Abuso

Todos os dias a história se repetia. Às onze horas da noite, após e em frente à escola, Amanda esperava que o namorado a buscasse. Então, os dois seguiam para os fundos da escola onde havia um parque, e atravessando esse parque tinham o caminho mais curto para a casa da menina. Ganhavam assim, dez minutos todos os dias. Era o tempo em que ficavam namorando na frente do portão da casa, esperando aquele momento em que o pai da menina, preocupado, passasse a ligar as luzes da casa, quando não, abrir a porta e chamá-la para dentro.

Jorge, o namorado, tinha 17 anos e já estava na faculdade. Amanda, com apenas 15 cursava o ensino médio. Como o garoto trabalhava de dia, aqueles dez minutos era o tempo que tinham para namorar. Por isso, e pela ânsia de poder apalpar sua namorada, Jorge nem cogitava ir pelo outro caminho, do contrário ficaria no máximo de mãos dadas. Eles tinham vontade de se beijar, abraçados, um tocando o corpo do outro, ainda que, sobre a roupa. Não faziam sexo, mas era o mais próximo que haviam combinado de chegar até ela entrar na faculdade. E ele não perderia por nada.

Naquela quinta-feira tudo corria bem. Havia saído a nota de matemática e a menina estava com um sorriso de orelha a orelha, afinal tinha tirado o terceiro 10 na matéria, em 3 bimestres. Ela pegou o namorado em um abraço e o encheu de beijos contando a boa nova. Jorge sorriu e aproveitou dos beijos. Pegou o material didático dela com a mão esquerda e a mão direita passou pelo ombro da guria. Assim foram caminhando.

O parque, ou projeto de parque, tinha aproximadamente 2 alqueires paulistas ao todo, mas o caminho que faziam era curto, com pouco mais de 200 metros. O que causava medo às vezes em Amanda, e também em Jorge, é que havia muitas curvas e árvores, o que não permitia que se enxergasse muito longe. Havia também alguns brinquedos de madeira rústica no parque, assim como um rio, ou “corgo” como Amanda dizia brincando, com sua ponte. A ponte era parte do trajeto deles.

Conversavam sobre uma possível promoção de Jorge quando chegaram à ponte. Como todos os dias quando passavam ali Jorge fingiu que jogaria Amanda no rio, ela ria dizendo “Pa-ra” e ele imitava o leve sotaque que ela tinha. Beijaram-se, então ouviram:

– Que bonitinho.

A voz era de um garoto na ponta da ponte. Ao olhar para ele ouviram risos vindos do outro lado, por onde haviam passado. Amanda abraçou o namorado com medo e Jorge seguiu andando levando a namorada junto.

– Olha, temos um corajoso aqui pessoal. – o rapaz na frente deles disse rindo e tirando uma arma da cintura – vamos ver quanto corajoso.

Jorge parou assustado. Amanda já chorava dizendo que não tinham dinheiro. Os dois sujeitos que estavam atrás deles foram chegando mais perto até que pegaram Jorge pelos braços. Amanda não sabia o que estava acontecendo ou o que fazer.

– Vamos mocinha – disse o rapaz com a arma em mãos, visivelmente o líder da gangue – vamos brincar. E tente não gritar, ou ele morre.

Falou aquilo como se fosse uma coisa natural, que matar um ou dois não faria diferença. O sentimento de Amanda e Jorge foi do medo ao pavor. E assim foram levados para onde havia os brinquedos, Jorge pelos braços segurados pelos dois capangas e Amanda puxada pelo sujeito com a arma.

Chegando lá amarraram Jorge a um poste de madeira. Jogaram Amanda em frente ao namorado, solta no chão e fizeram um circulo ao seu redor. Pareciam três abutres em frente à carniça pela forma como olhavam a menina. Jorge vendo aquilo ficou desesperado, tentando chutar ou se soltar de alguma forma. Mas os nós eram fortes, inclusive aquele que tinha sido forçado a morder para evitar que gritasse. A menina, irreconhecível pelas lágrimas que cobriam o rosto, pedia desculpas, pedia aos céus, pedia desculpas.

Ali, ela que era virgem, foi estuprada pelos três, de todas as formas que é possível a compreensão, em frente ao seu namorado.

Não bastasse, o plano dos estupradores era matar os dois. O líder, olhava para ela, e se abaixando perto do rosto da menina falou com a voz calma:

– Olhe para o seu namorado Amanda. É Amanda, não é? Então, olhe para ele – Jorge estava com a cabeça baixa, desolado – ele nunca mais vai te querer. E você sabe por quê? Porque ninguém vai querer namorar, casar ou sequer sair com uma vadia. É isso que você é, uma vadia. Olhe para ele e vê se não é verdade.

Amanda, com suas poucas forças olhou para o namorado, mas ela soube que aquele não era mais o garoto apaixonado que fora por ela. Os olhos deles estavam vazios de sentimentos, ou melhor, havia um, que ela demorou a entender que era nojo. E no momento que entendeu, Jorge foi baleado no peito.

– Não! – Amanda gritou.

Três segundos após, o que pareceu uma eternidade, ela olhou para o estuprador, e pela primeira vez reparou em seu rosto. Tinha feição de ter aproximadamente a mesma idade que Jorge, 17 anos, mas havia marcas na pele que o faziam parecer mais velho. Os olhos, que olhavam os dela, eram serenos, mesmo após ter matado alguém. Dava pra acreditar que aquele sujeito seria capaz de fazer qualquer um tranquilo apenas com seu olhar. Mas não ali, naquela hora isso o deixava mais assustador. Ele apontou então a arma para o rosto de Amanda.

