A garrafa

“Sorte é ganhar na loteria sem jogar”. Essa era a máxima daquele garoto. Não acreditava na sorte. Acho que eu que o ensinei a ser assim.

Moro apenas com ele, meu filho. Tenho uma casa que herdei de meus pais, uma grande e velha casa que dá muito mais custo que conforto. Estudei, apenas, até o meio do segundo grau. Era um aluno mediano, ou melhor, eu era um dos que “estava presente”. Alguma ordem do governador naquela época impedia que os professores nos reprovassem. Só  comparecer me garantia a nota média. Aproveitava então para fazer desenhos.

Os desenhos que me fizeram abandonar a escola. O plano era simples: desenhar, enriquecer, parar de trabalhar e viver após meus 25 anos apenas de lucro. Pois é, não foi tão fácil. Aos 16 anos já tinha descoberto que não havia talento. Meus pais já eram velhos e sem qualquer influência na sociedade. Ainda assim, tentaram me ajudar. Colocaram-me pra fora de casa.

Fui viver aos 17 em uma república de estudantes. Eu era o único que só trabalhava. Desenhava tirinhas para que o autor assinasse e publicasse nos jornais da cidade. Ganhava uma salário-mínimo e vivia como dava. Nessa época conheci a mãe do meu filho. Bruno nasceu praticamente nove meses depois desse encontro.

Com a vinda dele, pareciam que as coisas iam melhorar. Juntando a renda da namorada com a minha, conseguíamos passar os meses mais tranqüilos. Meus pais voltaram a conversar comigo por causa da criança, e também ajudavam na renda. O único ponto que ainda causava revolta neles era o sobrenome que eu tinha colocado na criança, que por sinal era como eu o chamava: Bakunin.

Talvez não tivesse sido uma boa escolha, mas eu passava por uma fase de minha vida em que muitas revoltas, com o país e com a sociedade, tomavam meus pensamentos e atos. Pensando em tal anarquia em que vivia, decidi colocar o nome do menino Bruno Jorge Bakunin.

O menino era lindo quando nasceu, digo, depois de passar a fase da “cara de joelho”. Ao crescer viam-se meus traços e da mãe de forma clara. Como a mãe, ele tinha um sorriso e olhares que faziam a alma de quem via sorrir. Os ombros deles eram mais próximos da cabeça, assim como os meus, ambos não tínhamos muito pescoço.

Eu trabalhava feito um louco. Tanto que perdi duas ou três festas do menino. Não parava de desenhar. Agora que o meu mentor tinha se aposentado, era eu que postava as tirinhas nos jornais. Não dava muito dinheiro, então era questão de quantidade de produção, quanto mais produzisse, mais ganhava. Também não vi Bakunin falar a primeira palavra ou dar o primeiro passo. A trigésima palavra dele foi “pai”. Ele já tinha três anos quando a disse pela primeira vez.

Mas eu tinha que trabalhar para conseguir pagar as contas, comprar roupas e brinquedos, fazer o mercado, ou seja, fazer dinheiro. A única coisa que tinha sobrado do anarquista que um dia havia sonhado em ser, era o nome do meu filho. Já não acreditava em deus ou governo. Não acreditava na sociedade. Minha única crença era que o consumismo era uma merda que a gente come com gosto.

Tamanha era minha gana em ganhar dinheiro que, acabei não indo aquele final de semana para o balneário, vizinho da cidade, por conta de 30 reais, 30 moedas. Foram apenas meus pais, minha namorada e meu filho. O único sobrevivente do acidente foi Bakunin.

Um caminhão, que era dirigido há 3 dias, sem parar, por um caminhoneiro “ligado”, ondulando entre as pistas de forma repentina, acertou o carro que meu pai dirigia. A carga tombou sobre o carro, que virou um pastel. A cadeirinha protegeu a criança de seis anos que, por questão de física, não foi atingido. Tirando a pequena cicatriz no braço da criança, ninguém falaria que a mesma tinha sofrido um acidente.

O luto durou muito tempo. Acabamos nos mudando para a casa agora herdada dos meus pais, saindo do aluguel. Passei a receber uma pensão por morte da namorada. E foi esse dinheiro que nos bancou os 3 meses sem produção. Estávamos os dois na mesma casa, mas não conversávamos. Eu via a necessidade nos olhos dele, que chegava e ficava perto, porém, não tinha o que dizer. Ele, apesar da idade, parecia sentir o mesmo. Precisávamos um do outro e por isso ficávamos juntos.

