Copo de leite

Todo sábado, por volta do meio-dia, Pedro sentava no mesmo banco, no mesmo bar, com um copo de cerveja gelado à sua frente e ao lado deste um copo de leite branco. Seu parceiro chegava com um belo sorriso, soltava a mochila e bebia o leite, às 12h15min. Pedro adorava passar aqueles minutos na expectativa.

Ele era um homem jovem, 31 anos de idade, sempre sorridente mesmo quando falava de sua profissão. Era contador, e trabalhar fechado de segunda a sexta em um grande escritório havia lhe rendido, segundo ele, os três fios de cabelo branco que se destacavam no seu cabelo preto. Ele os chamava de Huguinho, Zezinho e Luizinho.

Já fora casado, entre seus 18 e 24 anos, ela se chamava Helena. Uma menina forte, inteligente e bela. Conheceram-se no colégio, mas só ao entrarem na Faculdade começaram a namorar. Não tinha intenção, mas como essas coisas acontecem, acabou colocando na barriga da guria que queria casar. Tentou fazer o certo e se casou.

Ele a amava, mas amou muito mais o menino, Antonio. Com o tempo fazia tudo pelo menino. Com o tempo Helena passou a se sentir de lado, e mesmo amando o marido, se separaram. Não houve briga, nem nada. Ela simplesmente falou que não se sentia bem com a situação e disse que ia para a casa da mãe. Pedro perguntou se poderia continuar vendo o filho, e ela disse que sim, entre soluços, disse que amava demais os dois para impedir a união de pai e filho.

Dali em diante Pedro namorou uma ou duas vezes, mas não se ligou a ninguém. Nenhuma moça ficava contente em ter de segui-lo, acompanhados de Antonio, por todo o final de semana. Elas terminavam, ele ficava chateado um tempo, mas nada que impedisse que um sorriso lhe brotasse ao ver seu filho, seu parceiro, a cada final de semana.

Sempre pegava Antonio na sexta-feira, salvo se a mãe fosse sair pra jantar com o menino ou apresenta-lo para algum novo namorado dela. Às seis da tarde o menino já esperava impaciente junto ao porteiro do prédio, olhando nos monitores o retrato das câmeras externas do prédio. E antes de parar a moto Pedro já o via vindo com a mochila nas costas, uma sacola na mão e um sorriso no rosto. A mãe de Pedro falara que os sorrisos dos dois eram iguais, capazes de animar qualquer um. Talvez por isso aquele sorriso fosse tão gostoso, por Pedro se ver e se orgulhar do filho.

– Oi pai, cadê meu capacete?

– No lugar de sempre parceiro! Passa essa sacola pra cá.

Pedro pegava o capacete e passava para Antonio. Enquanto o menino colocava o capacete Pedro coloca a sacola de roupas pendurada no guidão da moto. Então, começava o final de semana.

O primeiro passo era aumentar a volta de moto em pelo menos 10 quadras além do necessário. É difícil dizer quem mais gostava daquilo, se o menino que tinha o vento batendo no rosto ou o pai apreciando o abraço do filho em sua cintura. Chegavam então no apartamento. Ao abrir a porta Antonio corria para seu quarto e antes de Pedro fechar a porta o menino já estava de volta ao seu lado perguntando o que tinha pra comer. O pai o puxava pra cozinha e mostrava o prato ou a idéia para a noite. Sempre variavam, às vezes cozinhavam juntos, algumas outras acabavam pedindo uma pizza. Um contava para o outro sua semana. Jogavam videogame ou assistiam um filme, sempre ficando no apartamento na sexta. De manhã no sábado Antonio tinha aulas de inglês. Por uma questão estratégica a escola ficava dois quarteirões de um estádio de futebol, do time dos dois.  Outras duas quadras da escola ficava o bar de um amigo de Pedro, Bigode.

