito a mesma pergunta. E usávamos mesmo assim.

– Acho que você tem que deixar pra lá. Tem que usar porque quer ter prazer, não pra esquecer a Amanda. – isso foi o melhor que fiz por ele.

Ele abaixou a cabeça e eu pensei que ele tivesse entendido. Quando relaxei, levei um soco que me derrubou na cerca viva. Eu olhei para ele assustado, ele tinha lágrimas nos olhos. E, virando para Jorge, ele perguntou se podia ir junto.

Wilson não mais trabalhava, não mais estudava. Apenas fumava, bebia e cheirava. Sempre com o cigarro na mão e procurando uma dose cada vez mais forte, do que quer que fosse. Ele era engraçado, confesso. Fazia misérias com o isqueiro na mão. Girava, fazia sumir e reaparecer. Um dos truques dele era encher de gás a boca e acender o isqueiro. Assoprando por um canudo ele fazia uma chama de quase 20 segundos. Logo o apelido dele tinha se tornado de Pitarogás para Pita-do-gás.

Um dia, enquanto fumávamos maconha na praça, por volta das dez da noite, ele falou para mim e Jorge:

– Queria encontrar alguma coisa mais forte.

Eu ri. Ele olhava atentamente o cigarro que segurava, enquanto soltava a fumaça. Brincando eu falei:

– Daqui uns dias você vai querer tomar chá de fita.

– E é bom? – ele me perguntou zoando.

– To de brincadeira – eu disse.- Já ouvi uns caras falando isso, mas não rola não. É muito produto químico, você ia morrer.

– Será? – ele perguntou, soltando novamente a fumaça que estava presa nele.

Dois dias se passaram, e o Pita não aparecia na praça. Então descobrimos que ele tinha sido internado por overdose. A overdose ocasionou um derrame cerebral. Só seis meses depois ele voltou a andar.

Hoje, daqueles da época quatro são empresários, incluindo a mim. Jorge é fazendeiro e político, já foi até vereador. E o Pita continua indo na praça, todos os dias, agora com suas calças caindo. Ele vive no seu próprio mundo, no seu próprio tempo. Dizem que continua fumando a maconha, mas só. Todos o veem como louco e drogado. Eu vejo o cara mais inteligente da minha época. E duas teorias passam por minha cabeça, a primeira, que fomos o pior grupo de amigos que um cara como ele poderia ter, e ele realmente ficou louco. A outra, é que ele nunca foi louco, e sua inteligência é tamanha que ele conseguiu se isolar do mundo que ele não queria para ele. Na segunda, continuamos sendo o pior grupo de amigos que alguém poderia ter, mas fomos o que ele precisava para ser o que é hoje, conforme seus planos.

Nota do autor: O texto não é uma biografia(nem me atreveria) da grande celebridade da cidade: Pita do gás. Todos os fatos e pessoas citadas neste conto são ficção, sem qualquer compromisso com a verdade ou interesse em caluniar, difamar ou injuriar alguém. O texto visa o entreterimento e qualquer coincidência é mera coincidência.
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6 comentários em “Pita

  1. Nata Sierakowksi disse:

    Excelente! Se me falassem que era verdade, certamente acreditaria!

  2. Élinson disse:

    Rapaaz, o que é isso?
    Ja acharia muito bem escrito e um retrato muito bonito de uma historia marcante. E tu finaliza contando que é ficcional o que me deixou ainda admirado. Parabens! De verdade!

  3. eduardo disse:

    RAPAZ… NUM SABIA QUE VC TEVE UMA CG 125 VERMELHA… RSRSRS… PRATICAMENTE UMA BIOGRAFIA… KKKKKKK

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