Três

 

I

Há histórias que preferimos não contar. Eu mesmo não contaria isso a você, meu filho, se não me sentisse obrigado a fazê-lo. E ao final, nem sei por onde começar.

Com vinte anos todos parecem ser mais fortes, mais bonitos e mais inteligentes do que realmente são. Eu não era diferente. Em 1984 eu estava no auge. Por sorte, nunca passei necessidades na vida. E como aficionado por velocidade, eu fui a Jacarepaguá naquele ano assistir ao Prost vencer o GP Brasil. No mesmo ano, ganhei de presente uma moto. Naquela época podíamos andar sem capacetes e o vento era inebriante sobre aquela CB450 a 120 km/h.

Meus pais moravam em uma cidade há 70 km de onde eu fazia faculdade, apesar de um ou outro buraco, a estrada era boa entre as duas cidades. Não perdia a oportunidade de, aos finais de semana, correr com minha moto em suas retas e curvas.

Em uma dessas viagens, em um vale como muitos no caminho, enquanto eu descia comecei a notar que um Veraneio vinha lento na direção contrária. O caminhão que estava atrás dele parecia pressionar para que o Veraneio aumentasse a velocidade. Imaginando que havia algo errado eu reduzi. Determinada hora, quando eu já estava mais tranqüilo, o caminhão jogou de lado para fazer a ultrapassagem. Havia poucos metros entre eu e o caminhão. Não sei se ele me viu ou se apenas me ignorou, mas continuou acelerando. Não havia acostamento, tive que optar entre bater de frente com o caminhão, com o Veraneio, ou, jogar a moto para o mato. Em questão de milésimos joguei para direita e aquele momento mudou minha vida para sempre.

II

No momento em que joguei de lado a moto, tentei jogar meu corpo além da moto, por instinto eu acho. Naquela hora, senti meu pé prender no pedal do câmbio. Então passei a ter visões simultâneas. Por um lado, senti o caminhão batendo em minha perna, meu corpo girando caiu no canteiro, uma dor horrível. E no mesmo momento, vi que meu pé não havia se soltado. Vi que a lanterna do caminhão batia em minha cabeça, sem dor uma luz branca tomou minha visão.

Morto? Não sabia o que estava havendo, mas minha perna doía muito. Com as mãos na perna desfigurada, aos berros, a luz branca no fundo, pouco foi motivo de se pensar. Lembro apenas de ver o caminhão parando, o motorista descendo e correndo para o meu lado. Lembro de virar a cabeça para ver se a moto estava inteira, ela estava. Desmaiei.

III

Sempre pensei, antes do acidente, que o déjà vu era algo como o retorno de som para um músico – enquanto você fala, ouve o que disse a alguns milésimos. Como se nossa vista registrasse duas vezes a mesma imagem para nosso cérebro, com um pequeno atraso entre uma e outra, fazendo com que pensássemos estar vendo algo já visto. Hoje eu digo, não é bem assim!

Ao acordar no dia seguinte ao acidente, no hospital, com minha perna esquerda elevada, dolorida e atravessada por diversos pinos, que mais pareciam vigas de uma construção, notei que a luz branca já não estava por trás do que eu via.

Minha mãe, que tinha olheiras de uma provável noite sem dormir, me perguntou como eu estava. “Vivo” foi a resposta. Perguntou-me como foi o acidente, eu contei, mas não falei sobre o branco. Provavelmente ela diria que tinha sido algo do acidente. Seria? Estava certo que não.

Fiquei no hospital por mais duas semanas, havia risco de complicação. Meu osso tinha sido esfarelado. Confesso que não me importava com o fato da morfina fazer mal para o corpo. Tomaria até formol via oral para que aquela dor sumisse. E foi a morfina que me apagou por minha estada lá.

Na saída do hospital, enquanto estava sendo carregado por meu pai, na cadeira de rodas, um grito fez com que meu pai girasse a cadeira, nesse momento, novamente, passei a ver duas cenas. Minha perna esticada batendo num suporte e derrubando alguns papeis de anotação dos enfermeiros. E, por outro lado, minha perna continuando em frente, sem meu pai se virar, sem esbarrão da perna. Dessa vez, não foi como a luz branca. Ela continuou.

Apesar de minha perna realmente ter batido, no fundo da visão ainda estava indo para a recepção. Enquanto o meu corpo realmente estava indo para recepção, eu já havia chegado lá, olhava a parede. No momento em que minha visão de fundo subia para ver a recepcionista, meu pai posicionava meu corpo no mesmo local, e eu subia a visão para recepcionista. Déjà-vu!

Minha visão voltou a ser uma só. E foi a visão mais bela de toda minha vida. Naquele dia, vi pela primeira vez a sua mãe.

IV

A partir daquele momento, volta e meia minha cabeça disparava, acompanhando duas soluções distintas para o mesmo acontecimento. E logo após, os acontecimentos se aproximavam até se tornar apenas um: déjà vu. Na maioria das vezes era assim.

