Uba

Sempre achei estranhas essas pessoas que tratam animais como pessoas, comprando roupas, perfumes, pagando dias no salão (pet shop), SPA canino, e não estaria mentindo ao dizer que, já vi um cachorro num carrinho de bebê sendo empurrado por uma madame na praça da cidade.  E olha que trabalho com cães e gatos o dia todo. Tá certo que no centro de zoonoses que gerencio os animais jamais sonharam com um SPA.  Salvo aqueles que após ficarem velhos são misteriosamente “perdidos” por seus donos, que ao invés de os procurarem, compram um novo filhote de imediato.

Gosto de cães, não muito de gatos, mas de cães sim. Todos os cães da zoonoses parecem sempre estar felizes a me ver, e não só na hora da comida. Então, posso dizer que nos damos bem. Conheço todos os pelo nome, o dobermann Duque com seu temperamento explosivo, e também o Rolha, um vira-latas que fica mordendo o rabo do Duque até ele explodir, quando o Rolha se esconde no tumulto de cães. O Cerberus, ou melhor, “os” Cerberus, três pinschers que são um o focinho do outro e nunca há mais de 15 cm de distância entre eles, vivem juntos. São mais de 120 cães, aproximadamente 30 gatos, umas galinhas (sim, temos galinhas), duas araras de asas cortadas e o Billie Joe, o cágado da zoonoses.  O centro de zoonoses é bem pequeno, também pudera, a cidade tem menos de 20 mil habitantes. Não sei como conseguimos manter tantos animais.

A cidade sendo pequena é daquelas onde todos conhecem todos. O vizinho é primo do amigo do meu irmão e por aí vai. Mas se engana quem pensa que cidade pequena, por todos se conhecerem, é um local comportado, sem traição, brigas e política. Política em cidade pequena é praticamente o que move a cidade. Afinal, no Brasil existem cidades que são grandes cabideiros políticos. Os filhos do governador estão desempregados? Vamos criar um novo município que tudo se resolve. Quando acabar o os espaços vazios no sul a gente vai para o norte tomar chimarrão no amazonas. E se lá todos os cargos políticos estiverem ocupados ou a família estiver muito grande (o que vier primeiro) criamos um novo estado-membro. E as cidades pequenas são o reflexo disto. A minha, por exemplo, é uma onde há duas famílias, logo, em época de eleições as brigas são feias, ovos são jogados nas casas da concorrência, carros são amarrados em praça pública numa aposta “casada”. E eu, como não sou de nenhuma das famílias vendi meu voto por esse cargo na zoonoses.

Uma coisa leva a outra e logo eu estava participando do conselho de desenvolvimento da cidade. Qualquer um pode participar na verdade, e como eu não tinha nada pra fazer de quintas de manhã, resolvi figurar no sistema político da cidade. Gosto da coisa de ser chamado de senhor, mas só tem graça quando você ouve numa apresentação e não em um “desculpe senhor, mas seu pedido de auxílio-doença foi negado pelo INSS” – como se eu não tivesse pagado R$ 30 por aquele atestado com o Seu Joaquim da esquina. É legal ouvir “senhor diretor chefe do centro intermunicipal de zoonoses do distrito de …”, por mais que eu não seja veterinário ou qualquer coisa do gênero, fico me achando o doutor.

Foi no conselho de desenvolvimento que conheci o Uba, um garoto com pouco mais de quinze anos. Uba era na verdade o apelido colocado nele, porque era a única coisa que ele dizia. Era “uba” pra cá e “uba” pra lá. O rapaz tinha uma estranha flexibilidade nas pernas, provado pelo pé direito em cima da mesa do conselho. A barba de adolescente, uma barba falha, de alguns fios finos e de tamanhos distintos. O cabelo parecia cortado por um canivete. Tinha pontas maiores de um lado do que do outro, alguém disse que ele não ficava parado e por isso tinha desistido de cortar. Suas roupas eram normais, e ele estava limpo, mas se via que ele estava assustado com seu próprio cheiro, não parava de se cheirar. Mais claro que sua preocupação com o próprio cheiro era o pavor enquanto olhavam as quase dez pessoas em sua frente.

Uba tinha nascido em uma ilha ribeirinha, e pelo que imaginávamos, ainda na sua infância perdeu seus pais. A malária, apesar de contida no estado do Paraná, tinha alguns registros nesse tipo de ilhas, e era bem possível que ela tivesse matado os pais de Uba. Talvez tenha sido outra coisa. A questão é que ele foi achado sozinho na ilha, a não ser por dois cachorros que estavam juntos a ele. Os cachorros eram dois vira-latas, e tiveram que ser tranqüilizados pela polícia verde, um não resistiu e morreu, o outro estava no centro de zoonoses.

