Despertar

Jorge acordou. Manteve os olhos fechados por um instante, como sempre fazia ao acordar. Tentava lembrar seu último sonho. Lembrava de estar sonhando com o deserto. Não havia um sentido para o qual caminhar, pois não sabia onde queria chegar. Portanto, decidiu seguir a oeste usando como bússola o sol, que a esse momento começava a gerar uma sombra às suas costas.

Lembrou que tinha encontrado uma construção. Uma construção que salvou sua vida, pois uma tempestade de areia surgira. Foram lufadas de areia, uma após a outra, que faziam com que se sentisse desprotegido, ainda estando atrás daquela parede. Mas não era só uma parede, parecia uma caixa quando se via como a areia o cercava principalmente para um claustrofóbico como ele. Suas roupas pesadas que serviam para manter a noite do deserto quente, naquele momento fritavam seu corpo. Mas não era apenas no sonho, estava muito quente mesmo. Jorge abriu os olhos.

– Mas que merda é essa?

Tudo estava escuro. Não conseguia enxergar um palmo à frente do nariz. Nem ao menos via a ponta de seu nariz. Um cheiro de flores mortas tomou suas narinas. O cheiro que inundava o ambiente. Com reação quase automática ao cheiro levantou a cabeça, essa se chocou fortemente com uma parede fazendo que Jorge voltasse a esticar o corpo.

Tentou levar a mão à cabeça, mas quando fez isso sentiu que o braço estava coberto por algo. Em uma fração de segundos percebeu que eram as flores. Uma imagem veio a sua memória. Jorge mexeu as pernas, chutou. O que ouviu foi algo como um arbusto sendo mexido e um baque abafado na madeira. A imagem ficou então clara em sua mente, estava em uma caixa fechada, estava em um caixão.

– Eu não sei quem está fazendo isso ou como conseguiu me enfiar aqui, mas não tem…

Jorge era garçom e nos finais de semana fazia alguns bicos como assistente de som para uma banda de garagem, por isso parou antes de terminar a frase. Parou, pois pela forma que o som se propagava sabia que ninguém fora daquela caixa (ainda não conseguia acreditar que estivesse em um caixão) conseguia o ouvir, estava em uma caixa com isolamento acústico.

Quem quer que tenha feito aquela brincadeira, havia conseguido colocá-lo dentro da caixa, o cobrindo com flores e provavelmente estivesse em um estúdio de gravação. Portanto, não podia ser sua noiva, ela não sabia nada de isolamentos acústicos. Também não podiam ser os rapazes da banda, eles não eram tão inteligentes a ponto de não acordá-lo. Não sobravam muitas opções. Ou melhor, não sobrava nenhuma. A não ser que tivesse sido enterrado vivo.

Já ouvira casos de pessoas enterradas vivas. Havia uma doença, a qual não lembrava o nome, que fazia com que o corpo da pessoa parecesse morto. Algo como o ritmo dos batimentos cardíacos diminuírem, algo assim. Viu a notícia no Fantástico. Mas havia algo que não batia, na reportagem falaram que a pessoa percebia o que ocorria a sua volta enquanto os outros achavam que ela estava morta. Mas ele não se lembrava de nada desse tipo. Então, como um clarão, veio o sonho à tona com suas lufadas de areia na caixa. Soube então naquele momento que não era areia e sim terra, e que não era uma caixa e sim um caixão: fora enterrado vivo.

Apesar de tudo que pensou, não havia mais de dois minutos que acordara e batera a cabeça. Sua cabeça fervilhava de pensamentos. Por algum motivo lembrou-se da história do turco que em seu leito de morte, com todos seus filhos ao redor da cama, perguntou: “mas quem está cuidando da lojinha?”.

Não podia estar enterrado. Mexendo os braços empurrou as flores da parte de cima do corpo para baixo. Ergueu as mãos e sentiu a tampa do caixão. Empurrou, não sentiu mudança. Parecia que o local estava ficando menor, sua garganta começava a se fechar em um nó e a respiração ficava difícil. Não podia estar naquele caixão. Não havia razão. Tinha que sair.

-Ei! Estou aqui! Estou no caixão! Me tirem daqui!

Começou a bater no caixão, naquela “merda” de caixão. Chutava com os bicos dos pés, socava sem jeito com os braços que não esticavam. Sua cabeça fervia, estava com raiva. Raiva do caixão, raiva das flores, raiva do seu braço não esticar, raiva de ninguém lhe ouvir, raiva de sentir tanta raiva. Batia de um lado, do outro, onde alcançava. De repente, ao socar próximo ao local onde a tampa se encaixava no caixão, ouviu um baque. Dessa vez, porém, o som não era abafado, e sim oco. Ali provavelmente não haveria terra.