Várias coisas causavam o disparo, algo caindo, um tropeção, um barulho. Dá pra imaginar, da forma que sou desastrado o que eu tive que passar.

Um dia, três semanas após deixar o hospital, voltei lá para limpeza do machucado. O acidente me fez incluir duas visitas semanais ao hospital para esse procedimento. Nunca fui tão empolgado ao hospital como naquela época. Mariana, sua mãe, já havia me prometido sair para dançar comigo assim que minha perna melhorasse. Um dia quando sua mãe andava ao meu lado, eu a vi caindo. Ao mesmo tempo em que não caia. Na dúvida, de qual verdadeira visão, me atirei. Meu braço a protegeu e puxou contra meu peito. Ela não havia tropeçado, mas eu a segurava firme. Ofegante, as duas visões se juntaram em nosso primeiro beijo.

V

Aproveitei-me do momento. Não tendo as duas visões aquele momento pareceria romântico. Por isso, nunca contei para sua mãe sobre meu dom.

Mas quando a gente pode dizer que nossa capacidade única é um dom e quando podemos dizer ser uma maldição?

Todo momento, via coisas que deviam cair e não caiam. Via coisas estáticas que se despedaçavam no chão. Apesar do pequeno controle que desenvolvi ao longo dos anos  sobre qual visão era verdadeira, ainda era difícil ver algumas coisas. Como no dia que vi uma pessoa morrer atropelada. Segundos como no meu caso. Mas na segunda visão ela continuando andando e na real era o sangue que jorrava. Anos se passaram e eu sempre com aquilo na cabeça.

VI

 Devido a algumas tentativas de agarrar o ar sua mãe insistia em me chamar de “panela virada”. Nunca entendi, mas gostava do jeito dela pronunciar.

Foi assim que ela me chamou ao sair para o trabalho 2 meses atrás. Um dia trabalho normal, 10 horas seguidas na gerência da confecção. Alguns fornecedores tinham falhado na entrega. Mas nada com que se preocupar. Como de praxe, peguei o carro para buscar sua mãe no hospital. Passei na frutaria para pegar o mamão para o café da manhã do dia seguinte. Segui ao hospital.

Chegando lá, estacionei o carro de forma que podia ver da janela sua mãe vindo pela minha esquerda. Vi como ela foi descuidada. Vi quando o carro a acertava. Vi o sorriso em seu rosto virar pânico.

Não tive uma segunda visão, o carro simplesmente a jogou para o alto. Sai do carro às pressas e a peguei. Com os olhos ardentes corri para dentro do hospital. Sua mãe morreu em minha visão de fundo, mas estava viva em meus braços. Corri ainda mais para depositá-la numa maca ali próxima. Um enfermeiro perto olhava para mim como se não soubesse o que fazer. Gritei com ele. Eu estava desesperado. Quando enfermeiro empurrou a maca, minha visão foi novamente quebrada. Das três visões que eu tinha naquele momento, em duas sua mãe estava morta.

Incrível como o ser humano pode sentir esperanças. Naquele momento eu só esperava. Mas não demorou muito, um médico saiu, Dr. Pedro, amigo de sua mãe. Ele tinha lágrimas nos olhos enquanto vinha em minha direção. Meu coração disparou, estourou, e morri. Uma luz vermelha surgiu no que seria a quarta visão.

VII

Quando pequeno minha mãe sempre recitava um poema sobre três damas. Uma parte sempre me atraiu, ela dizia:

“Três damas, três rosas, três cores

A vida inteira em três sabores

Uma loira, branca, trazendo amor

Um ruiva, vermelha, pura dor

E quando não houver mais por quê

Haverá a morena, negra, a receber”

O poema falava sobre vida e morte, sobre como devemos viver, mas agora eu só penso em como ele diz a verdade. E, se ele diz a verdade. Na minha vida não tive três damas. Tive de dama, apenas sua mãe. Eu vi luz branca, antes de conhecê-la, meu grande amor. Vi a luz vermelha quando ela morreu. E, depois do falecimento dela, há uma semana, não penso em nada que não seja: ela me receberá?

Talvez, no fundo desse copo em minha frente eu tenha outra visão dupla, com uma outra cor qualquer. Talvez eu não morra, apenas sofra uma overdose e sare. Mas, meu filho que eu tanto amo, não posso continuar minha história sem saber se aquele poema dizia a verdade. Não posso viver, sem tentar morrer para ter com sua mãe e sua luz negra. Espero que entendas, e, sobretudo me perdoe. E só caso não aconteça nada, eu voltarei para por um ponto final nessa carta

 

 

 

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Esta entrada foi postada em Contos.

2 comentários em “Três

  1. Angela disse:

    Se vc nunca sofreu acidentes em sua vida, cuide-se, pois seus contos são bastante temáticos nesta linha.

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