– Você é linda, eu adoraria…

O sujeito foi interrompido por um barulho que vinha em seu sentido, era o guarda do parque com seus dois cães de guarda, dois pastores alemães pesando mais de 40 quilos cada. Olhou então para Amanda, sorriu e saiu correndo com os outros dois amigos.

Amanda foi recolhida por uma ambulância e o corpo de Jorge pelo IML. Os dois comparsas do líder foram pegos assim como a arma usada no crime. Ficou-se sabendo que o líder tinha o apelido de Binho, e nunca fora autuado pela polícia. A menina, devidos as altas notas e já ter passado em todas as matérias no terceiro bimestre teve suas faltas abonadas até o final do ano.

As férias de verão, que tanto esperava para poder passar mais tempo namorando, chegaram, mas já não tinha um namorado. Três vezes por semana saia para ir à psicóloga. Com meses do incidente, como exercício passado, passou pelo parque, que afinal era vizinho de sua casa, acompanhada de sua mãe. Chorou todo o percurso da ponte e não teve coragem de ir até a área dos brinquedos.

Chegando a casa foi para o quarto e lá não conseguiu parar de pensar em como covarde ela era. Sentia-se mal, por diversos motivos. Com a mão na virilha se olhava no espelho e relembrava, como todos os dias, do corpo sendo rasgado, do cheiro do suor dos estrupadores, do olhar vazio de Jorge, o apaziguador de Binho. Tinha ódio de si, por lembrar-se do olhar do desgraçado que tinha causado tudo aquilo e sentir paz. Enquanto, no olhar do namorado via desprezo.

Foi até a cozinha sem que ninguém a visse, pegou uma faca e colocou no bolso lateral de sua bolsa. Da mesma forma silenciosa saiu de casa. Não ia deixar aquele olhar lhe causar confusão, iria até onde fora estuprada e iria odiar aquele cara. Tinha certeza. Ia ver onde o namorado havia sido morto e ia superar. A vida continuava.

A área ainda tinha a faixa preta e amarela, usada no dia pela polícia, jogada no chão perto do brinquedo em que Jorge fora amarrado e morto. Também era visível a mancha escura de sangue seco e a madeira lascada onde a bala tinha parado ao atravessar o corpo. Mas o que ela olhava era o chão, onde havia sido rasgada ao meio, quando ouviu:

– Te amar de verdade! Eu queria te amar uma vez de verdade!

A menina simplesmente congelou e ao voltar se mover, virando para trás, Binho já estava com o rosto a menos de um palmo do seu.

Enquanto olhava para ela, com aqueles mesmo olhos pacificadores, ele falava em voz mansa e passava a mãos na nuca de Amanda. Ela não ouviu palavra alguma do que ele dizia, estava hipnotizada pelos olhos do rapaz. Então ele a puxou e a beijou. Ela cedeu e também o beijou.

Quando terminou o beijo Binho afastou vagarosamente o rosto e olhando para os olhos de Amanda e sorriu. Então, viu o sorriso de um branco ofuscante de Amanda, tão ofuscante que não o permitiu ver a faca que ia contra seu estomago. Ele caiu no mesmo local onde havia estuprado a menina.

O sorriso dela não se desfez. A faca ia de cima a baixo, deixando cada vez mais machucado o corpo. O coração ainda parecia pulsar, enquanto o sangue das artérias era jorrado cada vez mais devagar para fora do corpo. Amanda sabia que aquilo eram apenas reflexos.  Já não havia batimentos, e sim, espasmos. Mas ainda assim, vendo a faca e suas mãos cheias de sangue a faziam sentir um prazer próximo a um orgasmo, porém o júbilo era muito maior.

Passado um tempo – ela não saberia precisar quanto – se levantou. Olhou o corpo ali estirado e riu. Olhou a faca novamente, com mais cuidado. Tirou um lenço da bolsa que agora pousava ao seu ombro. Limpou a faca. Virou o lenço e enrolou a faca com o lado ainda limpo.

Amanda nunca tivera a intenção de matar alguém e se admirou pela facilidade com que aquilo acontecera. Era diferente do que ouvira em um seriado da tv. Enfiar uma faca em outro não era como furar uma melancia, a pele não apenas fura, ela estica até um ponto, um limiar, estoura em um ponto minúsculo e tenta voltar à posição normal engolindo a faca que mergulha cada vez mais fundo. E quando a faca é puxada de volta e novamente forçada contra a pele a sensação é diferente, pois agora o primeiro furo mudou a elasticidade da pele. Cada golpe então é único, e ela sentiu todos, um a um e suas diferenças.

Foi para a casa e tentou  viver sua vida de forma normal. Não se descobriu quem matou Binho, o pai de Amanda foi suspeito, mas nada se provou. A menina fez faculdade e hoje ensina as crianças daquela mesma escola. Nunca conseguiu se afastar.

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3 comentários em “Abuso

  1. Nata Sierakowksi disse:

    É… Eu quase acertei!

  2. Angela disse:

    Bom conto, vc mantém o suspense e o interesse. E, exatamente por ser bom, merece ser cuidado e revisto. Faça isto, seu conto merece.
    Um ex. ‘Tirou um lenço da bolsa que agora pousava EM (ao) seu ombro.

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