Uns dias após o acidente começamos a trocar palavras, e por fim, ficamos amigos. Confesso que não sabia o que ele pensava, nunca. Ele era diferente de mim, parecia mais com a mãe, dava pra ver. Não era só o sorriso e o olhar, ele tinha o jeito dela. O jeito daquelas pessoas que se doam para as outras, se entregam. Um jeito que achava fraco e, ao mesmo tempo, mais forte.

Bakunin tinha oito anos quando chegou correndo com uma garrafa de água na mão. O rosto moreno do menino estava branco. O suor escorria pela tez, e pingava do queixo. Entusiasmado ele esticou a garrafa da mão, a colocando em cima da tirinha que eu acabara de desenhar. Dei uma bronca no menino. Ele rapidamente deslocou a garrafa.  Pedi para que ele se acalmasse e me contasse o que tinha havido, se alguém tinha batido nele ou algo do tipo.

A vizinhança era pacata, e menino vivia rodando as ruas, fantasiando com histórias de dragões e cavaleiros. Em um terreno vazio, fechado, ele vivia as maiores aventuras. Contou-me, então, que nesse terreno tinha encontrado a garrafa e me pediu para ler o que tinha escrito na garrafa. Peguei a garrafa e pude ler “não venda”. Só isso, um rótulo branco com escritas em azul. Olhei para ele, confuso.

Bakunin tirou a tampa da garrafa, dando dois passos para trás, e virou a garrafa. Eu pulei para segurar e ele se safou. Correu para cozinha com a garrafa de 500ml ainda virada para baixo. Driblou-me na mesa por 1 ou 2 minutos da mesma forma. A cozinha já estava ensopada quando peguei ele. Eu estava puto. Falei que ele teria limpar aquilo tudo. O menino ria que gargalhava. Eu continuava confuso, segurando ele com a mão direita e a garrafa com a mão esquerda. Ele olhava para minha mão esquerda.

A garrafa estava cheia. Olhei para os lados e a casa estava completamente ensopada, olhei a garrafa e esta estava cheia. Totalmente cheia.

– Como você fez isso, Bakunin? – perguntei.

– Não sei.

Como podia, uma garrafa cheia de água que não se esvaziava? Milhares de pensamentos passavam por minha cabeça. Pedi para o menino que buscasse os baldes da casa. Ele foi correndo e em pouco estava com quatro baldes de 15 litros cada. Enchemos todos. E ao virar a garrafa continuava cheia.

– Será que dá pra beber? – Bakunin perguntou.

Até ali eu não havia pensado nisso. Olhei para ele, fiquei orgulhoso. Olhando os baldes e com a mãe em concha peguei um tanto de água e levei a boca. Nada diferente de água comum. Engoli, esperei morrer… E não morri. “Estamos ricos”, pensei.

Peguei o telefone e liguei para um colega do jornal. Ele me passou um outro número, de um laboratório de testes químicos. Em duas horas estava lá. Chegando com meu filho ao local, expliquei que precisava fazer um teste em um produto para descobrir o que era. Falei que topava pagar um preço alto, porém, precisava de completo sigilo. Logo, estava assinando um contrato de exclusividade, onde minhas responsabilidades eram apenas de pagar e garantir que não se tratava de material de furto ou entorpecentes.

Um técnico chegou a nós e contei a história. Ele riu. Riu mais um pouco. Não vendo eu rir também mudou a feição e perguntou se aquilo era verdade. Mostrei a garrafa. Ele pegou, sentiu o cheiro e disse: “é água”. Pedi para o técnico um balde e o enchi daquela água. Ele ficou perdido. Pegou a garrafa de minha mão e partiu para o microscópio. Eu, com Bakunin do lado, assistíamos enquanto ele pingava corantes, analisava as lâminas no microscópio e soltava um suspiro ou exclamação atrás do outro.

– Por deus, senhor. Isso é um milagre! Só tem água aí. Insípida, inodora e incolor. Mas é impossível. Só Deus.

Ele ajoelhou e começou a rezar. Apesar de estar tão espantado quanto ele com a história, eu ri. A ciência havia se rendido. Não conseguia ver uma resposta lógica, fosse cientifica ou religiosa.

Saímos, Bakunin e eu. Fomos para casa com a garrafa em mãos, ainda que sob protestos do técnico. Eu tinha que pensar no que fazer. Todos os pensamentos convergiam em carros, casas e dinheiro. Ia poder comprar qualquer coisa. Mas, eu tinha que pensar o que fazer.