 O nome do Bigode coincidentemente era Pedro, e Antonio, na época com pouco mais de 5 anos, resolveu chamar o pai de Pedro sem bigode e ao dono do bar de Pedro com Bigode. Todos achavam graça e o Pedro, dono do bar, acabou virando o Bigode. Ficavam no bar do meio-dia até às 15h30min. Se havia jogo no estádio iam para lá, se não iam para o apartamento de Pedro. Apesar de sempre levar Antonio ao bar (na verdade esperava-o lá), Pedro não gostava de assistir jogo no bar, o povo se exaltava muito. Todo trajeto no sábado era feito de ônibus, então, ao chegar à casa a primeira coisa que faziam era tomar um banho. Sábado acabava com uma ida no cinema ou com mais videogame. Domingo o dia começava as 8, quando Antonio fazia suas tarefas da escola. Ao acabar iam até a casa de Helena, onde almoçavam juntos, e Pedro se despedia.

Apesar de costumeiro, o fato de Pedro estar ali sentado nesse sábado ao meio-dia foi estranho a todos os amigos que ali freqüentavam. Também foi estranho para quem não o conhecia. Havia chegado e todos o seguiram com os olhos. Deu um sorriso forçado e pediu a Bigode que lhe servisse o de sempre. Logo o dono do bar, ainda atônito, mas sábio, abriu uma cerveja gelada e deixou o liquido cair no copo nevado. Colocou o copo em frente a Pedro, e com os olhos mareados virou-se em sentido a pia para lavar os copos.

Nesse momento Pedro segurou a mão do barman e perguntou:

– Ei Bigode, não está se esquecendo de nada?

Bigode olhou para Pedro, a cabeça e braço esquerdos enfaixados, o sangue escorrendo das têmporas, o rosto todo escoriado assim como todo seu corpo, vestindo nada mais que uma roupa de hospital que o deixava com as nádegas ao vento. Viu ali um homem totalmente acabado, um amigo, e uma multidão que se calou para ouvir a conversa dos dois.

Pedro seguiu o olhar do amigo e viu que todos olhavam para ele. Então, olhou o próprio corpo, começando dos pés descalços, o lençol que o cobria, o braço quebrado. Como um furacão, a noite anterior passou pelos seus olhos novamente.

Pegara Antonio no horário normal, o sorriso no rosto do menino, o passeio de moto. Três ou quatro quadras para chegar ao apartamento, um carro, desgovernado, entrou na frente cruzando a preferencial, Pedro desviou a moto, a mochila no guidão prendeu o cabo do acelerador, a moto empinou, se descontrolou, por fim bateu em uma caçamba de entulhos.

A procura pelo filho interrompe-se em seu inicio, Pedro desmaia ao tentar se levantar e fica semi-acordado. Ambulância chega ao local, ele é colocado na maca, Antonio também. Porém, a de Antonio seguiu com outro destino: IML.

Ao acordar Helena estava ao seu lado, segurando sua mão. Nos rosto olheiras de quem havia sofrido a noite inteira. Não. Aqueles olhos eram de quem havia sofrido por uma vida. Aos prantos ela fez um misto de perguntar o que havia ocorrido, e de explicar o que havia ocorrido.  Ele não se lembrara até ali. Olhou o relógio do hospital, que ficava em cima da porta de seu quarto. Levantou-se e saiu andando, do jeito que estava. Alguns tentaram impedir, Helena tentou, mas ele se safou e seguiu (como, nem ele soube).

Ainda olhava o braço, por aqueles dois segundos em que se lembrou de como morreu. As lágrimas corriam em sua face misturando ao sangue da bochecha e queixo ralados. Olhou para Bigode, que disse:

– Meus pêsames, garoto.

Bigode pegou um copo, completou com leite e colocou ao lado de Pedro.

– Vou esperar aqui, ele sempre vem, tudo bem? – Pedro perguntou afirmando sem qualquer esperança. Baixou o rosto e começou a soluçar. O dono do bar colocou a mão no ombro do amigo.

– Pode esperar pelo tempo que precisar. Todos aqui vamos.

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2 comentários em “Copo de leite

  1. Nata Sierakowksi disse:

    Já falei que adoro seus contos? Esse é triste. Mas lindo e tocante!

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