Apesar de sua altura de mais de 1,80 metros, Jorge não pesava mais que 62 quilos, e foi fácil naquele momento ter se virado no caixão. Não mexeu as pernas, mas seu tronco estava virado para a parte “oca” quando começou a socar.

Sua mão direita batia fortemente e a cada batida ouvia o som oco. Naquele momento, e talvez apenas naquele momento, Jorge orou. Não uma oração completa, mas algo como uma barganha, a mais simples de todas: “se saísse dali, seria um homem melhor”. Não sabia se Deus o podia ouvir, mas enquanto pensava no que faria não pensava em sua mão, que com as constantes batidas já começava a se rasgar e sangrar.

Já quase parando de bater ouviu o barulho de uma madeira rachar. Não pensou, continuou batendo. Bateu mais forte. Não mais importava a mão com a qual carregava a bandeja, queria sair dali. Foi quando a madeira rachou de vez.

A mão de Jorge passou pelo buraco feito, o braço também. Era um vão de pouco mais de um metro, provavelmente ocasionado devido a alguma coroa de flores posta sobre o caixão.

Foi ao tentar puxar o braço de volta que percebeu que este estava preso. Preso no buraco pelo qual a mão tinha passado de uma vez. Sentiu, então, o sangue correndo na mão, no pulso e pouco acima do cotovelo onde a madeira furava sua carne. Tentou puxar outra vez, e suas esperanças acabaram.

Um monte de terra caiu sobre seu braço que estava pendurado para fora do caixão. Nada mais que um deslizamento, porém, a dor foi cruciante. Não apenas a dor do braço, mas de toda sua alma.

Não conseguia imaginar uma possibilidade de sair dali. Não sairia. Não se casaria com sua noiva. Não teria seus quinze filhos, não teria um sequer. Não acompanharia a banda quando essa ficasse famosa. Ia morrer sozinho e ninguém saberia como ele realmente havia morrido. Chorou, começando com uma pequena lágrima e se transformando num emaranhado de pensamentos tristes. Ia morrer.

Sentia a falta de ar, mas sabia que já não era mais a claustrofobia. Gritando, batendo, chorando – seu ar estava acabando. Com o corpo preso só restava esperar tudo acontecer, relaxou seu corpo.

Lembrou-se do dia em que sua noiva havia descoberto a aliança por acidente dentro de sua gaveta do banheiro. Como ela veio séria e perguntou o que significava aquilo e ele apenas respondera “acho que significa você”. Como ela chorou e o abraçou. Como seus lábios ficavam quentes quando ela chorava, como eles ficavam quentes.

Lembrou-se e fechou os olhos.

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Diário do Interior. Domingo, 15 de abril de 1993.

Homem enterrado vivo!

Fato intrigante ocorreu ontem em uma cidadezinha do interior do Paraná. No período da tarde, às 15:00 horas foi exumado o corpo de Jorge Antunes Neto. Rapaz de 25 anos enterrado na última terça-feira. A exumação ocorreu por autorização judicial devido a relato do coveiro da cidade, Antônio Boa-Morte, que disse ter ouvido fortes gritos vindos da seção 3-C do cemitério. “Parecia que os mortos queriam voltar à vida”. Boa-morte, muito assustado, relata ainda que só ao exumar o terceiro corpo (o de Jorge) descobriram que ele falava a verdade. “Mal quiseram desenterrar o segundo”.

O caixão foi encontrado em uma posição torta e o braço direito do falecido estava saindo do caixão por um buraco feito neste. Conforme perícia, ainda de forma preliminar, Jorge sofria provavelmente de Catalepsia ou Paralisia do Sono, pois quando foi feito o óbito na terça estava sem movimentos ou batimentos cardíacos. Também foi constatado que Jorge morreu por volta de sexta-feira devido falta de ar, pelo inchaço atual do corpo.

A família e a noiva de Jorge, que terão acompanhamento psicológico da Prefeitura, decidiram cremar o corpo assim que liberado pela perícia. “Sabia que não podia tê-lo enterrado. Meu filho era claustrofóbico” declara a abalada mãe de Jorge.

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3 comentários em “Despertar

  1. Angela disse:

    Muito bem engendrado, terrível! Mantém o suspense, parabéns!

  2. Ana Paula disse:

    Jesus amado…que agonia.
    Tava ficando sem ar junto com o Jorge!

    Parabéns, Rafa…muito bom!!

  3. Nata Sierakowksi disse:

    Pois é. Li quando você escreveu, achei ótimo, mas não vou ler denovo (agora)!
    Só quero te desejar sorte nesse novo blog! Espero que você seja tão bom quanto quando você não prestava.
    E que um dia, por favor, você fique famoso por isso, e me compre vários presentes com o dinheiro que você ganhar!

    te amo.

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