Não demorou muito para nossa casa estar cheia de câmeras, repórteres e perguntas. Falava-se da garrafa, em plantões dos jornais. Aparentemente aquele técnico tinha conseguido tirar uma foto. Falava-se em milagres e logo, junto às câmeras, estavam fiéis que acreditavam que aquela água curaria até câncer. A internet, com toda sua velocidade, fez com que a coisa toda explodisse. Eu,e meu filho não podíamos mais acessar as redes sociais ou sair na rua. Bakunin ficou muito assustado.

No segundo dia, lendo um site de notícias, o menino me perguntou se não era melhor fazermos como o site dizia: “levamos a garrafa para o Oriente Médio e lá a garrafa realmente será um milagre”. A ideia era boa, mas o que ganharíamos com isso? O menino me olhou confuso e disse que água só servia pra beber mesmo.

No terceiro dia, aceitei dar uma entrevista e mostrar que a garrafa realmente existia. Três pessoas da equipe foram autorizadas a entrar na minha casa. Um deles foi o âncora e editor chefe de um dos maiores jornais do país. Ele fez as perguntas, pegou a garrafa. Mas o que queria mesmo era ver, com os próprios olhos, o “oceano na garrafa”, que era como estava sendo chamado o fenômeno. A água encheu alguns baldes e os olhos do repórter. Era incrível como todos pensavam naquilo como um milagre. Eu começava a pensar que eu tinha sorte.

Comecei a ganhar dinheiro para aparecer em programas de televisão e entrevistas em rádios. Todos queriam ver a garrafa. Movimentos de fervor religioso se organizavam em passeatas para minha cidade. Ganhei dinheiro com camisetas, chapéus e excursões da garrafa. Tamanha tinha se tornado a coisa que, rolava um boato que Estado estudava uma forma de desapropriar-me da garrafa.

Muitos fizeram ofertas pela garrafa, e, por três meses não aceitei nenhuma. Porém, uma foi inigualável. Um Sheik, dono de um ou dois países, com um poder econômico maior que mais da metade dos países independentes individualmente. Ele me ofereceu uma quantia superior ao meu poder de imaginação. Aceitei.

No dia da entrega, antes do encontro, eu havia arrancado a etiqueta que dizia “não venda”, após o choro incontrolável de Bakunin.

– A água é do mundo, não nossa – ele dizia – Temos que dá-la pro mundo.

– Não temos que dar nada, pra ninguém. Finalmente vou poder comprar o que eu quiser. Você terá um futuro bom, rico.

O menino estava com o rosto inchado quando o Sheik, em meio a diversos fotógrafos pegou a garrafa na mão enquanto me passava o cheque. Tiramos fotos.

O Sheik, então, abriu a garrafa. Fez um brinde. E tomou até não aguentar mais. Ao abaixar a garrafa para vê-la cheia viu que restava pouco mais de 100ml. Ele olhou para mim. Perguntou-me o que estava acontecendo. Eu não sabia. Peguei a garrafa, virei ela, a água escorreu para o chão, acabando.

Não tive mais nada. Até a guarda de Bakunin perdi. Fui acusado de estelionato. E hoje pego latinhas na rua para viver. Há quem pense que eu troquei a garrafa, afinal, nas fotos ela sempre tinha o rotulo branco. Para que eu a esconderia e viveria daquele jeito? Quando me perguntam o que estava escrito ali, digo que não sei.  Digo que, nunca soube entender o que meus olhos viam.  Penso que todos podem ganhar na loteria sem jogar, mas eu rasguei meu bilhete.

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Esta entrada foi postada em Contos.

4 comentários em “A garrafa

  1. Angela disse:

    Quanto ensinamento nesta história… muito boa. parabéns.

  2. PauloTamburro disse:

    RAFAEL,

    o conto é belissimo e espero que que o choro e a filosofia de Bakunin de que “a água é do mundo e não nossa” repercuta junto a direção da CEDAE aqui no Rio de Janeiro, que nos cobra o olho da cara por alguns metros cubicos deste liquido.

    Estou com Bakunin e não abro.

    Um abração carioca!

    • eucontista disse:

      Pois é. Quanto vale o copo d’água? Pagamos os custos de tratamento e manutenção de um recurso natural público ou pagamos o lucro indevido e abusivo!?

      Valeu pelo comentário! (mesmo sendo endereçado para minha xará)

      Um abraço paranaense!!!

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