Apesar de já ter visto o cachorro, o qual eu tinha trancado em um canil separado por ele ser muito violento, era a primeira vez que via o garoto. Ele, apesar do nervoso se aproximou de mim, todos na sala olharam. Ele veio meio de pé, meio de quatro, e me cheirou. O medo pareceu sumir dos olhos dele.  Eu ergui a mão para seu cabelo e ele olhou atento ao movimento, rosnou como faz um cachorro, e ao sentir minha mão amoleceu o corpo e deitou a cabeça em meu joelho.

Havia quinze dias que o menino fora descoberto na ilha e nesse período já tinha sido examinado e analisado pelos três médicos da cidade e pela única psicóloga. Apesar de suas graduações não sabiam o que fazer com o menino. Não era possível colocá-lo na escola, por mal falava “uba”, era muito velho para uma creche e nenhuma pessoa até agora tinha se disposto a levar o menino para casa.

Enquanto eu acariciava Uba, todos discutiam seu futuro e por fim decidiram que o levariam para uma cidade maior, vizinha nossa, e lá tentariam cuidar do menino. Quando a reunião terminou e vieram me cumprimentar Uba rosnou e não deixou chegarem perto. Eu o afastei, ele ficou com uma cara de gato-de-botas, e os cumprimentei. Porém, quando estava me retirando ele foi me seguindo. Tentaram o segurar e ele mordeu o braço de um homem.

Vendo a situação, perguntei ao prefeito se eu poderia levá-lo pra casa, até que arranjassem de forma definitiva algo pra fazer com ele. O prefeito perguntou para um médico e para psicóloga que autorizaram. Então, Uba e eu fomos para casa.

Minha casa não é lá essas coisas. Ser chamado de senhor ainda não conserta infiltrações ou faz aumentar o quartinho dos fundos o transformando numa edícula. É uma casa de 105 metros quadrados, três quartos, sendo uma suíte, uma sala e cozinhas espaçosas (espaço acentuado pela falta de móveis).  Lá moramos minha esposa e eu. Não temos cachorros em casa, trabalho é trabalho.

Clemilda é uma mulher simples, bonita considerando o histórico da cidade, com quem eu casei uns três anos antes de entrar pra zoonoses. Não por não haver trabalho na cidade (e não há), mas por opção, ela nunca quis trabalhar. Ora, também não é madame.  Então fica o dia todo em casa. E lá estava quando eu cheguei com Uba.

– Quem é esse?

– Ah, amor, esse é o Uba. Vai ficar conosco uns dias até acharem o que fazer com ele.

Claro que ela não gostou, ser pega de surpresa, nem tinha arrumado o quarto e outras coisas quando se tem visitas em casa. Mas falei pra ela que não carecia de luxo. Contei a história do menino e ela se compadeceu.

No começo foi estranho. Não sabíamos se colocávamos o prato na mesa ou no chão. Já aprendera a se limpar após fazer o número 2, nos dias que ficou aos cuidados médicos.  Porém, eu tinha que cuidar quando ele ia tomar banho para que não bebesse o xampu ou comesse o sabonete. Escovas de dente nem se fala, ele ficava roendo uns 15 minutos, até perder a graça. Eu considerava que os dentes estavam escovados. Era como ensinar um cachorro a falar e se comportar. A vantagem é que ele entendia rápido, ele aprendia rápido.

Foi por isso, que eu matei o desgraçado, senhor juiz. Depois de umas duas semanas em casa ele tinha aprendido demais. E quando eu cheguei cansado e sujo do trabalho, pela primeira vez ele não veio me receber. Mas não apenas isso, tava ele lá, na cozinha, com a língua de fora e trepado, como cachorro e cadela, em cima da Clemilda. Nem me ouviram entrar, tamanha era a “sem-vergonhice”. Peguei a arma e matei os dois animais.

Como eu falei doutor, nunca entendi esse pessoal que trata animais como pessoa. Eu não sou assim. Se ali fosse pessoa eu tinha conversado. Mas aquilo era animal. Doutor. Ah, se era.

Anúncios
Esta entrada foi postada em Contos.

2 comentários em “Uba

  1. Nata Sierakowski disse:

    Surpreendente.

    Sério… nenhuma outra palavra se encaixaria melhor aqui!

  2. Angela disse:

    muito bom! e, como já disse a Nata, surpreendente!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s